Pela primeira vez, Brasil tem mais desempregados do que empregados

Foto: Agência de Notícias IBGE

Menos da metade dos brasileiros em idade de trabalhar tinham alguma ocupação – seja emprego formal, informal ou por conta própria – no trimestre encerrado em maio de 2020. De acordo com o levantamento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad Contínua) divulgada nesta terça-feira (30) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de pessoas trabalhando nunca foi tão pequeno no Brasil.
A pesquisa mostra que o país tinha 85,9 milhões de pessoas ocupadas no trimestre móvel que vai até maio, período que o Brasil e o mundo ingressaram no momento mais grave da pandemia do novo coronavírus. Assim, a taxa de brasileiros em idade de trabalhar que efetivamente tinham trabalho caiu para 49,5%. No trimestre móvel anterior, encerrado em fevereiro, a taxa era de 54,5%.
“Pela primeira vez na série histórica da pesquisa, o nível da ocupação ficou abaixo de 50%. Isso significa que menos da metade da população em idade de trabalhar está trabalhando”, explica a gerente do IBGE, Adriana Beringuy.
De acordo com a pesquisa, em apenas três meses, 7 milhões e 774 mil pessoas ficaram sem ocupação no período, um recuo de 8,3% na população ocupada. Desses, 74,4% eram do setor informal e representam quase 6 milhões de pessoas. Já no caso dos trabalhadores do setor privado com carteira assinada, o número de pessoas que perderam seus empregos foi de 2 milhões e 500 mil. Na véspera da divulgação da pesquisa do IBGE, o Ministério da Economia informou, através do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que o país perdeu, de março a maio, 1 milhão 487 mil vagas de emprego formal, número inferior ao registrado pela Pnad no mesmo período.
As dispensas atingiram ainda 1,176 milhão de trabalhadores domésticos, o número de empregadores recuou 377 mil e o trabalho por conta própria encolheu em 2 milhões.
“Uma parte importante da população fora da força é formada por pessoas que até gostariam de trabalhar, mas que não estão conseguindo se inserir no mercado, muito provavelmente em função do cenário econômico, das dificuldades em encontrar emprego, seja devido ao isolamento social, seja porque o consumo das famílias está baixo e as empresas também não estão contratando. Então esse mês de maio aprofunda tudo aquilo que a gente estava vendo em abril”, diz Beringuy.
12,7 milhões de desempregados
Os números elevaram também a taxa geral de desemprego do país, para a qual são contabilizados apenas aqueles que procuraram emprego nos 30 dias antecedentes à pesquisa. Esse percentual passou de 11,6% para 12,9% nos três meses mais graves da pandemia, um total de 12, 7 milhões de pessoas, mas não reflete a situação real de desemprego e falta de renda do país, já que não são contabilizados os desalentados e subutilizados.
“Tudo indica que, de fato, essas pessoas que perdem a ocupação não estão voltando para o mercado de trabalho na forma de procura por nova ocupação. Ou seja, sem pressionar o desemprego”, acrescenta Beringuy, explicando a subestimação da taxa de desemprego.
A taxa de informalidade, que bateu recordes sucessivos durante o primeiro ano de governo de Jair Bolsonaro, recuou de 40,6% para 37,6% no período – já que muitos trabalhadores informais não puderam seguir com suas atividades dadas as medidas de isolamento necessárias para a contenção do vírus. Um total de 32,3 milhões de trabalhadores informais.
Beringuy registra que essa informação não é um bom sinal, já que “significa que essas pessoas estão perdendo ocupação e não estão se inserindo em outro emprego. Estão ficando fora da força de trabalho”, explica.
Segundo o IBGE, houve também forte recuo na massa de rendimento real, que foi estimada em R$ 206,6 bilhões – uma queda de -5% frente ao trimestre anterior.
5,4 milhões de desalentados
De março a maio, a taxa de desalento (número de trabalhadores que desistiram de procurar trabalho) avançou 15,3% – um recorde ao atingir 5,4 milhões de brasileiros. A pandemia é um dos fatores que contribuem para a impossibilidade da procura por trabalho.
A taxa de subutilização (insuficiência de horas trabalhadas) também foi a maior registrada desde o início da série histórica da pesquisa, avançando 13,4% no trimestre encerrado em maio e atingindo 30,4 milhões de pessoas (27,5%). O número de pessoas que trabalham por conta própria continua alto: 22,4 milhões de pessoas.
É diante desse cenário que o governo federal ameaça cortar progressivamente o auxílio emergencial. De acordo com anúncio de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes (Economia), que deve ser formalizado nesta tarde, o pagamento do benefício R$ 600 para trabalhadores informais e desempregados que ficaram sem renda alguma durante a pandemia, deve ser reduzido para três parcelas de R$ 500, R$ 400 e R$ 300.
Parlamentares, economistas e governadores defendem que o auxílio no mesmo valor atual seja estendido até o final do ano, como forma de garantir alguma renda para as famílias e também de amortecer a crise impulsionando o consumo.
“O que nós temos é uma contradição gravíssima na medida em que os indicadores econômicos agora estão se degradando com mais velocidade. No momento em que há desemprego, em que, infelizmente, se verifica a desorganização de cadeias de oferta e demanda com a quebradeira de empresas, é que o auxílio emergencial se faz mais necessário”, afirmou em entrevista o governador do Maranhão, Flavio Dino (PCdoB). “Isto é uma brutal insensibilidade, é uma desumanidade. O fim precoce do auxílio emergencial pode jogar o Brasil no caos social. Eu espero que, mais uma vez, o Congresso Nacional atue e evite esse equívoco do Bolsonaro”.