Preços sobem não só para consumidor, mas para indústria

As altas de preços de alimentos e outros produtos não estão atingindo só os consumidores. A indústria brasileira também está adquirindo matérias-primas e insumos mais caros. Divulgado nesta sexta-feira (30) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice de Preços ao Produtos (IPP), que abrange as indústrias extrativas e de transformação, subiu 2,37% em setembro frente a agosto. Em agosto, já havia aumentado 3,31%. No ano, acumula alta de 13,46%.

Segundo o IBGE, em setembro, 21 das 24 atividades pesquisadas tiveram alta de preços, contra 24 em agosto. As quatro maiores variações em setembro foram nas atividades de alimentos (5,28%), móveis (4,17%), indústrias extrativas (3,81%) e têxtil (3,56%). No acumulado do ano, os aumentos mais acentuados foram nas indústrias extrativas (40,05%), madeira (24,21%), metalurgia (23,07%) e alimentos (22,81%). O IPP mede os preços “na porta de fábrica”, sem impostos e fretes.

Em seu último Boletim de Conjuntura, com análise do cenário econômico em setembro e outubro, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) destacou a alta dos preços industriais e o encarecimento dos alimentos para o consumidor final.

Segundo a entidade, as razões para o aumento são a desvalorização da moeda brasileira. Um ranking de 30 países da agência de notícias Reuters mostra o real com a maior desvalorização em 2020, de 40%. Como consequência, todos os insumos e matérias-primas importados estão mais caros.

No caso dos alimentos, como o dólar alto favorece as exportações, o resultado é maior venda para outros países e menos importações, o que fez diminuir a oferta interna e pressionou os preços. O Dieese destaca também as razões estruturais para a queda da oferta. O boletim ressalta que o governo federal tem negligenciado a política de regulação de estoques de grãos, que poderia acomodar variações abruptas e significativas de preços em momentos como esse.

Ainda de acordo com o Dieese, há elevada concentração de terras pelo agronegócio para exportações e redução de outras áreas de plantio, além de dificuldade de acesso a crédito e subsídios para a produção voltada para o mercado interno. O boletim destaca ainda que o Banco Central deveria atuar para reduzir a volatilidade do câmbio.

“Deixar a situação ser regulada pelas ‘leis do livre mercado’ penalizará principalmente a parcela mais pobre da população, para a qual o gasto com alimentos é proporcionalmente mais alto do que nas demais camadas sociais. A redução do auxílio emergencial e a crescente pressão inflacionária, principalmente sobre os alimentos, tendem a agravar a distância entre pobres e ricos, de forma rápida. A fome e a miséria podem crescer mais e piorar a já precária situação da classe trabalhadora”, alerta o boletim.