Wadson Ribeiro: Reação contra o desmonte da Ciência e Tecnologia

Foto: Roberto Fulgêncio/Arquivo Tribuna de Minas

Uma importante iniciativa foi tomada há alguns dias em defesa do progresso brasileiro. Todos os ex-ministros de Ciência, Tecnologia e Inovação dos governos dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma e Temer, assinaram um manifesto chamando a atenção sobre os perigos que estas áreas estão enfrentando com os cortes orçamentários e com o verdadeiro desmonte das políticas públicas para o setor.
Por Wadson Ribeiro*

Os primeiros seis meses do governo Bolsonaro serviram para deixar claro a sua submissão aos interesses de outras nações desenvolvidas em detrimento dos interesses nacionais. Os exemplos deste caminho vão sendo expostos dia a dia, basta observarmos a entrega da empresa Embraer para a americana Boeing e os acordos para a utilização da base de Alcântara no Maranhão. Mas o mais grave é promover o sucateamento de um projeto de universidade pública e de um sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação que sirve como base para o desenvolvimento econômico e avanços na qualidade de vida da população.

No Brasil, grande parte das pesquisas são realizadas nas universidades públicas. As instituições privadas quase não realizam pesquisas, sobretudo as que demandam maiores investimentos. Graças às pesquisas já realizadas, o Brasil se tornou referência em várias áreas. Somos líderes na produção de inúmeros gêneros alimentícios e de proteína animal, dominamos a tecnologia de captação de petróleo em águas profundas, somos um dos poucos países no mundo que produz aviões. Além do que já criamos, pesquisas em várias outras áreas do conhecimento serão importantes na descoberta de medicamentos, vacinas, preservação do meio ambiente, entre outros avanços.

No mundo globalizado, o Brasil tem enormes desafios no campo da ciência para que possa ter um papel de maior relevo. Não podemos exportar majoritariamente commodities e importar produtos com maior emprego de tecnologia e, portanto, com maior valor. Esta situação é fruto da falta de investimentos públicos e privados em inovação tecnológica e modernização de nossas indústrias. Se prevalecer esse cenário de cortes de verbas, que impactam as pesquisas e na formação de uma inteligência nacional, nossos cérebros vão para outros países e nossa dependência tecnológica e científica se aprofundará, trazendo graves consequências para a economia do país.

Não é apenas a falta de um projeto de nação que faz com que esse governo ataque as universidades e os institutos de pesquisa, mas também seu ideário obscuro e anticientífico, que confronta inúmeras descobertas fundamentais para a humanidade com crenças religiosas que negam a ciência. Essa apropriação do Estado por um pensamento religioso ou mesmo por religiões, que hoje se organizam e elegem bancadas no Legislativo e no Executivo, representam um enorme retrocesso democrático e fere de morte a laicidade do Estado. Representa a prevalência do dogma em detrimento à razão e faz com que a crença de que nosso atraso secular será resolvido não com pesquisas de ponta, desenvolvimentos tecnológicos, inovações que tornarão nossa economia mais pujante, mas sim com a pura fé, abstrata e dogmática.

Nenhum país no mundo alcançou desenvolvimento econômico e melhorou a qualidade de vida de sua população sem maciços investimentos em Ciência, Tecnologia e Inovação. Enquanto os países que são desenvolvidos ou almejam o desenvolvimento fortalecem seus Estados nacionais, sua soberania, sua autonomia científica, o Brasil vai na contramão da história e adota uma espécie de neocolonialismo contemporâneo que entrega o Brasil ao mundo para exploração.

* Presidente do PCdoB-MG, foi presidente da UNE, da UJS e secretário de Estado