Frente Ampla, uma necessidade histórica

Costuma ensinar a sabedoria popular que “não se deve jogar fora a criança junto com a placenta”, numa referência óbvia ao fato de que em qualquer avaliação devemos ter o cuidado de diferenciar aquilo que é vital daquilo que é descartável ou que já cumpriu sua função.

Por Alex Saratt*

O rico e potente debate sobre a linha política central dos comunistas para o período atual e futuro segue essa dística: procura examinar com critério, abrangência e responsabilidade o nosso papel, funcionamento e ação durante o curto e inédito ciclo político e histórico vivido sob os Governos Lula e Dilma, extrair lições e ensinamentos, avaliar quadros concretos e projetar uma linha de atuação que se componha a partir dessa miríade de fatores.

A proposição central, Frente Ampla, é resultante não só de acúmulos e perdas contabilizadas no período imediatamente anterior, mas de uma leitura e interpretação da formação histórico-social do Brasil profundo com suas estruturas ambíguas, sincréticas, desiguais e contraditórias e também das perspectivas imediatas e futuras dada a involução degenerativa dos elementos societários e econômicos nacionais do cenário atual.

Cabe, portanto, não somente elencar êxitos ou frustrações, mas relacioná-los de forma materialista, histórica e dialeticamente, para, repetindo a idéia acima exposta, “não jogar fora a criança junto com a placenta”.

Indiscutivelmente, o período que compreendeu os 13 anos de governança petista, com nossa presença decidida e convicta, representou a mais expressiva experiência política da esquerda brasileira num país avesso às idéias de democracia, cidadania, participação, soberania genuínas.

Alguns itens positivos se notabilizaram: o freio ao neoliberalismo em sua versão mais aguda; a reconstrução do Estado e da Soberania Nacional; a elaboração de um conjunto de políticas públicas democráticas, participativas e inclusivas; uma agenda internacional mais autônoma e desenvolta; um indício de política econômica mais voltada ao desenvolvimento nacional, com valorização da produção, do emprego e da distribuição de renda.

As convicções, porém, foram vítimas de equívocos, parcialidades e mesmo ilusões. Desprezar o amálgama político, social e ideológico do “Brasil profundo”, com suas estruturas econômicas arcaicas, superconcentradoras da propriedade, da riqueza e dos poderes e superconservadoras de valores pré-modernos, elitistas, “escravocratas” cobrou preço elevado.

A manutenção de uma base econômica infraestrutural concentrada e excludente e de uma superfície estrutural com alto grau de conservadorismo e despolitização foi fundamental para que num momento propício, as velhas classes dominantes internacionalizadas tenham voltado à carga com um poderoso movimento golpista, de caracteres extremistas e reacionários. À crise real – dita a 3ª onda da crise de 2008 – sobrepôs-se um verdadeiro lock out para abalar a estrutura de prestígio e apoio popular que restava a um governo envolto no denuncismo da corrupção e outras críticas típicas do fundamentalismo comportamentalista de fundo religioso ou moralista.

A base social de apoio era mais estreita e menos organizada do que se pensava. Vários segmentos e setores debandaram por razões distintas, deixando a tarefa de defesa da Democracia, dos Direitos e do Projeto de Desenvolvimento exclusivamente nas mãos da esquerda e de alguns poucos setores progressistas.

Propor uma Frente Ampla significa, portanto, não só recuperar atores sociais e econômicos coletivos importantes, desgarrados e, hoje, desconfiados do núcleo de resistência democrática e nacional representado pela esquerda. Precisa ir além: construir uma outra hegemonia, não-partidária, mas de bloco histórico; rever as iniciativas deixadas à margem e que não enfrentaram problemas estruturais da nossa sociedade, economia e Estado; construir um diálogo nacional capaz de frear a sanha fascista, a avalanche neoliberal, o entreguismo antipatriótico e a corrupção endêmica; dar tom equilibrado para refundar a República e reestabelecer um contrato social equitativo e aglutinador. Em suma, livrar o Povo e a Nação das correntes que o amarram, prendem, sufocam e matam os sonhos de um país livre, soberano, democrático e justo.

Frente Ampla se traduz num rearranjo à luz da experiência política e histórica recente. Não é reprise, mas também considera e computa os aspectos positivos do ciclo anterior e propõe superar entraves, inconsistências, vacilações e erros cometidos. Tem forma ligeiramente distinta e conteúdo programático superior e avançado. Traz perspectivas mais complexas, funcionando para além da batalha eleitoral. Inaugura uma nova etapa de luta num Brasil ameaçado pela triste combinação do neoliberalismo mais selvagem com o neofascismo mais bruto e virulento.

*Dirigente municipal do PCdoB em Taquara/RS