Perpétua Almeida volta à Câmara e defende projeto de desenvolvimento para o Acre
O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) conquistou duas importantes vitórias eleitorais no Acre nas eleições de 4 de outubro. Perpétua Almeida foi eleita deputada federal com 15.800 votos, enquanto Edvaldo Magalhães garantiu novo mandato na Assembleia Legislativa, com 9.273 votos. Os dois foram os candidatos mais votados da Federação Brasil da Esperança (PCdoB, PT e PV) nas respectivas disputas e asseguraram as vagas conquistadas pela aliança no estado.
A eleição marca o retorno de Perpétua à Câmara dos Deputados para seu quinto mandato federal. Professora e uma das principais lideranças históricas da esquerda na Região Norte, ela construiu sua trajetória política nos movimentos comunitários e sindicais, na defesa dos trabalhadores e na luta pelo desenvolvimento da Amazônia. Filha de seringueiro e caçula de uma família de 15 irmãos, conhece de perto a realidade das comunidades que vivem na floresta e enfrentam dificuldades de acesso a serviços públicos, infraestrutura e oportunidades econômicas.
Ao longo de sua carreira, exerceu quatro mandatos como deputada federal e ocupou funções no Executivo, com passagens pelo Ministério da Defesa e pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). Nesta última, participou de projetos voltados à agroindustrialização e ao fortalecimento de cadeias produtivas, especialmente a do café acreano.
A campanha de retorno ao Parlamento, segundo Perpétua, foi uma das mais difíceis de sua trajetória. Fora do mandato, enfrentou adversários com maior estrutura financeira e o peso das máquinas públicas, em um estado de grandes dimensões territoriais, comunidades isoladas e localidades de difícil acesso. A memória de suas lutas, a militância do PCdoB e o apoio dos movimentos sociais foram, em sua avaliação, determinantes para a vitória.
Encerrada a disputa estadual, Perpétua se dedicou integralmente à campanha presidencial de Lula no segundo turno. Participou de manifestações, atividades nos municípios e mobilizações digitais, incluindo o chamado Exército do Lula, coordenado pelo deputado André Janones. Para ela, a mobilização popular, com protagonismo da juventude e das mulheres, foi decisiva para a reeleição do presidente.
De volta a Brasília, a deputada pretende concentrar sua atuação na geração de empregos, na criação de oportunidades para a juventude, na regularização fundiária, na ampliação da educação pública e na valorização da produção sustentável da Amazônia. Também anuncia a defesa dos direitos das mulheres, da saúde pública e das pessoas com deficiência.
Na entrevista a seguir, Perpétua fala sobre os desafios da campanha, a mobilização pela vitória de Lula, as expectativas para o novo governo e os projetos que pretende levar ao Congresso. Defende um modelo de desenvolvimento que mantenha a floresta em pé, mas assegure renda e dignidade às populações amazônicas.
Leia a entrevista com Perpétua:

1. O que tornou essa campanha tão desafiadora e quais fatores foram decisivos para sua eleição?
Foi, sem dúvida, uma das campanhas mais difíceis da minha vida. E olha que já enfrentei muitas disputas eleitorais no Acre!
Primeiro, porque eu estava fora do mandato. Segundo, porque a disputa no estado foi visivelmente marcada pelo forte poder econômico de muitas candidaturas e pelo peso da máquina pública no processo eleitoral.
O Acre tem dimensões enormes, com comunidades isoladas, rios, ramais de difícil acesso e municípios aos quais só se chega fretando avião. Fazer campanha nessas condições, com poucos recursos, significa enfrentar dificuldades até para garantir transporte, combustível e estrutura mínima às pessoas que levam nossas propostas aos lugares mais distantes.
Mas havia uma coisa que nossos adversários não podiam comprar: minha história de lutas e de defesa do povo acreano. Não comecei na política ontem. Venho dos movimentos sindicais e sociais, da defesa dos trabalhadores, seringueiros, agricultores familiares, mulheres e jovens. São décadas de caminhada e quatro mandatos na Câmara dos Deputados.
