Protestantes exigem de Biden: ‘combata a pobreza, não os pobres"

Multidão reunida em Washington contra a condenação de 140 milhões à pobreza

(Tasnin News Agency)

Atendendo à convocação da Campanha dos Pobres – fundada por Martin Luther King há 60 anos e hoje liderada pelo Reverendo William Barber -, milhares de manifestantes em Washington exigiram do governo Biden e do Congresso dos EUA, no sábado, políticas que “combatam a pobreza, não os pobres”, num protesto contra a persistência da pobreza – que atinge 140 milhões de pessoas – no país mais rico do mundo, na primeira comemoração do ‘Juneteenth’ [18 de Junho] como feriado nacional.

O Juneteenth [que cai no terceiro sábado de junho] é a data em que foram libertados os escravos no último Estado a fazê-lo, o Texas, e sua transformação em feriado nacional é grande medida uma consequência das gigantescas manifestações antirracistas que se seguiram ao assassinato de George Floyd.

“43% dos norte-americanos – mais de 140 milhões – vivem na pobreza ou são de baixa renda. 52% das nossas crianças vivem na pobreza. E o orçamento federal é igualmente imoral – US$ 700 bilhões para defesa e US$ 700 bilhões para todo o resto. Durante a Covid, os bilionários ganharam US$ 2 trilhões a mais e mais oito milhões de pessoas caíram na pobreza”, denunciou o reverendo Barber.

“Nós somos os rejeitados – que foram rejeitados pela política da economia trickle-down, pelo neoliberalismo”, assinalou o reverendo, conclamando à “Terceira Reconstrução”. [A Primeira foi o período de cerca de dez anos após a Guerra Civil em que negros libertos e brancos pobres no sul dos EUA esboçaram um novo caminho conjunto, encerrado pela imposição da segregação Jim Crow; a Segunda, o movimento pelos Direitos Civis, liderado por Martin Luther King].

O atual nível de pobreza dos Estados Unidos “é moralmente indefensável, constitucionalmente inconsistente, politicamente insensível e economicamente insano”, reiterou Barber, acrescentando que “não seremos mais silenciosos ou invisíveis”.

Ele enfatizou que o movimento não vai parar “até que as crianças estejam protegidas; até que os doentes sejam curados; até que os trabalhadores com baixos salários sejam pagos; até que os imigrantes sejam tratados de forma justa; até que sejam fornecidas moradias acessíveis; até que a atmosfera, a terra e a água sejam protegidas; até que salvar o mundo, a diplomacia e viver em paz sejam mais importantes do que explodir o mundo”.

A manifestação coincide com a maior inflação em 41 anos nos EUA, gasolina a US$ 5 o galão; prateleiras vazias, sem leite em pó e até sem absorventes íntimos; salário mínimo congelado há mais de uma década e outras mazelas – enquanto bilionários fizeram a farra durante a pandemia que matou 1 milhão de norte-americanos e a desigualdade se agravou. E, recentemente, a violência voltou a se abater sobre uma escola, em que 19 crianças foram mortas por um atirador em desvario, pouco mais de uma semana após um racista matar a esmo 10 negros em um supermercado, massacre transmitido por ele ao vivo por uma rede social.

“A pobreza é uma escolha política e vamos responsabilizar nossos líderes”, afirmou a co-presidente da campanha, reverenda Liz Theoharis.

Na sexta-feira, em entrevista ao programa Democracy Now, Theoharis destacou, como objetivos da Campanha, a instituição de um sistema de saúde universal, empregos com salários dignos, política habitacional, reforma da imigração, concretizando uma agenda da Terceira Reconstrução que possa construir este país “de baixo para cima e realizar a nação que ainda temos que ser”.

Participantes da Marcha a Washington também deram seus testemunhos contra o atual estado de coisas nos EUA, como registrou o portal Common Dreams.

Kevin Queen, que veio de Nebraska, disse à North Country Public Radio que “é meio repugnante para mim chegarmos à capital do país mais rico do planeta e vermos pessoas sem-teto em túneis e vivendo nas ruas.”

“Então, poder estar aqui e participar é uma honra e também algo muito perturbador. Porque, 60 anos depois ainda estamos marchando pelos pobres, ainda não consertamos este problema”, ele acrescentou, relembrando a Marcha de 1963 a Washington, a do célebre discurso de Luther King “Eu tenho um sonho”.

“Meus filhos são sobreviventes apenas por estarem vivos”, declarou Maya Torralba, mãe indígena que falou na manifestação. “Não basta ser resiliente e sobreviver, é nosso direito humano crescer e prosperar”.

Morgan Leavy, barista do primeiro Starbucks sindicalizado do Texas, disse que “se um bando de jovens adultos com pouca ou nenhuma experiência em organização pode pressionar o suficiente uma empresa multibilionária para aumentar o salário mínimo em menos de um ano, esperamos absolutamente que nosso governo seja capaz de fazê-lo também.”

“Estou aqui para dizer que, se o Congresso pode repetidamente dar bem-estar corporativo aos ricos, então o Congresso poderá pagar assistência médica universal para todos, para que as pessoas não vão à falência ou sejam forçadas a usar um GoFundMe para cobrir despesas médicas”, disse Vivian Henry, da Minnesota Poor People’s Campaign, sobre seus medos de perder o Medicaid [a assistência médica pública para os mais pobres].

Kyle Bibby, um veterano militar de Nova Jersey, advertiu que “cada dólar que gastamos destruindo comunidades no exterior é um dólar não gasto em saúde universal, moradia acessível ou serviços sociais significativos e educação pública”. Ele complementou dizendo que “todo jovem enviado para o exterior para a guerra é uma vida em risco por um sacrifício que não podemos justificar”.