ONU: “10 países têm 75% das vacinas e 130 nações não dispõem de nada"

NEW YORK, UNITED STATES - 2021/01/28: Secretary-General Antonio Guterres conducts a hybrid amid pandemic press conference addressing United Nations priorities for 2021 at UN Headquarters. SG addressed COVID-19 pandemic and how the world should eradicate disease, financial problems in many parts of the world and climate change as main topics for this year's agenda. Because of the pandemic only 10 journalists were allowed into the press room and all others were connected via teleconference. (Photo by Lev Radin/Pacific Press/LightRocket via Getty Images)

Guterres adverte que as desigualdades constatadas colocam todo o planeta em risco frente à pandemia

(Foto: Lev Radin/Pacific Press)

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, denunciou durante rara reunião do Conselho de Segurança voltada à Saúde, “um progresso extremamente desigual e injusto em matéria de vacinação”. “Apenas 10 países administraram 75% de todas as vacinas contra a Covid-19. Enquanto isso, mais de 130 países não receberam uma única dose”, sublinhou.

Guterres também pediu um “esforço mundial coordenado” para a vacinação contra a Covid-19 e advertiu que as desigualdades constatadas na fase inicial do processo colocam todo o planeta em risco.

“O mundo precisa urgentemente de um plano mundial de vacinação que reúna todos aqueles que têm o poder, a perícia científica e as capacidades de produção e financeiras necessárias”, frisou Guterres, chamando o G-20 a cumprir esse papel.

O secretário-geral da ONU alertou, ainda, que se o vírus se espalhar “como um incêndio descontrolado nos países do sul, irá sofrer repetidas mutações, com novas variantes mais transmissíveis, mais mortíferas, que irão ameaçar potencialmente a eficácia das vacinas”.

Cenário que poderá, como enfatizou Guterres, “prolongar de forma considerável a pandemia” e permitir que o vírus “volte a devastar o norte”.

A vídeoconferência foi organizada por iniciativa da Grã Bretanha, que exerce no mês de fevereiro a presidência rotativa do CS. Entre os quatorze membros permanentes e não-permanentes do CS, estão os maiores produtores mundiais de vacinas: China, Rússia, Estados Unidos, Grã Bretanha e Índia. A pandemia já infectou 109 milhões de pessoas e matou mais de 2,4 milhões no mundo inteiro.

O ministro das Relações Externas da China, Wang Yi, pediu que haja uma “distribuição justa e razoável das vacinas” e que os países mais necessitados ou envolvidos em conflitos não sejam deixados para trás.

O chefe da diplomacia chinesa também ressaltou que as vacinas devem ser um “produto público acessível em todos os países” e que para a China é “imperativo” fazer o possível para pesquisar, desenvolver e distribuir vacinas em todo o mundo.

Wang repudiou as cínicas alegações de círculos ocidentais sobre a ajuda da China aos povos irmãos sofrendo sob a pandemia. “A China nunca teve objetivos geopolíticos na venda das suas vacinas. Nunca fez cálculos para se beneficiar economicamente e não estabeleceu condições políticas”, destacou.

O representante chinês condenou a “lacuna na distribuição. As vacinas estão indo rapidamente para os países de rendimento alto, mas não para os países em desenvolvimento. Isto só vai exacerbar mais as desigualdades”, advertiu.

“As vacinas estão a ser desenvolvidas e produzidas em velocidade recorde, mas há problemas que precisam ser resolvidos”, acrescentou.

Wang citou que a China forneceu assistência a 53 países em desenvolvimento que a solicitaram e exportou vacinas para 22 países. Também vem ajudando a aumentar a capacidade de produção global”.

Pequim entregou ainda 10 milhões de doses das suas vacinas ao mecanismo Covax, promovido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), para “evitar que mais pessoas morram pelo coronavírus”, acrescentou o ministro.

Henrietta Fore, chefe da agência da ONU para proteção da infância, UNICEF, destacou que a “única maneira” de sair desta pandemia para qualquer um de nós “é garantir que as vacinas estejam disponíveis para todos nós.”

O chanceler mexicano, Marcelo Ebrard, denunciou que os países ricos “monopolizam as vacinas”, o que classificou de enorme injustiça que gera “uma lacuna cada vez maior”.

Sob a pressão dos gigantes do cartel farmacêutico multinacional, não avançou a concepção, defendida pela China e pela Rússia, assim como pela maioria dos países do mundo, de que a vacina fosse um bem comum da humanidade e acessível a todos.

Ações entabuladas pela Índia e África do Sul pela quebra emergencial das patentes não conseguiram ir adiante devido a tais pressões, para as quais também concorrem governos de países ricos.

Uma organização não-governamental, a ONE Campaign, repercutiu a denúncia de que os países mais ricos do mundo compraram 1 bilhão de doses a mais das vacinas antiCovid, do que realmente precisam para imunizar sua população.

O relatório lista Estados Unidos, União Europeia, Reino Unido, Canadá e Japão – basicamente o G7 – como os principais açambarcadores de vacinas contra a Covid-19.

Com uma população de pouco mais de 328 milhões, os EUA adquiriram cerca de 1,1 bilhão de doses – apesar de que bastariam 656 milhões para completarem a imunização. No caso do Reino Unido, segundo a denúncia, o superávit supera 133 milhões de doses, e o do bloco europeu está perto de 465 milhões.

Enormes e escandalosos superávits que são, como assinalou a diretora da entidade, Jenny Ottenhoff, a personificação do ‘nacionalismo da vacina’ – melhor dizendo, do egoísmo e brutal desigualdade que só faz agravar a pandemia.

O que reforça o alerta de Guterres contra a distribuição “incrivelmente desigual e injusta” de vacinas contra Covid-19.

O secretário-geral da ONU convocou o G20 – o grupo das 20 maiores economias do mundo – a estabelecer um grupo de trabalho de emergência para preparar um plano mundial de vacinação e coordenar sua aplicação e financiamento, de forma a superar o atual descalabro.

Por sua vez, o presidente francês Emmanuel Macron, mostrou certo incômodo pelo papel que as vacinas da Rússia e da China, muito mais baratas e de transporte mais fácil, vêm jogando no enfrentamento da pandemia.

“Estamos permitindo que se espalhe a ideia de que centenas de milhões de vacinas estão sendo injetadas nos países ricos e não começamos nos países pobres”, admitiu Macron, que se referiu, ainda, a uma “guerra de influência por meio de vacinas”.

Macron reconheceu que esse desequilíbrio na distribuição das vacinas está causando “uma aceleração da desigualdade global”, o que considerou “uma política insustentável”.

Há também apelos à Organização Mundial do Comércio para que atue para a quebra temporária de patentes, para que o imunizante possa ser produzido em toda parte e a preço compatível com a ameaça e a urgência.

O primeiro-ministro Boris Johnson prometeu que, assim que toda a população inglesa estiver imunizada, ele estará pronto para “doar” aos países pobres as vacinas no estoque. Já o secretário de Estado Antony Blinken anunciou que Washington irá pagar mais de US$ 200 milhões que deve à OMS, atrasados por Trump.