Por onde passei, encontrei pessoas que lembravam de nossas lutas e conquistas. Essa memória, somada à militância do PCdoB, dos movimentos sociais e de tantos amigos que abraçaram nossa campanha por convicção, foi decisiva.
Foi uma vitória suada e muito valorizada. Chego ao quinto mandato sabendo da enorme responsabilidade que cada voto representa.
2. O que mudou no Acre e no país desde sua última passagem pelo Legislativo?
Muita coisa mudou. O Brasil enfrentou uma pandemia, ataques às instituições democráticas e profundas transformações políticas e sociais. O próprio Congresso está mais fragmentado, com maior presença de forças conservadoras e disputas intensas sobre os direitos sociais e o papel do Estado.
No Acre, vejo mudanças, mas também problemas antigos sem solução. Nossa juventude está mais conectada e qualificada, mas enfrenta enormes dificuldades para conseguir o primeiro emprego. A agricultura familiar ampliou sua produção, mas continua sofrendo com a falta de infraestrutura, crédito e assistência técnica.
Também me preocupa o avanço da violência e do crime organizado, especialmente nas regiões de fronteira.
Por outro lado, vejo grandes oportunidades de desenvolvimento a partir das nossas próprias riquezas.
Minha experiência na Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) ampliou essa visão. Trabalhei diretamente com projetos de agroindustrialização, especialmente do café, e pude comprovar que é possível gerar emprego, agregar valor à produção e fortalecer a economia sem destruir a floresta.
Volto ao Congresso com o mesmo compromisso e disposição de luta dos mandatos anteriores, mas com uma experiência nova sobre como transformar boas ideias em projetos concretos de desenvolvimento.
3. Quais foram as principais demandas que você ouviu durante a campanha nos municípios, bairros e comunidades acreanas?
Emprego e renda foram reivindicações constantes, especialmente entre os jovens. É doloroso encontrar tantos que concluíram os estudos, mas não conseguem trabalhar porque lhes exigem experiência. Como vão adquirir experiência se ninguém lhes oferece a primeira oportunidade?
No campo, ouvi muitas reclamações sobre ramais intrafegáveis, pontes precárias e dificuldades para escoar a produção.
Mas uma questão que considero urgentíssima é a regularização fundiária. Precisamos de uma grande ação para documentar as terras das famílias que vivem na floresta há gerações. Muitas nasceram ali, assim como seus pais e avós, mas não possuem um documento que lhes garanta segurança jurídica. Sem isso, encontram dificuldades para acessar crédito, investir e planejar o futuro.
Eu nasci num seringal e conheço essa realidade. Não podemos continuar tratando como invisíveis famílias que ajudaram a construir a história do Acre e a manter a floresta em pé.
Também ouvi cobranças por saúde, educação, segurança, infraestrutura urbana, oportunidades para as mulheres e atendimento às pessoas com deficiência, especialmente às crianças autistas.
Saio dessa campanha ainda mais convencida de que o Acre precisa de um projeto de desenvolvimento que chegue à vida das pessoas, da capital às comunidades mais distantes dos rios e igarapés.
A governadora eleita terá grandes desafios pela frente. De minha parte, como única deputada federal eleita da base do presidente Lula no Acre, farei tudo para fortalecer as parcerias entre os governos federal e estadual.
Lula sempre teve um carinho especial pelo Acre. Na minha avaliação, nenhum outro presidente fez tanto pelo nosso estado. Quero ajudar a transformar essa relação em mais entregas para a população.
4. Como foi sua participação no segundo turno?
Foi de envolvimento total. Cem por cento!
Terminada minha eleição, entrei imediatamente na campanha presidencial. Participei de atos em Rio Branco e em outros municípios, fui às ruas, conversei com eleitores e trabalhei diariamente nas redes sociais para virar votos para Lula.
Também integrei o Exército do Lula, mobilização digital coordenada pelo deputado André Janones, que reuniu 10 milhões de pessoas no canal e organizou atividades como a Live da Virada, da qual participei do primeiro ao último momento.
Foi uma experiência emocionante. Algumas imagens jamais sairão da minha memória: idosos, pessoas doentes ou com dificuldades de locomoção fazendo enormes esforços para chegar às urnas, brasileiros atravessando longas distâncias no exterior para votar.
