Orlando Silva: Oportunidade é a chave para combater as diferenças

Reprodução/Revista Época

Em entrevista à Revista Época divulgada nesta segunda-feira (18), o líder do PCdoB na Câmara, deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP) respondeu questionamentos sobre racismo, religião, elite brasileira, povo, militares, e, claro, de política.Para combater o racismo que ainda se faz presente no Brasil, Orlando aponta ações afirmativas como alternativa. “Devemos tratar desigualmente os desiguais. Oportunidade, sobretudo na educação, é a chave para produzir emancipação e combater as diferenças”.

O parlamentar tratou ainda da busca pelo novo na política. Segundo Orlando, o PCdoB tem ideias novas. “Aos 96 anos, o PCdoB é um partido maduro, experiente, mas nossas ideias são as ideias do futuro Enquanto houver desigualdade, injustiça, exploração, como acontece no capitalismo, as ideias socialistas serão sempre novas”

Orlando, que já foi ministro do Esporte dos governos Lula e Dilma (2006 e 2011), comentou sobre as saídas para a crise que o Brasil atravessa. Ressaltou que a elite conservadora aproveitou a primeira oportunidade que teve para recuperar a agenda ultraliberal.

Para o parlamentar, o desafio agora é pensar estratégias de desenvolvimento econômico que tornem o Estado mais eficiente e mais atento às demandas da população, afirmou o deputado, pré-candidato à reeleição.

Soteropolitano e negro, Orlando Silva falou ainda sobre como o racismo se manifesta na Bahia e que a escravidão ainda se faz presente na sociedade brasileira na forma da desigualdade de oportunidades. “As ações afirmativas são importantes porque devemos tratar desigualmente os desiguais. Oportunidade, sobretudo na educação, é a chave para produzir emancipação e combater as diferenças.”

Apontando como “baianos da mesma geração”, a revista global publica a entrevista do deputado, de 47 anos, concomitantemente com a do prefeito de Salvador, ACM Neto, de 39 anos. Para acessar a íntegra, clique aqui. Ou leia a integra da entrevista do deputado Orlando a seguir:

Revista Época: Todo mundo está em busca do novo na política brasileira. Em que seu partido ficou velho?
Orlando Silva: Meu partido tem as ideias mais novas. Enquanto houver desigualdade, injustiça, exploração, como acontece no capitalismo, as ideias socialistas serão sempre novas. Aos 96 anos, o PCdoB é um partido maduro, experiente, mas nossas ideias são as ideias do futuro. A China está aí para mostrar isso. É a principal potência econômica do mundo.

Qual é o maior problema da direita brasileira?
A direita brasileira é acrítica do ponto de vista da elaboração de estratégias para o país. Foi assim com Fernando Henrique Cardoso, com o consenso de Washington. Na primeira oportunidade que tiveram para voltar ao poder, por meio de Michel Temer, recuperaram a mesma agenda ultraliberal, que pode caber na Inglaterra ou nos Estados Unidos, mas não tem nada a ver com a realidade brasileira. A forma regressiva do sistema tributário brasileiro é uma vergonha. E isso é historicamente patrocinado pelas forças conservadoras.

Qual é o maior problema da esquerda brasileira?
O primeiro desafio é pensar estratégias de desenvolvimento econômico que tornem o Estado mais eficiente e mais atento às demandas da população. Outro desafio é tratar do tema da segurança pública, com o qual a esquerda sempre teve dificuldade de lidar. Em alguns países do mundo, a esquerda foi sequestrada por uma agenda multicultural identitária, e isso não nos interessa. Os temas dos direitos humanos, das minorias, do combate ao machismo, ao racismo e à homofobia são relevantes na vida de qualquer nação. Mas, em um país como o Brasil, esses temas devem estar vinculados a uma estratégia de desenvolvimento nacional.

