Wadson Ribeiro: A diplomacia neocolonial de quem se diz patriota

A indicação do nome do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente da República, para o posto de embaixador brasileiro nos EUA, constitui-se como um verdadeiro ato de nepotismo e mancha a imagem da diplomacia brasileira.
Por Wadson Ribeiro*
Mesmo diante de diferentes momentos históricos, a política externa brasileira sempre se notabilizou por defender os mais altos interesses do desenvolvimento e da soberania nacional, da paz mundial e da autodeterminação das nações. Estes valores correspondem exatamente o contrário daquilo que prega o atual parlamentar.

Desde o momento da promulgação do resultado eleitoral de 2018, Eduardo Bolsonaro se articula para ser embaixador nos EUA. Suas visitas ao presidente americano Donald Trump e a ideólogos republicanos, ainda antes da posse presidencial, criaram um ambiente amigável para viabilizar seu nome.

Trump precisa ter como embaixador brasileiro alguém que cumpra suas ordens e aceite fazer o jogo sujo contra os vizinhos latino-americanos, especialmente Cuba e Venezuela. O que interessa ao governo norte-americano é minar qualquer tentativa de articulação soberana do Brasil na região e no mundo e impor ao país um novo acordo de livre comércio lesivo os interesses nacionais, como no passado representava a ALCA.

O governo Bolsonaro vem sendo marcado por rupturas de pactos democráticos construídos no Brasil em todas as áreas. Os recentes ataques ao Supremo Tribunal Federal, ao Congresso Nacional e aos direitos conquistados se inserem nesse ambiente de desmoralização do Estado e rupturas institucionais.

Mesmo que Eduardo Bolsonaro estivesse à altura de ocupar o cargo de embaixador nos EUA, não seria ético nem prudente indicá-lo, pois os interesses da nação brasileira poderiam ser prejudicados, uma vez que a política externa avançou ao longo dos anos para princípios de Estado, que vão além dos interesses desse ou daquele governo. Somente políticos muito experientes e com vocação patriótica e democrática exercem essas funções sem arroubos e rupturas, o que não será o caso do representante do clã presidencial.

A diplomacia brasileira é marcada ao longo dos anos, desde José Bonifácio, por uma postura avançada e de defesa dos interesses nacionais. O próprio Bonifácio lançou o “Manifesto às Nações Amigas” em 1822, que denunciava o colonialismo europeu e defendia uma maior unidade entre os países americanos. Barão do Rio Branco, considerado o patrono da diplomacia do Brasil, forjou com os EUA a chamada “aliança não escrita”, que buscava fazer frente ao poderio europeu, sem, contudo, deixar com que os norte-americanos se intrometessem na política interna do Brasil.

Foi também por compreender a questão nacional que San Tiago Dantas reatou relações com a ex-URSS no governo parlamentarista de João Goulart e Tancredo Neves. Até mesmo na ditadura sob o governo Geisel o Brasil apoiou o MPLA, de orientação marxista, no processo de independência da Angola, pois ali residia objetivos de interesse nacional. O presidente militar também manteve relações comerciais intensas com a China, mesmo o país asiático ser de linha comunista.

A relação de altivez da diplomacia brasileira frente ao mundo tem que ser proporcional ao papel estratégico que o Brasil conquistou ao longo dos anos. Se o próprio presidente cujo o slogan de campanha dizia:” Brasil acima de tudo, Deus acima de todos “ bate continência para bandeira norte-americana, não podemos esperar muito na defesa dos interesses brasileiros frente aos EUA de um embaixador que usa um boné do Trump e se vangloria por ter fritado hambúrgueres na terra do Tia Sam.

*Presidente do PCdoB-MG, foi presidente da UNE, da UJS e Secretário de Estado