Como única deputada federal eleita pelo campo político de Lula no Acre, sentia uma responsabilidade ainda maior. Estavam em disputa projetos diferentes para o Brasil, os direitos dos trabalhadores, a democracia e o futuro da Amazônia.
Participei do segundo turno com a mesma energia com que enfrentei minha própria campanha.

5. Na sua avaliação, quais fatores explicam o resultado da eleição presidencial?
Foi uma eleição disputada voto a voto. Lula venceu com 51,79% dos votos válidos, depois de ter ficado atrás do adversário no primeiro turno. Esse é o Lula, capaz de bater os próprios recordes!
Na minha avaliação, pesaram sua trajetória, sua relação histórica com os trabalhadores e os movimentos sociais e as diferenças entre os projetos apresentados para o país.
Mas considero que o fator mais importante foi a mobilização popular.
Logo após o primeiro turno, a juventude em Niterói, no Rio de Janeiro, deixou claro que não ficaria em casa se lamentando. Iria às ruas buscar a vitória de Lula.
E foi o que vimos pelo Brasil. A participação nas ruas e nas redes nesse segundo turno não se compara com absolutamente nada. Na minha avaliação, nunca, na história do Brasil, uma campanha ou qualquer outro movimento levou tanta gente às ruas.
Destaco especialmente o protagonismo da juventude e das mulheres, que tiveram uma presença extraordinária nessas mobilizações.
A eleição terminou, mas nossa responsabilidade de fortalecer a democracia, combater as desigualdades e melhorar a vida do povo brasileiro continua.
6. Quais projetos concretos pretende defender na Câmara?
Tenho prioridades muito claras.
Uma delas é consolidar os direitos dos trabalhadores, acompanhando a implementação do fim da escala 6×1 e da nova jornada 5×2, já aprovada e promulgada, garantindo seu cumprimento sem redução salarial.
Outra é a juventude. Quero trabalhar por uma política nacional de primeiro emprego, com qualificação profissional e oportunidades para quem ainda não tem experiência.
No Acre, vou atuar pela ampliação e interiorização da Universidade Federal do Acre (Ufac) e do Instituto Federal do Acre (Ifac), levando mais cursos, laboratórios, pesquisa e oportunidades aos municípios.
A regularização fundiária será outra grande bandeira, assim como a defesa do SUS, da saúde das mulheres, das maternidades e dos direitos das pessoas com deficiência e autistas.
E quero dar continuidade ao trabalho de industrialização da agricultura familiar, com atenção especial às mulheres camponesas, que têm papel fundamental na produção e na economia das nossas comunidades.
7. Como você pretende conciliar a proteção da Amazônia com a geração de renda e o desenvolvimento econômico do Acre? Quais políticas podem fortalecer a produção sustentável e criar oportunidades para agricultores familiares, extrativistas e comunidades tradicionais?
Não precisamos escolher entre a floresta e o desenvolvimento. Precisamos mudar a maneira como pensamos o desenvolvimento da Amazônia.
Sou filha de seringueiro, nasci e cresci dentro da floresta. Não podemos exigir que as famílias a protejam enquanto seus filhos passam necessidade e não encontram oportunidades. A floresta precisa estar em pé, mas o povo que vive nela também precisa viver com dignidade.
Na ABDI, tive a oportunidade de trabalhar concretamente nessa direção.
Um exemplo é a industrialização do café acreano. Ajudamos a estruturar o Complexo Industrial do Café do Juruá, em Mâncio Lima, em parceria com a Coopercafé, e avançamos com novos projetos em Cruzeiro do Sul, Capixaba e Acrelândia, nestes dois últimos municípios em parceria com a Cooperacre.
Queremos ampliar essa experiência para outras cadeias produtivas, como o açaí, a mandioca, a castanha e outros produtos da sociobiodiversidade amazônica.
Para isso, precisamos fortalecer o cooperativismo, garantir assistência técnica, crédito, ciência, tecnologia, recuperação de áreas degradadas e investimentos em pequenas e médias agroindústrias. E, claro, garantir segurança jurídica às famílias por meio da regularização fundiária.
