Explicitar mais a radicalidade de nossa proposta à sociedade

O coletivo do PCdoB tem se debruçado na necessidade de crescer consistentemente como alternativa de esquerda – no viés eleitoral, e no viés revolucionário estratégico – para conduzir o país num caminho de Nação forte, soberana, justa, pavimentando as bases para o socialismo no Brasil.
Por Guilherme Tomatis Loss*
Este desafio de crescimento demanda esforços de planejamento orgânico do Partido, na luta de massas e institucional, e na luta de ideias, de maneira transversal, sinergética e equilibrada. A frente da luta de ideias envolve não só a luta teórica, mas também formação dos filiados de maneira sistemática, e a Comunicação, tanto interna quanto externa criando interlocução e diálogo real com a população, inclusive setores não incluídos no debate político e ideológico.
Há necessidade de transmitir à grandes massas da população nossas propostas e o ideário, com maior protagonismo e capilaridade, associando com a imagem do partido corajoso que ao longo dos 95 anos constrói uma história inigualável. O fortalecimento da identidade partidária também se revela premente junto a um grande número de filiados.
Durante o ciclo de governos populares, o PCdoB se abriu e muitos foram acolhidos no partido por afinidades pontuais, o que não deve ser encarado de maneira negativa. As falhas ocorrem quando não viabilizamos formação de base e debate constante com estes camaradas para conhecerem a fundo o projeto político estratégico do partido para o Brasil, as formulações ideológicas e filosóficas, o materialismo dialético e histórico, o marxismo-leninismo.
A tarefa de formação de base deve ser encarado com mesma relevância que estamos dando para a contribuição financeira militante e a necessidade de organizar o partido em organismo de base (OB): são vitais para existência do partido como tal. Sem uma base de filiados conhecendo a fundo as propostas do partido não há como transmitir nossa política à população e disputar a hegemonia política.
O papel que cabe ao PCdoB é manter vivo cotidianamente o espírito de radicalidade, da indignação ante a exploração de classe, intransigência na defesa da democracia, dos direitos dos povos e da soberania nacional, e ao mesmo tempo evitar o isolamento político (do partido e do campo popular). Para desempenharmos efetivo protagonismo político, o povo brasileiro tem que identificar nossos camaradas e nosso partido e nossas propostas com as mudanças necessárias para o Brasil. A tarefa de elevar nossa identidade política, ideológica e filosófica junto ao povo depende de uma forte formação política de base, que associada a organização por bases viabilizará maior capilaridade da ação partidária.
Nosso Partido Comunista do Brasil não é anexo, nem sombra, nem irmão de outro partido no país. Temos história e identidade própria. São 95 anos de trajetória corajosa e heroica a ser sempre lembrada. Devemos cultivar alianças e amizades com outros partidos, mas não nos confundirmos com eles, não somos iguais a nenhum. É comum nossos camaradas dispender mais tempo defendendo outros partidos do que o nosso, sem nunca haver contrapartida.
A polêmica ênfase à frente institucional/parlamentar se deu com ganhos e perdas. Muitas vezes nos enredamos no emaranhado do “cretinismo parlamentar” reinante neste ambiente. Em outras frentes, a pauta específica do setor consome todo esforço tornando a luta economicista ou setorizada, em regra com fraca a conexão com a luta política ampla, e pouca diferenciação de outras forças. Estes são fatores que diluem a identificação do partido perante a sociedade.
Em nossa ação cotidiana precisamos transmitir a radicalidade, singularidade e amplitude de nossa visão diferenciada para aquela situação particular, conectada com o que o PCdoB propõe no plano político, estratégico e filosófico. Não obstante a necessidade de ocupar mais espaços institucionais, nossa vigilância e debate ideológico não tem sido suficiente – ou eficaz – para que esta frente seja dirigida pelo partido como coletivo, e não o inverso.
A constatação de estarmos em fase de defensiva estratégica, por vezes, tem nos induzido à adequação a limites dados por uma leitura de correlação de forças. Porém tais limites são dinâmicos e definidos em cada disputa e enfrentamento, e o PCdoB muitas vezes evitou de fazer estes enfrentamentos em favor de uma unidade – por vezes na prática – abstrata ou unilateral. Só conhecemos nossos limites quando os desafiamos. Quanto mais nos conformarmos, mais estreitas nossas margens, mais largas para outras forças, seja da direita, centro ou do próprio campo popular.
É mais viável o PCdoB crescer de maneira consistente encarando as limitações, demonstrando a rebeldia diante das injustiças, ousando se apresentar de forma mais incisiva, transparecendo mais a radicalidade de nossa proposta à sociedade, e afastar-se da pasteurização parlamentar que contamina não só nossas bancadas. Na avaliação do período Lula/Dilma, não teria sido um dos pontos fracos a falta de enfrentamento às restrições impostas “pela conjuntura”? Guardadas as proporções e peculiaridades, a ousadia da esquerda na Venezuela e Bolívia não foi o motivo de relativos avanços?
O acomodamento institucional enfraquece nossa identidade, reduz nossa capacidade de crescimento com a identidade de uma força de esquerda, que pretende – em última instância – romper com o sistema capitalista e construir uma alternativa socialista para o Brasil.
Nosso repto é aplicarmos nossa linha de ação de maneira ofensiva, ousada, rebelde, radical e ao mesmo templo ampla e consequente. Não se adequar a imposições da política institucional e suas armadilhas, ao mesmo tempo também não se iludir com discursos puristas, sectários ou isolacionistas.
O PCdoB já viveu períodos críticos e em situações mais difíceis do que agora, e soube ser ousado e protagonista. A despeito das recentes derrotas políticas sofridas, e do cerco ideológico e midiático, estamos num patamar muito superior e não seremos atingidos pelo derrotismo e defensivismo que a falta de um debate ideológico mais constante por vezes proporciona. E uma das principais ferramentas que dispomos para nossos projetos é a disseminação do espírito revolucionário do partido através da intensificação da formação de base para o conjunto de militantes, filiados e amigos.
*Militante em Balneário Piçarras /SC