PCdoB propõe transformar prestígio internacional em desenvolvimento soberano
A recuperação do prestígio internacional do Brasil figura entre as principais realizações do terceiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo o documento “Contribuição ao Programa de Campanha Lula Presidente 2026 – Rumos Soberanos para uma Nova Arrancada do Desenvolvimento”, apresentado pelo PCdoB.
Para o Partido, porém, o desafio de um eventual novo mandato será ir além da reconstrução da imagem do país no exterior e transformar esse protagonismo diplomático em desenvolvimento econômico, reindustrialização, inovação tecnológica e fortalecimento da soberania nacional.
O documento avalia que, após um período de isolamento internacional e de enfraquecimento das relações multilaterais, observado nos governos dos golpistas Michel Temer e Jair Bolsonaro, o Brasil voltou a ocupar posição de destaque em temas como defesa da paz, democracia, soberania dos povos, combate à fome, sustentabilidade ambiental e reforma da governança global.
Também ressalta a retomada da presença brasileira em espaços como o BRICS+, o G20 e diferentes articulações do Sul Global como parte desse processo de reconstrução diplomática.
Na avaliação da cientista política e especialista em relações internacionais Ana Prestes, a recuperação do protagonismo brasileiro foi resultado de uma mudança importante na condução da política externa.
“O Brasil deixou a posição de isolamento e alinhamento subordinado aos Estados Unidos e recompôs suas relações com diferentes centros de poder e regiões do mundo. O país retomou o diálogo com a América Latina, a África, a China, os demais integrantes do BRICS e a União Europeia sem assumir alinhamento automático com nenhum deles”, afirma.
Segundo ela, esse reposicionamento ampliou a capacidade de articulação diplomática do país e permitiu que o Brasil voltasse a influenciar debates internacionais sobre desenvolvimento, combate às desigualdades e reforma das instituições multilaterais.
Diplomacia voltada ao desenvolvimento
Para o PCdoB, entretanto, recuperar prestígio internacional não constitui um objetivo em si mesmo.
O documento sustenta que a política externa deve estar articulada a um projeto nacional de desenvolvimento capaz de enfrentar a desindustrialização, reduzir vulnerabilidades externas e ampliar a autonomia estratégica brasileira.
Ana Prestes avalia que os avanços diplomáticos já produziram efeitos concretos para o país, como a ampliação das oportunidades de investimentos, abertura de mercados e fortalecimento da posição brasileira nas negociações internacionais.
“A recuperação diplomática produziu ganhos, mas seu resultado estratégico dependerá da ligação entre política externa, política industrial, ciência e tecnologia, infraestrutura e financiamento do desenvolvimento”, afirma.
Ela observa, porém, que o Brasil ainda ocupa uma posição desfavorável nas cadeias globais de valor, exportando predominantemente produtos primários e importando parte significativa das tecnologias e dos bens de maior valor agregado.
Multipolaridade abre oportunidades
A proposta do PCdoB parte da avaliação de que o mundo atravessa uma transição para uma ordem internacional multipolar, marcada pelo fortalecimento de novas coalizões do Sul Global e pela redução relativa da hegemonia dos Estados Unidos.
Nesse cenário, o documento defende que o Brasil aproveite as novas oportunidades de cooperação econômica, tecnológica e política para superar sua condição semiperiférica na economia mundial.
Segundo Ana Prestes, essa transformação amplia as possibilidades de inserção internacional do país, mas não garante, por si só, um novo ciclo de desenvolvimento.
“A multipolaridade não garante automaticamente o desenvolvimento. O Brasil pode continuar ocupando uma posição subordinada mesmo em uma ordem multipolar, caso permaneça apenas como exportador de commodities e importador de tecnologias”, afirma.
Na avaliação da pesquisadora, a oportunidade histórica está justamente em utilizar a ampliação das alternativas internacionais para fortalecer capacidades produtivas próprias, diversificar parceiros comerciais e ampliar a cooperação científica e tecnológica.
BRICS como instrumento de transformação
Entre os principais espaços de atuação apontados pelo documento está o BRICS+, considerado pelo PCdoB um dos pilares da construção de uma ordem internacional mais equilibrada.
O texto associa o fortalecimento do bloco às possibilidades de financiamento do desenvolvimento, ampliação da cooperação tecnológica e fortalecimento da autonomia brasileira.
Ana Prestes destaca que o bloco pode contribuir para financiar projetos de infraestrutura, energia, inovação, mobilidade e adaptação climática por meio do Novo Banco de Desenvolvimento, além de ampliar mecanismos de cooperação científica e reduzir a dependência do sistema financeiro internacional.
“O Brasil precisa entrar no BRICS com uma agenda própria. Deve definir quais tecnologias pretende dominar, quais cadeias produtivas deseja desenvolver e quais projetos precisam de financiamento. Sem planejamento nacional, o país corre o risco de continuar fornecendo matérias-primas e adquirindo produtos de maior conteúdo tecnológico”, disse.
Política externa integrada ao projeto nacional
Para um eventual quarto governo Lula, Ana Prestes defende que a diplomacia passe a atuar de forma coordenada com a política industrial, científica e tecnológica.
Segundo ela, o Itamaraty deve trabalhar conjuntamente com instituições como BNDES, Finep, ApexBrasil e os ministérios responsáveis pelo desenvolvimento para atrair investimentos produtivos, estimular a transferência de tecnologia, ampliar a produção nacional e abrir mercados para produtos brasileiros de maior valor agregado.
“A política externa deveria ser uma dimensão do Plano Nacional de Desenvolvimento proposto pelo PCdoB”, resume.
Essa estratégia também passa pelo fortalecimento da integração sul-americana, considerada pelo documento condição fundamental para ampliar a autonomia estratégica do país e consolidar um novo ciclo de desenvolvimento soberano. Entre as prioridades estão infraestrutura regional, integração energética, cadeias produtivas, ciência, tecnologia e cooperação em defesa.
Ao concluir sua análise, Ana Prestes sintetiza o desafio colocado para o próximo período.
“É preciso transformar o prestígio internacional recuperado no terceiro governo Lula em capacidade material de desenvolvimento. O Brasil deve direcionar sua política externa para assegurar sua soberania e abrir um novo ciclo de crescimento econômico com avanço científico, tecnológico e justiça social”, conclui.