Depois de 130 anos da Abolição da Escravatura, a escravidão ainda se faz presente na sociedade brasileira?
Ela aparece na forma da desigualdade de oportunidades. Cento e trinta anos depois, produzimos só uma igualdade formal. As ações afirmativas são importantes porque devemos tratar desigualmente os desiguais. Oportunidade, sobretudo na educação, é a chave para produzir emancipação e combater as diferenças.


A capital com maior número de negros no Brasil sofre com o racismo, inclusive de agentes públicos
(Foto: MARIO TAMA/GETTY IMAGES)


Como o racismo se manifesta na Bahia?
A violência contra a população negra é muito pesada na Bahia. Vivi a vida inteira no bairro do Lobato, na periferia de Salvador, e me acostumei a ser abordado nos ônibus pela polícia por ser negro. Uma vez, uma namorada paulista ficou chocada porque a polícia selecionava e mandava as pessoas descer do ônibus para ser revistadas. Se você percorrer a orla de Salvador, vai ver que, quanto mais afastada do centro, mais branca é a praia. Tem a ver com acesso, mobilidade e o local onde as pessoas moram.

Qual a maior debilidade da elite brasileira?
O Lula acreditou que era possível estruturar um projeto nacional de desenvolvimento, conciliando interesses dos trabalhadores e da elite brasileira. Mas não há projeto da elite brasileira. A elite brasileira vive do rentismo. Isso é revelador da completa falta de projeto nacional, de estratégia de desenvolvimento e de uma elite pobre.

Qual a maior debilidade do povo brasileiro?
Talvez seja a falta de memória. Um país como o Brasil, uma nação jovem com formação histórica recente, precisava aprender mais com a memória. Quando um ex-capitão, candidato a presidente da República, faz ode a um período difícil e duro da história do país, cuja página havíamos virado, e alcança repercussão, é porque o Brasil não tem memória.

A Lava Jato mudou o Brasil?
A Lava Jato corresponde a uma fase de amadurecimento institucional do Brasil. O patrimonialismo é um traço do Brasil. As elites brasileiras misturam seus negócios com a ação do Estado. Há uma baixa transparência na gestão pública. Combater a corrupção é uma necessidade do país. Mas não se pode, a título de combater a corrupção, aplicar toda sorte de abuso de autoridade. Como se produz um juízo natural no Paraná de um fato que em tese aconteceu no Rio de Janeiro, que envolveria um benefício em tese no Guarujá a uma autoridade que exercia sua atividade em Brasília? Isso é uma completa distorção, mas foi funcional para atingir determinados objetivos políticos.

Defina o juiz Sergio Moro.
Um juiz de primeira instância que exacerbou em inúmeros momentos as suas atribuições como líder da Operação Lava Jato. Não é razoável publicar uma ligação telefônica da presidente da República.

Onde o senhor quer ver o ex-presidente Lula no dia 2 de janeiro de 2019?
Livre. Espero que o presidente Lula possa ter a oportunidade de demonstrar na Justiça sua inocência. Que o julgamento seja imparcial e respeite as regras do devido processo legal.

E o presidente Michel Temer? Onde pretende vê-lo no dia 2 de janeiro de 2019?
Respondendo à Justiça, às acusações de que ele usou métodos pouco republicanos.

Militar é bom para…
Defender a soberania nacional e as fronteiras. Esse é o papel constitucional das Forças Armadas. Espero que seja cumprido no Brasil.

Quem o senhor já bloqueou no WhatsApp? Por quê?
Eu não aceito agressão no WhatsApp nem em nenhuma rede social. Já bloqueei pessoas que passaram do limite, mas não me recordo de nenhuma em especial.

Para quem o senhor reza?
Para mim mesmo. Rezo em momentos íntimos, de encontro e celebração, em momento apropriado, quase sempre vinculado ao que estou passando. Sou católico de formação, mas hoje me caracterizo mais como agnóstico. Em minha casa, tenho imagens de São Jorge.