Precarização do trabalho: um campo fértil para a extrema direita?

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Estariam os trabalhadores informais, estruturados em plataformas tecnológicas, formando uma base de sustentação à ascensão de extremistas de direita pelo mundo? Está é a hipótese investigada pela antropóloga, socióloga e cientista política Rosana Pinheiro-Machado. “Se nossa hipótese estiver certa, trata-se de uma bomba-relógio, uma máquina política. E precisamos entender como funciona essa máquina”, diz a pesquisadora.

Entre os “plataformizados’, Rosana inclui motoristas de aplicativos, entregadores, vendedores de produtos on-line, entre outros. “Sempre me intrigou muito o que fazia com que esse trabalho ‘plataformizado’ levasse as pessoas para a direita”, pontua a pesquisadora, em entrevista à DW. Segundo ela, “toda a natureza do trabalho – e como ele se reconfigura sem patrão, trabalhando por si próprio e de forma isolada – favorece a vinculação com ideias neoliberais, amparadas pela crença somente no mérito próprio”.

Ela agrega: “Quando não dá certo, é culpa dos governos. Não há uma discussão de classe, da precarização do trabalho. Isso sempre foi uma base, uma linha que juntou as minhas pesquisas nos últimos anos”.

Professora e pesquisadora na Universidade de Bath, no Reino Unidos, a brasileira recebeu no mês passado um investimento de 2 milhões de euros, do European Research Council (ERC) para, ao longo de cinco anos, esmiuçar essa questão. No momento, está organizando o trabalho, que deve começar de fato em setembro.

Pesquisadores doutorando e de pós-doutorado, nas áreas antropologia e ciência de dados, serão deslocados para pequenos vilarejos nos interiores de Brasil, Índia e Filipinas. A ideia é que eles vivam uma imersão e realizem entrevistas e pesquisas de campo. No fim, esse material será tabulado e se transformará numa base de dados que pode se tornar uma ferramenta para a compreensão desse fenômeno dos tempos atuais.

Sua tese é polêmica: “Há um alinhamento dessas classes que estão acima da linha da pobreza mas são precarizadas, odeiam a identidade de classe trabalhadora e cultivam uma base moral religiosa. No Brasil, você tem os evangélicos; na Índia, o conservadorismo hindu; nas Filipinas também o cristianismo. O conservadorismo moral se alinha muito forte ao individualismo e aí há as figuras dos autoritários que pegam essas classes precarizadas, autoexploradas, de pessoas que trabalham 20 horas por dia na esperança de ganhar dinheiro. E essas pessoas passam a cultivar interesses em comum com esses autoritários. E nunca foi feita uma investigação que explique esse nexo de forma clara.

Rosana remete ao conceito marxista do lumpemproletariado – aquele que “não está sindicalizado, regulado e, então, acaba se alinhando ao status quo. Isso aparece no processo de individualização e modernização na teoria do Weber”. Para Rosana, “a religião também leva a isso, pelo processo de individualização”.

Para além da “ética protestante – da ideia de trabalhar duro para vencer” –, a pesquisadora vê outros fatores. “Primeiro, evidentemente, o próprio isolamento, a não regulamentação e a ideologia de que a ideia de trabalhar ‘plataformizado’ é o ‘por si próprio’. São trabalhos profundamente isolados em que as pessoas passam muitas horas sozinhas, constantemente postando e lendo, porque o trabalho é no ambiente digital, dominado por populistas”.

Além disso, existem “os influenciadores digitais e o alinhamento político a eles” – sem contar “o aspecto da desinformação, que é potencializado sobre pessoas trabalham sozinhas e expostas ao ambiente digital o dia todo”. Rosana conclui: “Conforme a pessoa vai se ‘plataformizando’, crescendo e empreendendo, mais ela segue políticos de extrema direita. Ou ao contrário. O que vem primeiro: o ovo ou a galinha? Provavelmente os dois, porque o mundo é complexo. Queremos mostrar todos esses caminhos”.

Com informações da DW