UE: é ‘inaceitável’ tratamento dado à França no pacto EUA-Austrália

Legenda: Presidente da União Europeia, Ursula von der Leyen

(Olivier Hoslet/AFP)

A presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen, afirmou que o tratamento dado à França pela Austrália, Reino Unido e Estados Unidos (pacto Aukus) “não é aceitável”, enquanto cresce no mundo inteiro a condenação à implantação de submarinos nucleares australianos no Pacífico fornecidos por Washington.

Em declarações à CNN, von der Leyen disse que os três países têm “muitas questões em aberto que têm de ser respondidas” e deixou claro que a União Europeia considera que “um dos nossos Estados membros foi tratado de uma forma que não é aceitável”.

No caso, o cancelamento, pelas costas da França, do chamado ‘acordo do século’, o fornecimento de 12 submarinos convencionais de tecnologia francesa por US$ 66 bilhões, praticamente anunciado ao vivo por Washington, Canberra e Londres, junto com a criação da aliança anti-China Aukus (sigla composta pelas iniciais de Austrália, Reino Unido e EUA) e fornecimento, no lugar, de submarinos nucleares norte-americanos para a Austrália posicionar no Pacífico.

Também o presidente do Conselho Europeu, o belga Charles Michel, à margem da abertura da 76ª Assembleia Geral da ONU chamou de “incompreensível” a rasteira na França. Apontando que “os princípios elementares entre aliados são a transparência e a confiança. Seguem juntos. E aqui, o que vemos? Uma clara falta de transparência, de lealdade”. Ele acrescentou que a EU pede a Washington um “esclarecimento” para “tentar compreender melhor quais são as intenções” do anúncio do pacto Aukus.

Esses comentários se seguiram a novos desdobramentos na questão. Pela primeira vez na história, a França chamou de volta para ‘consultas’ seu embaixador junto a Washington, e fez o mesmo em relação à Austrália. Também foi cancelada uma reunião marcada entre os ministros da Defesa francês e britânico.

Conforme o comunicado do ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Yves Le Drian: “A pedido do Presidente da República, decidi chamar de volta imediatamente a Paris para consultas de nossos embaixadores nos Estados Unidos e na Austrália. Esta decisão excepcional é justificada pelos anúncios excepcionalmente sérios feitos em 15 de setembro pela Austrália e pelos Estados Unidos.”

“Houve mentiras, houve duplicidade, houve uma grande quebra de confiança, houve desacato. Então, as coisas não estão indo bem entre nós, de forma alguma; em suma, há uma crise”, acrescentou.

Paris chamou de “facada pelas costas” o cancelamento do acordo dos submarinos com a Austrália. Ao deixar a capital australiana, o embaixador francês Jean-Pierre Thebault citou “relatórios muito confiáveis da imprensa independente”, dizendo que AUKUS estava “em formação há 18 meses”.

“O que significa que fomos atacados intencionalmente por 18 meses … O crime foi preparado por 18 meses”, acrescentou. Thebault disse que durante esses 18 meses, “não houve qualquer tipo de advertência” do lado australiano sobre sua intenção de abandonar unilateralmente o negócio.

Aliás, conforme Le Drian, as autoridades francesas ainda não sabiam do plano da AUKUS “uma hora” antes de ser formalmente anunciado na quarta-feira. Ele disse: “O acordo planejado entre os Estados Unidos e a Austrália foi lançado por um círculo interno muito pequeno. Eu nem tenho certeza se todos os ministros australianos e americanos estavam cientes disso.”

Em entrevista no dia seguinte ao anúncio do Aukus, Le Drian em entrevista à France Info se disse “indignado; aliados não fazem isso uns com os outros. (…) Para falar francamente, isso é uma punhalada nas costas”.

“Esta decisão unilateral, brutal e imprevisível é muito parecida com o que o Sr. Trump costumava fazer. Soubemos brutalmente, por uma declaração do presidente Biden, que o contrato entre os australianos e os franceses foi rompido e que os Estados Unidos proporão aos australianos um acordo nuclear de conteúdo desconhecido. … Não é assim que se trata aliados ou outras potências que desejam desenvolver uma estratégia indopacífica coerente e estruturada”, complementou Le Drian

Quanto à Austrália, o chanceler francês assinalou que “estabelecemos relações de confiança e essa confiança foi traída”, enfatizando sua “grande amargura” e prometendo processar Canberra por danos.

O Grupo Naval da França em Cherbourg estava trabalhando com fabricantes australianos para entregar os primeiros submarinos até 2023, disse o chefe da diplomacia francesa, “com equipes de engenheiros australianos trabalhando em Cherbourg e funcionários do Grupo Naval trabalhando em Adelaide [na Austrália]. Então, de repente, puf!”.

O Le Monde comparou o colapso resultante nas relações EUA-França ao de 2002, quando Paris, Berlim e Moscou se opuseram aos planos dos EUA de invadir o Iraque: “É a guerra do Iraque (2003), lançada pelo governo Bush, a última crise de tal magnitude ? Após a retirada caótica e unilateral dos EUA do Afeganistão, é um novo aviso para os europeus construírem sua soberania estratégica, especialmente no Indo-Pacífico …”, sublinhou o principal jornal francês.

Já editorial do Wall Street Journal, sob título “Um acordo inteligente de submarinos com os australianos”, asseverava que o novo pacto bélico Aukus era a retaliação dos EUA pelo fracasso da Europa em apoiar totalmente as políticas dos EUA contra a China, Rússia e Irã. “O presidente francês Emmanuel Macron fez questão de enfatizar a ‘autonomia estratégica’ dos EUA, incluindo a China, a Rússia e o Irã. … A Europa não pode jogar o jogo de dividir e conquistar da China em questões econômicas e estratégicas sem consequências para seu relacionamento com os Estados Unidos”, registrou o WSJ.

Na terça-feira (21), o ministro francês das relações europeias, Clement Beaume, exortou em declaração à emissora France24 a União Europeia a impulsionar a “autonomia estratégica” em relação aos EUA, a “fortalecer [suas] capacidades de reflexão, autonomia estratégica e defesa”. “Porque os americanos garantiriam a nossa defesa [nesta] questão? Cabe-nos a nós fazê-lo!”, disse Beaume, sublinhando que os europeus têm “a perícia, os meios financeiros e a capacidade para fazê-lo na Europa”. Sobre a atitude do governo britânico, ele acrescentou que, ao deixar a UE, Londres “retornou ao rebanho americano com uma forma aceita de vassalagem”.

“E isso não foi [apenas] um movimento contra a França, isso mina a confiança da Europa porque agora ela não pode ter confiança em seus parceiros”, disse Beaune.

Na semana passada, ao falar na quarta-feira na apresentação da estratégia Indo-Pacífico da UE, von der Leyen havia anunciado que, sob a Presidência francesa [da UE], “o Presidente Macron e eu convocaremos uma Cimeira sobre a Defesa Europeia. É hora de a Europa avançar para o próximo nível.