Lula na Avenida Paulista na comemoração de sua vitória. Foto: Ricardo Stuckert

A quarta vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é histórica em vários sentidos. Além da virada no segundo turno, alcançou outro feito inédito, a maior votação de um presidente brasileiro, e a menor abstenção desde 2006. Tais conquistas contaram com a força do povo e de uma série de atores de setores democráticos da sociedade, entre os quais o PCdoB.

“É com a maior alegria do mundo que a gente celebra a vitória do presidente Lula! Mas, é preciso que a gente diga: essa é uma vitória do povo brasileiro, que a arrancou com as suas próprias mãos do primeiro para o segundo turno”, disse a presidenta interina do PCdoB, Nádia Campeão, ainda no hotel, em São Paulo, onde Lula fez seu primeiro pronunciamento após a virada.

Pelas redes, disse ainda que “o povo brasileiro fez sua escolha nas urnas. Venceu a esperança, venceu a democracia, venceu o Brasil! É uma vitória da mobilização popular, da defesa dos direitos e do compromisso com um país mais justo, soberano e democrático”.

Num contexto internacional marcado por governos de extrema direita em diversos países, com destaque para os Estados Unidos — cujo governo de Donald Trump tem interferido nas eleições latino-americanas a fim de impor sua hegemonia —, a conquista desse quarto mandato tem importância vital e estratégica, para além do território brasileiro.

“É uma felicidade enorme e a gente sabe o que isso significa para o Brasil, a América do Sul e a América Latina, bem como para o mundo inteiro. Estão todos de parabéns, vamos comemorar muito porque essa vitória tem um grande significado”, completou Nádia.

Luciana Santos, ministra de Ciência, Tecnologia e Inovação, também celebrou a reeleição de Lula. “Vencemos! Venceu a esperança. Venceu o amor a este país. E foram vocês que construíram essa vitória! Viva Luiz Inácio! Viva o povo brasileiro!”, comentou nas redes.

Escolha entre dois projetos de País

Em manifesto aprovado na Convenção Eleitoral em agosto, o PCdoB reforçava o chamado à sociedade brasileira e destacava que havia dois lados bastante diferentes em disputa, o que precisava ser apresentado de maneira clara à população para garantir a vitória.

“As eleições de 2026 serão uma escolha entre dois projetos de país. De um lado, a extrema direita e os setores que apostam na divisão do povo, no negacionismo, na violência política, na destruição de direitos e na submissão do País aos interesses estrangeiros. Aqueles que querem destruir a democracia e atar o Brasil a reboque dos interesses dos países imperialistas”, salientava.

De outro lado, destacava, “estamos com Lula para inaugurar um novo ciclo histórico de desenvolvimento soberano, democrático e inclusivo por uma vida melhor para os brasileiros e brasileiras. Aqueles que situam o nosso país em alianças internacionais em prol do seu Projeto Nacional e por uma ordem mundial mais justa e democrática”.

Ao mesmo tempo, ponderava que “o futuro não será obra do acaso. Será resultado da vontade organizada de um povo que decide acreditar novamente em si mesmo. Envolve estimular uma consciência nacional
vocacionada a um país plenamente desenvolvido e senhor do seu destino. Para os comunistas, essas conquistas que as forças progressistas são chamadas a realizar nesse futuro imediato desbravam caminho e acumulam forças para a jornada de lutas pelo
socialismo em nossa pátria”.

Batalha épica

Foto: Ricardo Stuckert



A batalha eleitoral deste ano teve tons épicos. O terceiro mandato de Lula conseguiu literalmente reconstruir o País após seis anos de Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL). E entregou uma série de medidas que transformam a vida de milhões de trabalhadores e do nosso povo, sobretudo os setores menos abastados.

