Por que o desemprego continuará em alta até o fim do governo Bolsonaro

O fracasso do governo Jair Bolsonaro e a pandemia de Covid-19 agravaram a crise do emprego no País. De acordo com a nova Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgada nesta sexta-feira (30) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil tem hoje 14,8 milhões de desempregados.

Os dados do mercado de trabalho até mostram ligeiros sinais de melhora. Mas, segundo analistas de mercado, a situação do desemprego ainda é grave e pode demorar para melhorar.

O IBGE aponta que taxa de desocupação do trimestre móvel até maio 2021 (14,6%) ficou praticamente estável em relação aos três meses até abril (14,7%). Houve aumento de 0,9% da população ocupada (809 mil pessoas) nessa comparação. Mas o contingente ainda está bem abaixo do recorde da série histórica – de 94,5 milhões, no fim de 2019.

Os números indicam que a situação parou de piorar, mas a melhora será muito gradual. Tudo indica que o desemprego continuará em alta até o fim do governo Bolsonaro, que tem mandato até 31 de dezembro de 2022.

Na visão do economista Bruno Imaizumi, da LCA Consultores, a recuperação das vagas perdidas em 2020 será apenas parcial em 2021. “Em 2020, houve uma perda de 8,4 milhões de ocupados. Nossa estimativa preliminar para 2021 é de 7 milhões a mais. Ou seja, ainda deixa mais de 1 milhão de pessoas de fora. É uma recuperação parcial”, destaca ele.

Segundo Imaizumi, dado o cenário “ainda complicado”, haverá também uma piora na qualidade do trabalho, com o avanço da informalidade. Devido à necessidade de recomposição de renda, muitos trabalhadores vêm se recolocando no mercado em posições de pior qualidade que ocupavam antes, seja em termos de renda, seja pelo tipo de inserção, como por conta própria.

Tiago Barreira, pesquisador da consultoria iDados Tiago Barreira, concorda com Imaizumi. Em relação a março, a população ocupada teve crescimento de 1,2%, o que corresponde à entrada de cerca de 1 milhão de pessoas. Mas, desse contingente, Tiago lembra que dois terços estão vinculados a empregos informais.

“Houve um crescimento da informalidade, já que esses trabalhos estão vinculados a atividades de serviços”, diz. Ele observa que cerca de 4,5 milhões de pessoas ainda precisam retornar à força de trabalho para que se recupere o nível anterior à pandemia. Segundo ele, “parece que o pior da taxa de desemprego já passou” – mas o mercado de trabalho brasileiro continua em situação “muito crítica”.

Para o economista Lucas Assis, da consultoria Tendências, a taxa de desemprego e a inflação põem viés de baixa para a renda real em 2021. A principal entrada no mercado de trabalho deve seguir via ocupações informais. O trimestre encerrado em maio registrou informalidade de 40%, a maior desde de fevereiro de 2020, nota Assis.

Outro dado revela que os trabalhadores em subocupações (por insuficiência de horas trabalhadas) somam hoje 7,4 milhões de pessoas, recorde da série histórica iniciada em 2012. “Não obstante, o retorno à força de trabalho dos que haviam migrado para a inatividade deve seguir pressionando a população desocupada no curto prazo, mantendo a taxa de desemprego em patamar elevado no País”, afirma o economista.

Relatório da consultoria Guide agrega que a taxa de subutilização ainda é elevada (29,3%), “o que evidencia a baixa qualidade dos empregos criados”. O rendimento médio demonstra fraqueza, “à medida que a aceleração da inflação começou a corroer os salários”.

“A ocupação e a participação devem continuar aumentando no segundo semestre, conforme a imunização avança e as restrições à mobilidade social são atenuadas”, diz a Guide. “No entanto, se tomarmos os números desta pesquisa pelo valor de face (ou seja, ignorar o impacto da pandemia em sua qualidade), os números indicam que ainda há um longo caminho até que a participação suba ao nível pré-pandemia e o desemprego caia.”

Com informações do Valor Econômico