Recidiva da Covid: Itália registra 753 mortes em 24 horas

“O vírus será impiedoso novamente, a menos que todos façam sua parte”, diz o chefe da OMS Europa

Foto: Alberto Pizzoli/AFP

A Itália, que havia controlado a pandemia do novo coronavírus, depois dos duros dias no início do ano de hospitais superlotados, médicos tendo que escolher a quem socorrer e mortos transportados em caminhões militares, voltou a ser afetada pela Covid-19, com o número de óbitos voltando ao patamar de abril.

No país, a segunda onda de contágios que está grassando na Europa faz com que, nas últimas 24 horas, se tenha registrado 753 mortes por Covid-19 e 34.282 novos casos. Uma taxa de mortalidade de 1,3 por 100.000; 4,5 vezes a mortalidade do Brasil no mesmo dia.

Foi a dramática situação vivida pela Itália, primeiro país ocidental a ser impactado pela pandemia depois da China, que evidenciou o tamanho do desafio colocado aos sistemas de saúde de cada país. Em determinado momento, foi preciso a ajuda de equipes médicas da Rússia, China e Cuba para conter o surto.

O aumento de casos na Europa com a aproximação do inverno, após reativação da economia, escolas e restaurantes, fez com que diversos governos retomassem medidas adicionais de contenção da transmissão, como a França, Inglaterra, Alemanha, Áustria, Portugal e Suíça. Nesta quinta-feira, o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, pediu à população que evite grandes reuniões no Natal, para frear contágios.

Em toda a Europa, mais de quatro milhões de contágios foram confirmados desde o início de novembro. 80% dos países europeus têm agora taxas de incidência de 14 dias maiores que 100 por 100.000 habitantes. Em um terço dos países, a taxa ultrapassa os 700 por 100.000 habitantes, colocando sob risco de colapso os sistemas hospitalares. A Europa registrou 46% do total de casos no mundo na semana passada e 29 mil óbitos a mais – um aumento de 18%.

NATAL

O primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, afirmou nesta quinta-feira (19) que será necessário um Natal “sóbrio”, sem grandes celebrações, pois uma semana de intensa socialização significará um aumento na curva de contágios pelo novo coronavírus em janeiro.

“No Natal, temos que nos preparar para passar as férias de uma maneira mais sóbria: danças, celebrações, beijos e abraços não serão possíveis”, disse o primeiro-ministro em discurso à assembleia dos municípios italianos (ANCI).

Conte conclamou pelo “bom senso”. “Uma semana de sociabilidade selvagem significaria pagar com um forte aumento da curva em janeiro, em termos de mortes, estresse nos cuidados intensivos. Não podemos nos dar esse luxo”, enfatizou.

O coordenador do comitê técnico-científico de assessoramento do governo Conte na emergência sanitária, Agostino Miozzo, alertou que “um jantar de Natal com cerca de 20 pessoas não será possível neste ano”. Apesar da segunda onda, lojistas e setor de serviços pressionam contra as medidas de fechamento da economia, e o governo italiano ainda não definiu seus próximos passos.

A Itália é o segundo país europeu em número de mortos, com 46 mil, só atrás do Reino Unido, com 52 mil.

“TESTAR, RASTREAR, ISOLAR E TRATAR”

Por sua vez, a representação da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a Europa advertiu os países da região a não “desperdiçarem bloqueios” contra a Covid-19, nesse momento em que o velho continente, juntamente com os EUA, volta a ser o epicentro da pandemia.

 

O diretor europeu da OMS, Hans Kluge, reiterou que os bloqueios nacionais devem ser “uma medida de último recurso” e aconselhou que os que vêm sendo reinstalados agora sejam flexibilizados “de forma gradual e segura”.

“Se há bloqueio, a outra mensagem a enfatizar é: ‘aproveite esse tempo para fortalecer sua testagem, rastreamento e isolamento para tratamento, para que todo esse esforço não acabe desperdiçado”, sublinhou Kluge.

Como ele destacou, quando o lockdown é levantado, “o vírus não se foi, o vírus não ficou pior, mas também não ficou melhor, o que é uma boa e má notícia”.

“Então, nesse sentido, o vírus será impiedoso novamente, a menos que todos estejam fazendo a sua parte”.

Foi o que fizeram os países que controlaram o coronavírus, como a China, o Vietnã, a Nova Zelândia. A China, após adotar a mais radical quarentena para barrar a transmissão descontrolada do vírus, desencadeou um sistema eficaz de testagem, rastreamento e isolamento que provou sua resiliência nos meses que se seguiram e tem mantido o país protegido do coronavírus e com a economia funcionando, já considerada a única das grandes economias que terá crescimento este ano, segundo o FMI.

A diretora sênior de emergências da OMS Europa, Dra. Catherine Smallwood, instou a que os sistemas de testagem, rastreamento e isolamento sejam “adaptados e melhorados”, acrescentando que nos sistemas de saúde as coisas “não acontecem imediatamente”.

A OMS conclamou ainda os governos a engajarem a população na contenção da transmissão da pandemia, através do uso de máscaras faciais e das normas de distanciamento social. Desde o início da pandemia, os 51 Estados-membros da OMS Europa têm 15,7 milhões de infecções e mais de 355 mil mortes.