Para citar algumas dessas conquistas estão o fim da jornada 6×1; a retomada da política de valorização do salário mínimo; a retirada do Brasil do Mapa da Fome da ONU pela segunda vez; a reforma tributária, com aumento de impostos para quem ganha mais; o fim das bets; o Pé-de-Meia; as melhorias em programas sociais como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida; melhorias em infraestrutra como o Novo PAC; o Gás do Povo; o controle e a queda da inflação; o índice de desemprego que figura entre um dos mais baixos da história; o avanço da economia; a histórica redução do desmatamento, sobretudo na Amazônia; a proteção aos povos indígenas e quilombolas; o Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio; o fortalecimento do SUS e de políticas como o Farmácia Popular; as três edições do Desenrola; melhorias para os MEIs; a aprovação de projetos para combater o crime e a violência, com a PEC da Segurança e o PL Antifacção e o combate à corrupção e ao crime organizado a partir do topo com ações da Polícia Federal e Receita Federal, entre outras muitas medidas.

Ainda assim, o envenenamento de parte considerável da população pelo bolsonarismo (especialmente com o uso e apoio das redes sociais) levou o Brasil a ter uma das eleições mais apertadas dos últimos anos.

Mesmo com uma trajetória política eivada por denúncias e investigações relacionadas à corrupção e ao crime organizado (sobretudo as milícias) e mesmo com todas as ilegalidades e ações anti-povo do clã Bolsonaro (como a trágica condução da pandemia, a tentativa de golpe com plano de assassinato de autoridades e a articulação junto a Trump para colocar em prática ações contra o próprio país), Flávio Bolsonaro (PL) conseguiu arregimentar o apoio de boa parte da direita e da sociedade, vencendo o primeiro turno.

Depois disso, Flávio calçou saltos altos e agiu como se a disputa estivesse decidida, falando em composição ministerial e mudanças constitucionais.

O medo de que alguém com esse perfil chegasse à presidência soou o alarme e grandiosas manifestações, chamadas principalmente por estudantes, passaram a tomar as ruas já na segunda-feira seguinte ao primeiro turno.

Uma nova política de comunicação, com a intensificação do trabalho nas redes — com destaque para o Exército de Lula, comandado pelo deputado André Janones —, bem como a mobilização de diversos setores para convencer quem se absteve, votou branco ou anulou seu voto no primeiro turno, resultaram numa verdadeira onda que varreu o Brasil de Norte a Sul.

Todo esse processo culminou na caminhada na Avenida Paulista, no sábado (24), que reuniu milhares de pessoas numa das maiores (se não a maior) já realizada no país. E levou Lula a uma votação histórica: trabalhadores voltavam para suas cidades para votar; idosos e pessoas debilitadas fizeram questão de digitar o 13 nas urnas.

Numa última cartada, prefeituras bolsonaristas, como a de Ricardo Nunes (MDB) em São Paulo e Bruno Reis (UB) em Salvador, entre outros de outras cidades, tentaram inviabilizar a chegada de eleitores às urnas, retirando parte da frota de ônibus de circulação.

Após a coligação de Lula (e a de Flávio a reboque em relação a cidades do Sul atingidas por chuvas) apresentarem ação junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedindo a extensão do horário de votação, e na falta de atitude por parte do presidente da corte eleitoral, ministro Kássio Nunes Marques, o ministro sorteado do STF e também do TSE, Cristiano Zanin, determinou o funcionamento das seções eleitorais por mais duas horas, até às 19h.

Durante a apuração, em alguns momentos Flávio esteve na frente. Mas, quando pouco mais de 47% das urnas já haviam sido contabilizadas, Lula passou à frente e se manteve assim até o final.

O resultado foi avassalador: o presidente cresceu 19% entre os dois turnos, conquistando cerca de 10,3 milhões de votos a mais, superando a soma dos votos recebidos pelos dez candidatos eliminados no primeiro turno, que foi de cerca de 9 milhões. Flávio terminou com 48,21% (59,83 milhões) e Lula com 51,79% dos votos (64,2 milhões), consagrando-se o mais votado da história.

“Não fui eu e o Alckmin que ganhamos essas eleições. Essas eleições foram a honradez, o nacionalismo, a democracia e o futuro que vocês querem pros filhos de vocês que fizeram a gente virar”, afirmou Lula em sua primeira declaração pública após o resultado.