Funes (esq.), que acaba de receber abrigo de Ortega, foi denunciado por receptação de suborno da Odebrecht - foto Nicarágua Investiga

O governo da Nicarágua concedeu nacionalidade ao ex-presidente de El Salvador, Mauricio Funes, que se encontra em Manágua desde 2016 quando fugiu de seu país onde acusado de desvios de mais de 351 milhões de dólares. Ao converter-se em nicaraguense, pelas leis desse país não poderá ser extraditado.

Em El Salvador, Funes (2009-2014) enfrenta cinco mandados de prisão por envolvimento em vários delitos de corrupção.

O atual presidente salvadorenho, Nayib Bukele, que assumiu no início de junho último, disse que nos primeiros 100 dias de seu mandato levaria Funes de volta ao país para que respondesse pelos crimes que lhe são imputados. O ex-presidente, porém, declarou – seguro da cobertura que acaba de receber – na terça-feira, 30 de julho, que ao lhe ser concedida a nacionalidade nicaraguense essa possibilidade é remota. “Nem hoje, nem nos primeiros 100 dias de seu governo [de Bukele], nem em anos, a extradição será possível”, provocou.

Bukele comentou a decisão do governo de Daniel Ortega: “Apesar do que muitos acreditam, Funes acaba de cometer um grave erro ao adotar a nacionalidade nicaraguense” e acrescentou que a justiça “tarde ou cedo chega” e que ele não ficará impune.

Mauricio Funes assumiu a presidência de El Salvador em 2009, candidatando-se pelo partido formado a partir do movimento guerrilheiro Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional, FMLN. A campanha foi dirigida pelo marqueteiro brasileiro João Santana. Na época, o então presidente Lula, participou da posse.

Santana afirmou, em delação premiada, que participou da campanha a pedido de Lula e que ela foi bancada com dinheiro da Odebrecht. Funes foi sucedido, em 2014, pelo presidente Salvador Sanchez Ceren.

Sua atual mulher, Ada Guzmán Sigüenza, e dois de seus filhos também estão evadidos na Nicarágua desde 2016.

As fraudes da família não param por aí. A polícia de El Salvador prendeu, em maio de 2018, a ex-primeira-dama Vanda Pignato, brasileira, devido à participação em esquema de corrupção que desviou R$ 1,3 bilhão dos cofres públicos e era comandado pelo ex-marido Maurício Funes.

Apesar das graves acusações, o ex-presidente e um de seus filhos, Funes Cañas, agora recebem salários que somam milhares de dólares ao mês do Ministério de Relações Exteriores nicaraguense.

De acordo com a Promotoria salvadorenha, Funes armou na Presidência uma rede com a qual desviou fundos para 8 contas bancárias particulares e das quais foram sacados mais de 292 milhões de dólares em efetivo, além de realizar investimentos no exterior em nome de laranjas.

Também é processado o ex-promotor geral Luis Martínez pelo pagamento de subornos para evitar investigações sobre a apropriação indébita de fundos da construção de uma represa, e evasão de impostos.

As ações de Daniel Ortega a favor de Funes sofrem uma forte crítica na Nicarágua, país que vive uma grave crise devido aos desmandos de Ortega e que eclodiu em abril de 2018. A repressão às manifestações de repúdio ao governo já deixou centenas de mortos.

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