A importância da Ciência na geração da mais-valia – Parte 1

 

Vosso homem de ciência, afogando os porquês num banho de sabença […]

Maiakovski

Apenas com o advento dos trabalhos de Becker (1964) e Schultz (1962 e 1973), já no século XX, que se descreveu de forma mais contundente a relevância do conhecimento como fator que influencia o processo de valorização do capital, destarte, causando uma inserção da educação na função produção, que mensura, macroeconomicamente, o Produto Interno Bruto.

Por Renato Gomes dos Reis*

Verifica-se muito corriqueiramente a ocorrência de um erro comum que ocorre ao conceituar-se trabalho produtivo, cuja definição intrínseca na acepção marxiana e marxista é rigorosa. Dessa forma, cria-se um sofisma, uma vez que considera-se que o capitalismo seria tão somente um modo de produção de mercadorias, o que é falso, trata-se de um modo de produção de mais-valia, sendo um arranjo que conjuga as dimensões espacial e temporal, além do processo de trabalho e a estrutura técnico social do processo de produção (MARX, 1991a, p. 412). Utilizando-se da hermenêutica marxiana, segue-se que o primeiro conceito descrito conduz à constatação de que a produção otimiza-se via trabalhos particulares e úteis, quanto ao segundo produz como entendimento correto de que o trabalho abstrato, socialmente necessário, subordinado formalmente ao capital, é quem dá a medida precisa da forma de produção capitalista (MARX, 1994a, pp. 225-226; Marx, 1994b, pp. 584-585).

Seguindo-se, faz-se mister remeter às entranhas do modo de produção capitalista, que consoante à obra marxiana, sendo um dos fulcros a lei geral da acumulação capitalista, como leciona Marx no Grundrisse, deriva o aperfeiçoamento das forças produtivas sociais da ciência, dos inventos, do avanço dos meios de comunicação, também da própria divisão e organização do trabalho, que favorecem o capital em detrimento da classe operária. (MARX, 1972, p. 248-249).

Objetivando-se elucidar os fatos, vale adentrar em um dos pontos vitais do modo de produção capitalista, que na obra marxiana é a lei geral da acumulação capitalista, como no que tange à lei geral da acumulação capitalista, leciona Marx que deriva o aprimoramento das forças produtivas sociais da ciência, dos inventos, do aperfeiçoamento dos meios de comunicação, da divisão e organização do trabalho, que por fim acabam concorrendo para o avanço do capital, não dos trabalhadores. (MARX, 1972, p. 248-249).

Destarte, reconhece a obra marxiana que a força coletiva do trabalho produtivo é força coletiva do capital. Dessa forma, implica o desenvolvimento científico também no das forças produtivas e do capital. Sendo assim, sob a égide da obra marxiana pode-se concluir que a ciência propicia a transformação dos meios de produção em maquinaria, por fim fazendo definhar o emprego do trabalho vivo, na razão inversa, faz com que a produção de riqueza seja em escala sem precedentes.

Pode-se concluir que em situações em que ocorrem a alta produtividade deve implicar em um maior destaque na mais-valia relativa, sendo o tempo de trabalho incorporado pelas novas gerações apresenta-se em superioridade, uma vez que o tempo de trabalho escolar é mais vultuoso, sendo a recíproca verdadeira. Observando ainda a questões relativas à infraestrutura e à superestrutura, tem-se que na primeira ocorre o depauperamento da força de trabalho, que  produz e se apropria do conhecimento-mercadoria, vertendo-se na exploração do sobre-trabalho em massa, também a dominação que ocorre sob a égide da ideologia técnico-científica (MARCUSE, 1982), indo além, uma vez que também compreende o processo de alienação da força de trabalho. Isso decorre da obra marxiana, no que tange a produção e no caráter fetichista inerente a circulação das mercadorias. Relativamente à superestrutura, a produção e apropriação social do conhecimento que se processa nas unidades educacionais, a valorização do capital se processa pela exploração da força de trabalho docente. Não se adentrará em profundidade nesse campo, sendo a exposição apenas para salientar sua ocorrência e sua consonância com a obra marxiana.

Há possibilidade de aplicação da ciência no processo que culmina na expansão do capital, em detrimento ao trabalho. No período atual, temos as novas Tecnologias da Informação e Comunicação), também as ligadas a nanotecnologia, além da reestruturação produtiva, cujo efeito nas relações do trabalho é produzir uma subsunção do trabalho intelectual, característica do período contemporâneo.

Notadamente este processo gera uma mais-valia na parte circunspecta ao conhecimento (mais-valia intelectual), uma vez que pesquisadores envolvidos em projetos que irão gerar dividendos intelectuais não apropriar-se-ão inteiramente das benesses oriundas do seu trabalho, cuja referência se faz por intermédio do uso do conceito de produção do “valor social”, que só verte material em uma eventual produção de implementos ou uma outra forma de mercadoria, para adentar, a posteriori, ao mercado e ser comercializada. Então, verter-se-á em apropriação privada e o detentor do conhecimento perderá a sua posse, sendo que este sofreu uma metamorfose e verteu-se em um valor social e é capturado de forma privada pelo capital, sendo utilizado na produção de mercadorias passíveis de relações de mercado.

Bibliografia

BECKER, B. F. Human capital: a teorical and empirical analysis with special reference to

education. Columbia, s. ed., 1964;

MARCUSE, H. A ideologia da sociedade industrial. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1982.

MARX, Karl. O capital. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991. Livro 2, Volume III: O processo de circulação do capital.

___________. O capital. Rio de Janeiro: Bertand Brasil: Livro 1, Volume I: O processo de produção do capital, 1994a.

___________. O capital. Rio de Janeiro: Bertand Brasil. Livro 1, Volume II: O processo de produção do capital, 1994b

___________. Los fundamentos de la critica de la economia política (Grundrisse) Trad. esp. Madrid: Comunicación, 1972

SCHULTZ, T. O capital humano. Rio de Janeiro: Zahar, 1973.

___________. O valor econômico da educação. Rio de Janeiro: Zahar, 1962

 

*Renato Gomes dos Reis é membro do Comitê Municipal de Birigui-SP