Quero trabalhar para que a bioeconomia deixe de ser apenas um conceito discutido em conferências e passe a significar emprego, renda e dignidade para quem vive na Amazônia.
Se a Amazônia é uma das regiões mais ricas do planeta, nosso desafio é fazer com que essa riqueza melhore a vida dos amazônidas.
8. Que propostas pretende levar ao Congresso para ampliar os direitos das mulheres e enfrentar as desigualdades que afetam especialmente as mulheres trabalhadoras?
Grande parte das propostas que apresentei até aqui envolve diretamente as mulheres. Afinal, a luta pelos nossos direitos atravessa toda a minha trajetória, desde o movimento sindical até o Congresso Nacional.
As mulheres enfrentam uma dupla ou tripla jornada, cuidando da casa, dos filhos, dos idosos e ainda garantindo o sustento da família.
Foi também por isso que abracei a luta pelo fim da escala 6×1. A conquista da jornada 5×2 tem um significado especial para as mulheres trabalhadoras.
Quero fortalecer as políticas de igualdade salarial, ampliar as creches públicas, garantir proteção à maternidade e combater a violência contra as mulheres.
No Acre, precisamos olhar especialmente para aquelas que vivem em comunidades rurais, ribeirinhas e indígenas, onde o acesso à rede de proteção é muito mais difícil.
Também quero continuar apoiando as mulheres camponesas, extrativistas e agricultoras familiares. Na ABDI, ajudei a desenvolver iniciativas de valorização das mulheres na cafeicultura e vi o quanto elas podem avançar quando recebem apoio e oportunidades.
E, para não acharem que esqueci, vou retomar a cobrança pela maternidade de Tarauacá. Até hoje não engoli o fato de termos destinado cerca de R$ 24 milhões para essa obra e ela não ter saído do papel. O governo estadual precisa explicar à população o que aconteceu com esses recursos e por que a maternidade não foi construída.
9. Qual será sua relação com a bancada federal acreana e com os prefeitos dos municípios do estado? É possível construir uma agenda comum para investimentos e obras, independentemente das diferenças políticas?
Nunca tive dificuldade em trabalhar com quem pensa politicamente diferente de mim quando o objetivo é defender os interesses do Acre. Minha trajetória parlamentar demonstra isso.
Sou do PCdoB, tenho posições claras, integro o campo político do presidente Lula e não abro mão das minhas convicções. Mas isso nunca me impediu de dialogar com prefeitos, governadores e parlamentares de outros partidos.
Já manifestei à governadora Mailza Assis minha disposição de contribuir para fortalecer as parcerias com o governo federal. Também quero dialogar com os demais integrantes da bancada para construir uma agenda comum em áreas como infraestrutura, saúde, educação, segurança, regularização fundiária e desenvolvimento econômico.
Minha relação com o presidente Lula e com os ministérios estará a serviço dessa tarefa.
O Acre não pode perder investimentos e oportunidades por causa das diferenças partidárias. Na hora de defender nosso povo, precisamos saber trabalhar juntos.
10. Quais serão as primeiras iniciativas que você pretende apresentar ou apoiar assim que assumir o mandato, em fevereiro de 2027?
Quero começar o mandato estudando todas as alternativas para apresentar um projeto de lei que amplie as oportunidades de primeiro emprego para a juventude.
No Acre, o deputado estadual Edvaldo Magalhães criou uma iniciativa nessa direção, com resultados que considero muito positivos. Quero estudar essa experiência e avaliar como podemos transformá-la numa política nacional, envolvendo o governo federal, os institutos federais, as universidades e o setor produtivo.
Também vou retomar minha atuação nas grandes pautas nacionais, como defesa nacional, soberania, Forças Armadas, indústria, ciência e tecnologia. São áreas em que acumulei experiência no Congresso e no Ministério da Defesa.
Quero que meu quinto mandato seja marcado por trabalho e resultados concretos, transformando as necessidades do nosso povo em políticas públicas.
Porque, para mim, fazer política nunca foi apenas ocupar um cargo. É ter a oportunidade de melhorar a vida das pessoas.




