Wadson Ribeiro: A voz da juventude vem das ruas

Foto: Alexandre Rezende/G1

Nos últimos três meses os estudantes brasileiros, apoiados pelas centrais sindicais, protagonizaram os maiores atos de oposição à Jair Bolsonaro e ao seu governo. A pauta da educação tem sido capaz de mobilizar milhões de professores e estudantes para verdadeiras demonstrações de defesa da ciência e das universidades públicas.

Por Wadson Ribeiro*

Em meio a uma crise entre as instituições do Estado e a prevalência de uma agenda econômica neoliberal, a esperança para que o Brasil retome sua normalidade política e democrática está nas ruas, especialmente nos rostos jovens de nossos estudantes.

Em que pese o Congresso Nacional contrariar o governo em vários temas relacionados ao Estado Democrático de Direito, haja visto o amplo consenso firmado de forma suprapartidária contra a arbitrariedade em transferir o ex-presidente Lula de Curitiba para Tremembé, esse mesmo Congresso acelera uma pauta ultraliberal na economia. A reforma previdenciária foi concluída na Câmara e enviada ao Senado. A mesma Câmara aprovou ainda essa semana a Medida Provisória da erroneamente chamada “liberdade econômica”, uma espécie de suplementação da reforma trabalhista, que prevê trabalho aos domingos entre outras maldades. Além disso, tramita na Casa Legislativa a proposta de reforma tributária, que até agora não propõe taxar grandes fortunas, desonerar os mais pobres e estimular a produção da indústria nacional.

Do outro lado da Praça dos Três Poderes, o STF, historicamente distante das disputas políticas e disposto em resguardar nossa Constituição, se acostumou com os holofotes da mídia e poluiu sua isenção política. As nomeações pouco cuidadosas de Lula, Dilma e Temer contribuíram para uma Corte menos qualificada e mais susceptível às pressões da chamada opinião pública. Essa realidade tomou força desde o período do Mensalão, depois surfou nas ondas da “Lava Jato” e abusou no papel de legislar, algo que não lhe compete. Agora é vítima da sanha conservadora do partido da “Lava Jato”, que pede as cabeças de Dias Toffoli e de Gilmar Mendes, exatamente por cumprirem a Constituição e por barrarem absurdos como as investigações pela Polícia Federal de Glenn Greenwald – que revelou os conteúdos das ilegalidades cometidas por Deltan Dallagnol, Moro e CIA.

A blindagem que o Congresso faz para aprovar a política econômica neoliberal e a crise envolvendo o STF, o Ministério Público e a “Lava Jato” se somam a um governo entreguista e antinacional, cujos objetivos são desestruturar o Estado e submeter o Brasil, de forma subserviente, no concerto internacional das nações. Esse cenário nebuloso que habita a vida nacional somente será revertido com uma ampla frente política e social, acima das disputas partidárias. Uma frente que consiga colocar como questões centrais os desafios que o Brasil enfrenta, tais como a questão democrática, o desenvolvimento econômico, os direitos sociais, a soberania nacional, a laicidade do Estado, os direitos civis, enfim uma pauta que isole os inimigos internos representados pelo Bolsonarismo e pelos setores que querem exterminar a política e um projeto soberano de nação.

Dessa forma, no momento em que o país se encontra fragmentado e vivendo uma profunda crise como agora, os estudantes representam a esperança para que o Brasil possa reencontrar seu caminho de desenvolvimento econômico e progressos na área social. A cada dia Bolsonaro, Moro e a parcela mais reacionária da população perde força, como demonstram as pesquisas. O exemplo da Argentina, em que as forças democráticas estão perto de retomarem o poder, serve de exemplo para nós, que com amplitude é possível derrotar o neoliberalismo e a direita. Os estudantes não acreditam em pequenas coisas, mas sim em grandes causas, que venham outras jornadas estudantis para o bem do futuro do Brasil.