Tropas aliadas na Normandia, no Dia D da Segunda Guerra Mundial

Na madrugada de 8 de maio de 1945, em uma pequena escola de tijolos vermelhos, em Reims, no nordeste da França, os alto dignatários do que restava da arrogância nazista, o general Alfred Jodl (ex-chefe do Alto Comando da Wehrmacht, condenado a morte em 1946 por crimes contra a humanidade pelo Tribunal de Nuremgerg) e o almirante Hans Georg von Friedeburg (ex-comandante da marinha alemã) assinaram a rendição incondicional da Alemanha, ante os generais Ivan Susloparov (soviético), Walter Bedell Smith (estadunidense) e François Sevez (francês).

Por José Carlos Ruy*

Foi o fim da agressão nazista no Ocidente, na Ásia e no Pacífico a guerra continuaria mais alguns meses, até a rendição do Japão em 2 de setembro de 1945. A Segunda Grande Guerra foi o maior e mais sangrento episódio da luta de classes e contra a democracia no século 20.

A guerra ocorreu num contexto de agravamento intenso da resistência das classes dominantes europeias contra o avanço da democracia, resistência radicalizada na Alemanha e outros países, como a Itália, e mesmo setores da elite na França, Inglaterra, EUA e outros lugares.

O marco dessa resistência à democracia foi a Revolução Russa de 1917 e o início da construção do socialismo. Isso era inaceitável para as classes dominantes do Ocidente, que tudo fizeram para derrotar a república proletária, esforço reacionário acentuado desde que o governo bolchevique venceu a Guerra Civil, apoiada pelas potências ocidentais, em 1922.

Depois da ascensão do nazismo ao poder em 1933, os governantes da Inglaterra e da França fizeram vistas grossas às transgressões de Adolf Hitler às obrigações impostas pelo Tratado de Versalhes à Alemanha, e não se opuseram ao fortalecimento das forças armadas alemãs, nem reagiram à anexação de territórios como a Renânia em 1936. Os governos britânico e francês chegaram a assinar um vergonhoso tratado com Hitler – o Acordo de Munique, de 29 de setembro de 1938, que entregou a Tchecoeslováquia à sanha nazista. E que deu liberdade de ação aos nazistas na Europa para que recuperassem territórios perdidos na Primeira Grande Guerra. Dessa maneira, esperavam amansar Hitler e dirigir sua ação para destruir a União Soviética.

Adolf Hitler e a liderança nazista acreditavam que teriam uma vitória rápida contra os russos, que viam como “sub-humanos”, bárbaros, racialmente inferiores. Seu objetivo era a expansão sobre os territórios no leste da Europa, sobretudo as estepes férteis da Ucrânia, vistos como um “lebensraum” (espaço vital) para a expansão alemã.

A guerra como recurso para conquistar esse “espaço vital” fora registrada por Hitler, em 1925, no livro “Mein Kampf” (“Minha Luta”), que se tornou o evangelho nazista. “Quando hoje falamos em novo território na Europa, devemos pensar principalmente na Rússia e nos seus Estados vassalos limítrofes”, escreveu o líder nazista. Para isso seria necessário abrir naquelas terras um vazio populacional com o assassinato de ao menos 30 milhões de pessoas.

Em 30 de março de 1941, numa reunião para planejar a invasão da URSS (que ocorreria em junho daquele ano) Hitler teria dito que aquela seria a “luta de duas visões de mundo”, uma “sentença aniquilatória contra o bolchevismo”, que é a “mesma coisa que criminalidade antissocial”, registrou o general Franz Haider, que participou daquela reunião. “Comunismo, tremendo perigo para o futuro”, teria dito Hitler.

