Em 21 de janeiro relembra-se o centenário da fundação do Partido Comunista Italiano (PCI). Pode-se ter distintas opiniões quanto à sua linha política, compartilhar ou não de suas premissas e perspectivas ideológicas, mas é inegável a importância desta organização de massas na história da Itália do século XX.

por Gianni Fresu*

Reconhecê-lo não significa omitir as contradições e os limites de sua trajetória política, mas avaliá-los conjuntamente com o caráter progressivo de sua função histórica. A peculiaridade do PCI no panorama do comunismo internacional, todavia, não diz respeito apenas ao seu peso nos acontecimentos sociais, políticos e culturais de um país cuja posição no bloco ocidental era considerada obrigatória, como demonstraram dramaticamente as tramas subversivas e a estratégia de tensão no curso do pós-guerra. A verdadeira originalidade do comunismo italiano liga-se ao esforço desenvolvido por seus grupos dirigentes a fim de traduzir os princípios do marxismo e o conteúdo universal da Revolução Russa às peculiaridades de nossa realidade nacional. Não se tratava de repetir fórmulas ideológicas gerais, nem de pretender-se voltar a propor servilmente para a Itália modelos estabelecidos em outras partes. Como escreveu Gramsci no Caderno 7, “a tarefa era essencialmente nacional, isto é, exigia um levantamento do terreno e uma fixação dos elementos de trincheira e de fortaleza”, ou seja, inserir-se nas articulações hegemônicas de sua sociedade civil, apreendendo sua essência e sua originalidade.

Na história do século vinte, os feitos do Partido Comunista Italiano deram origem a tal quantidade de pesquisas e achados que só encontraram contrapartida no grande interesse pelo fascismo, certamente o tópico histórico-político italiano mais sujeito à investigação científica. No entanto, nesta colossal obra de reconstrução histórica, existem algumas “zonas cinzentas” dentre as quais destaca-se certamente a falta ou insuficiente historicização da corrente de Amadeo Bordiga, principal arquiteto e protagonista do nascimento do PCd’I (Partido Comunista da Itália). A tendência de considerar Gramsci como o fundador do “novo partido” é o resultado de uma representação instrumental dos acontecimentos, funcional às necessidades internas de luta política. Contudo, uma vez que o quadro histórico mudou e as necessidades dialéticas que determinaram sua afirmação desapareceram, tal visão dos fatos sobreviveu ao próprio PCI, de modo que ainda hoje difunde-se a ideia de um “Gramsci pai fundador do Partido”.

O PCd’I, Seção Italiana da III Internacional, nasceu em Livorno em 21 de janeiro de 1921. De modo a dar ênfase às suas raízes nacionais, após a dissolução da Internacional Comunista, tomou então o nome de Partido Comunista Italiano em 15 de maio de 1943. No entanto, a escolha de uma contextualização nacional mais clara da organização nasceu bem antes de 1943, com a profunda virada dada por Gramsci em sua direção política entre 1925 e 1926. As Teses do Congresso de Lyon de 1926 foram definidas como o eixo fundamental da mudança ocorrida na história dos comunistas na Itália, tanto em relação ao conceito de partido quanto no tocante à análise da sociedade. Ambos os casos estão ligados à superação completa das teses elaboradas por Bordiga para o Congresso de Roma, dadas as profundas mudanças na direção política do Partido que ocorreram sob a liderança de Antonio Gramsci. Como se sabe, a partir do final dos anos trinta e principalmente na luta pela libertação nacional, o Partido Comunista tornou-se um sujeito político capaz de atrair estudantes, trabalhadores, artistas, escritores, professores universitários. De um pequeno partido de quadros, presente de forma limitada apenas em certas áreas do país, torna-se a principal organização política da Resistência, a ponto de se tornar inesperadamente o primeiro partido da esquerda italiana e o maior partido comunista do ocidente. Tal transformação parece quase impossível quando se leva em consideração a marginalidade e cultura minoritária que existia no momento de seu nascimento e durante os anos de afirmação do Fascismo. Uma primeira explicação talvez deva ser buscada na tenacidade com que, mesmo nos anos mais difíceis da repressão fascista, o PCd’I se esforçou para manter sua própria estrutura operacional clandestina na Itália, ao invés de limitar-se a transferir toda sua organização para o exterior. No entanto, embora importante, a presença obstinada dos comunistas no país ao longo dos vinte anos de Mussolini não explicaria por si só esse fenômeno de crescimento exponencial. Deve ter exercido influência também a evolução de sua linha política, capaz de abandonar as abordagens sectárias e minoritárias das origens para aderir com maior plasticidade às condições nacionais, tornando-se um partido de massas em muitos aspectos herdeiro da tradição organizacional e social do velho socialismo. As Teses de Lyon representam um divisor de águas essencial, certamente o ponto culminante em que a elaboração teórica e a direção política de Gramsci encontram um ponto de compreensão elevadíssimo. Na biografia de Gramsci, elas representam um ponto de continuidade entre as batalhas anteriores a 1926 e as reflexões do cárcere, o testemunho mais vivo de como é impossível separar o político e militante Gramsci do “desinteressado” ou “homem de cultura”. A virada de Lyon é a premissa essencial para se compreender o papel histórico assumido pelo PCI tanto na Resistência como na fase subsequente à Libertação; é o pano de fundo mais significativo da profunda mudança na iniciativa dos comunistas entre o VII Congresso do Comintern e a “virada de Salerno” em 1944.

Propaganda eleitoral do PCI em 1946

Propaganda eleitoral do PCI em 1946

O resultado mais fecundo dessa reorientação foi conceber em termos orgânicos as temáticas da luta contra o fascismo e os da reconstrução democrática a partir do período constituinte. O ponto de contato entre estes dois momentos foi a ideia de uma democracia progressiva, ou seja, a perspectiva de uma ampliação permanente dos espaços da democracia econômica, social e política, de forma a permitir que o mundo do trabalho conquiste posições de força, em um processo de transição democrática para o socialismo. Era preciso remover as raízes sociais e econômicas do fascismo, vale dizer, o caráter monopolista de um certo tipo de capitalismo, o parasitismo oligárquico, causa congênita do subversivismo reacionário de parte significativa de suas classes dirigentes. Para atingir este objetivo, assim como para preparar-se a libertação da ocupação nazifascista, era fundamental encontrar um entendimento unitário com as demais forças populares do país, não só os socialistas, mas também, e sobretudo, as massas católicas. Para além dos mitos e lendas sobre a alegada “dubiedade togliattiana” [refere-se a Palmiro Togliatti] na escolha feita na virada de Salerno em 1944, e nas mudanças que se seguiram, até a aprovação da Constituição Republicana não existia qualquer “hábil expediente tático”, tratava-se de escolhas estratégicas resultantes da busca de uma via italiana original ao socialismo, fruto das especificidades históricas, culturais e sociais da realidade nacional concreta em que os comunistas pretendiam atuar.

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Gianni Fresu* é professor de Filosofia Política IFILO-UFU (MG/Brasil), Pesquisador na Università di Cagliari, Presidente da International Gramsci Society Brasil | Tradução de Rita Coitinho

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