O führer acreditava que a invasão seria mais uma “blitzkrieg” – um ataque relâmpago, rápido. Em seus planos, a guerra contra a URSS terminaria antes do Natal de 1941 e do temível inverno russo. “Nós só temos que chutar a porta da frente e todo o edifício ruirá”, disse em outra ocasião, relata o historiador Rupert Matthews. A reação russa à invasão alemã deu-se num nível e com uma força e determinação que os nazistas não esperavam, nem as classes dominantes nas demais potências. A resistência popular contra a ocupação nazista começou a ser preparada logo no início da invasão. Em 27 de junho, cinco dias após a agressão alemã, o governo soviético começou a organizar a ação guerrilheira (que mobilizou na luta toda a população adulta, homens e mulheres) como força complementar à do exército regular. Ela foi, disse o historiador Henri Bernard, uma gigantesca operação militar em harmonia com os planos de luta e com “apoio total da população”. A enorme mobilização do povo justifica o nome que os russos dão àquele conflito: “grande guerra pátria”.

Aqueles que esperavam que a invasão da URSS repetisse o desempenho das “blitzkrieg” e fosse uma guerra rápida erraram feio. Aquele foi num ótimo exemplo da cegueira ideológica que impede uma visão clara da vida real: o conservadorismo de direita, o nazismo, a repulsa à liberdade e autonomia dos povos, foi o grande embaraço que impediu as lideranças burguesas de então de enxergarem a solidez do regime soviético e apostarem em sua destruição pelos nazistas.

Solidez que os nazistas provaram na prática ao invadir a URSS. Em janeiro de 1942, um diplomata inglês que servia em Moscou enviou a seu governo, em Londres, um telegrama onde dizia: “Essa ofensiva forçará os nazistas a um longo recuo. Uma nova ofensiva alemã está prevista para a primavera, podendo fazer alguns progressos limitados na Rússia, mas não logrará muito. Em seguida, os russos pretendem dar o golpe de misericórdia no outono ou no inverno. Não acredito que os russos parem nas fronteiras alemãs, mas que partam para uma derrota da Alemanha de forma conclusiva e definitiva” (citado por Rupert Matthews).

Assim, aquele diplomata inglês anteviu o que aconteceria nos anos seguintes. O ponto alto da contra-ofensiva soviética que derrotou o nazismo foi registrado visualmente na conhecida fotografia de um soldado russo hasteando a bandeira da foice e do martelo no teto do Reichstag, a sede do parlamento alemão, em Berlim, em 2 de maio de 1945 – cerca de três anos e três meses após a vitória soviética em Stalingrado, onde começou a virada da guerra contra os nazistas.

A entrada do Exército Vermelho em Berlim, no início de maio de 1945 foi o ponto final da sangrenta e criminosa aventura guerreira iniciada por Adolf Hitler e seus asseclas em 31 de setembro de 1939, acentuada desde a invasão da União Soviética, em 22 de junho de 1941.

Desde 1941 o governo soviético apelava pela abertura de uma segunda frente, no Ocidente, contra a agressão nazista. Mas enfrentaram a oposição da liderança ocidental. O primeiro ministro inglês, Winston Churchill, por exemplo, era contrário à abertura de uma segunda frente, sob o pretexto do poderio alemão. Os soviéticos, dirigidos por Joseph Stalin, apelavam por uma grande aliança mundial, de comunistas, socialistas, democratas e defensores do progresso social, na luta contra o nazismo, o governo de extrema-direita que ameaçava a civilização em seu conjunto.

As batalhas de Moscou (2/10/1941 – 07/01/1942), Stalingrado (23/08/1942 – 02/02/1943, considerada o início da derrota nazista na guerra), Kursk (04/07/1943 – 23/08/1943), e o heroísmo do povo russo contra o cerco nazista a Leningrado (08/09/1941 – 27/01/1944), deixaram claro para o mundo que as tropas nazistas não eram invencíveis apesar da crença em contrário que havia no Ocidente, sobretudo depois da queda e ocupação nazista da França em 1940, que se fixaram no norte do país, deixando o sul sob o regime pró-nazista dirigido pelo marechal Henri Philippe Pétain.

Os criminosos nazistas não eram indestrutíveis – esta foi a mensagem que os russos deram ao mundo desde Moscou, Stalingrado, Leningrado e Kursk.

Começou ali o rolo compressor vermelho que expulsou os nazistas e os empurrou ao território alemão. Não foi um passeio, mas um esforço de guerra que ninguém, na liderança nazista ou na ocidental acreditava que fosse possível. Os governos da Inglaterra e dos EUA acreditavam que o povo russo, ante a ocupação alemã – que, apostavam, veriam como “libertadora do comunismo” – se levantaria contra o governo soviético.

Na véspera da invasão da União Soviética, o serviço secreto britânico calculou que a URSS seria derrotada em oito ou dez semanas. Na mesma linha um funcionário do Departamento de Estado dos EUA foi mais “pessimista” e previu que a derrota soviética ocorreria entre um a três meses. (citados por Domenico Losurdo).

O historiador estadunidense John Bagguley dá a dimensão das razões da insistência soviética pela abertura da segunda frente. Ele é taxativo ao dizer que a ação ocidental (inglesa e estadunidense) não foi central na guerra para derrotar Hitler. Era contra os russos e os povos do leste da Europa que os nazistas dirigiam a parte mais significativa de sua ação guerreira, cuja medida é dada pela lembrança que o então primeiro ministro britânico, Winston Churchill registrou, ele próprio, em suas memórias: enquanto os aliados brincavam, no Ocidente europeu, com seis divisões alemãs, os russos enfrentavam 185 divisões da Wehrmacht – 30 vezes mais! Essa disparidade levou o historiador Bagguley a reconhecer que a Segunda Grande Guerra foi na verdade, “uma guerra soviético-germânica, com a ação inglesa e americana apenas na periferia”.

Poucos meses após a vitória em Stalingrado, as forças soviéticas chegaram aos países ocupados pelos nazistas no Leste da Europa, e, em abril de 1945, ao território da Alemanha, cuja capital, Berlim, foi tomada por eles.

O desembarque na Normandia, em 6 de junho de 1944 – o famoso Dia D, que significou a abertura da frente ocidental que os soviéticos pediam desde 1941 – só ocorreu depois do começo da ofensiva do Exército Vermelho no Leste Europeu, no início daquele ano e que avançou rapidamente rumo ao oeste.

A derrota alemã coroou a árdua e difícil caminhada iniciada desde vitória soviética em Stalingrado, dois anos antes.

O número de mortos se conta aos milhões: uma pesquisa no Google diz que foram entre 50 milhões e 70 milhões – dos quais mais de 27 milhões de russos (entre os quais mais de 13 milhões de civis) vítimas da ocupação nazista, 14 milhões de chineses mortos pelos invasores japoneses e 6 milhões de judeus assassinados na máquina de matar montada pelos nazistas.

A Segunda Grande Guerra foi o mais violento e letal episódio da luta de classes que marcou aquele que foi o período do início da luta pelo socialismo: o século XX.

O mundo mudou depois da assinatura da rendição incondicional alemã em 8 de maio de 1945. A democracia saiu fortalecida daquele conflito onde as forças do progresso social lutaram para derrotar a direita mais radical e preconceituosa. Há 75 anos venceram a democracia e a civilização, contra a barbárie.

Hoje, três quartos de século após, as mesmas forças anti-democráticas, que defendem o ódio, o racismo e o preconceito voltam a ameaçar o mundo, inclusive o Brasil. Para se resguardar contra elas, e em defesa da democracia e dos direitos de todos, o conhecimento da história, daquilo que já aconteceu, é fundamental.

Referências
Bagguley, John. “A guerra mundial e a guerra fria”. in Horowitz: 1969.
Bernard, Henri. “Historia de la resistencia europea”. Barcelona, Ediciones Orbis, 1986.
Evans, Richard J. O Terceiro Reich em Guerra. São Paulo, Planeta, 2012
Hobsbawm, Eric. “Era dos extremos – O breve século XX” -1914-1991. São Paulo, Cia das Letras, 1995.
Horowitz, David (org.). “Revolução e Repressão”. Rio de Janeiro, Editora Zahar, 1969.
Losurdo, Domenico. Stalin – storia e critica di uma legenda nera. Roma, Carocci editore, 2008
Matthews, Rupert. Segunda Guerra Mundial: Stalingrado. A resistência heroica que destruiu o sonho de Hitler de dominar o mundo. São Paulo, M. Books do Brasil, 2013
Shirer, William. “Ascensão e queda do Terceiro Reich”. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1975
Volkogonov, Dimitri. “Stalin: triunfo e tragédia – 1939-1953”, (vol. 2). Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2004.

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