Nas negociações Kiev começa a admitir status de país neutro

Delegações da Rússia e da Ucrânia voltaram a se encontrar para prosseguimento das negociações

(AP)

Rússia e Ucrânia estão perto de um acordo sobre certas cláusulas a que chegaram durante suas negociações, disse o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, em entrevista à RBC TV nesta quarta-feira (16)

“Um status neutro [para a Ucrânia] agora é amplamente discutido em conjunto com garantias de segurança, é claro”, disse ele em entrevista. “Isso é exatamente o que o presidente Putin disse em uma de suas coletivas de imprensa em fevereiro: quaisquer opções possíveis, quaisquer garantias de segurança geralmente aceitas para a Ucrânia e todos os países, incluindo a Rússia, com exceção da expansão da OTAN”.

“Isso é o que está sendo discutido nas negociações agora”, disse Lavrov. “Há frases absolutamente concretas lá que, na minha opinião, estão perto de serem acordadas.”

Ele expressou esperança de que a abordagem profissional dos representantes de Kiev permita que os lados cheguem a um acordo sobre um status neutro para a Ucrânia.

“Eu realmente espero que a abordagem profissional, que está vindo à tona, embora não muito rápida ou facilmente, eu espero que prevaleça”, disse Lavrov. “Isso aumenta a esperança de que seremos capazes de chegar a acordos específicos sobre esta questão (a neutralidade da Ucrânia – TASS).”

“Embora esteja claro que uma declaração de neutralidade e anúncio de garantias por si só seria, é claro, um avanço significativo, mas o problema é muito mais amplo, e falamos sobre isso, entre outras coisas, da perspectiva desses valores alardeados: a língua russa, a cultura, a liberdade de expressão”, disse o ministro.

Por sua vez, o líder da delegação russa às negociações com a Ucrânia, Vladimir Medinsky, disse na quarta-feira (16) que “sem dúvida, queremos que tudo isso passe mais rápido, é o desejo sincero do lado russo”.

A principal tarefa de Moscou – enfatizou – é “alcançar a paz no território da Ucrânia”, “um estado pacífico, neutro e amigável” para com a Rússia e “que não seja uma base da Otan”.

Medinsky acrescentou que Moscou e Kiev definiram claramente suas posições e que a Rússia aborda as negociações cuidadosamente visando todos os interesses de seu país e de seus cidadãos.

Ele explicou que as negociações entre Moscou e Kiev foram transferidas para o formato de videoconferência para economizar tempo, forças e fundos.

Segundo Medinsky, há “certo progresso” nas negociações, embora não em todas as questões.

O negociador-chefe russo assinalou que, além dos membros das delegações, equipes de advogados, peritos e militares analisam as posições das partes durante os intervalos técnicos e tentam garantir os compromissos alcançados.

Neutralidade

Sobre o status de neutralidade da Ucrânia, Medinsky observou que “atualmente já tem esse status neutro agora, já que foi precisamente sob a condição de neutralidade que a Ucrânia deixou a URSS em 1991 e essa neutralidade está listada na Declaração de Soberania do Estado da Ucrânia”.

Ou seja, por mais que Kiev o negue, a discussão é em torno de uma neutralidade com a qual a Ucrânia já havia se comprometido há mais de 30 anos e que buscou violar unilateralmente.

A preservação da neutralidade implicaria em revogar a lei que enfiou na constituição, depois do golpe de 2014 em Kiev, a meta de “entrar na Otan”, aprovada por um parlamento manietado, sem comunistas e sem parte expressiva da oposição não comunista, e sem que haja sido consagrada por referendo.

As negociações também marcham para manter inalterado o status de país sem armas nucleares, apesar de que, na Conferência de Munique que precedeu à decisão russa de agir contra a iminente imposição de um trampolim anti-Rússia na Ucrânia, o presidente Voldymyr Zelinsky ameaçou criar armas nucleares, sem ser questionado por ninguém ali.

Outro ponto essencial para Moscou nas negociações, acrescentou Medinsky, é o status da Crimeia e do Donbass – ou seja, o reconhecimento da reunificação com a pátria mãe russa e da independência das duas repúblicas populares, depois de em vão terem tentado por oito anos fazer cumprir os acordos de Minsk que as manteriam, sob autonomia e direito à língua russa, na Ucrânia, que rasgou os acordos e respectiva resolução da ONU.

Há ainda a desnazificação – o afastamento dos grupos nazistas incrustados nas forças armadas e órgãos de segurança -, além de uma série de questões humanitárias, como os direitos da população de língua russa e o status da língua russa na Ucrânia, banidos pós-golpe de 2014, em nome da “descomunização”.

Segundo o líder da delegação russa, outra questão fundamental é a desmilitarização do país vizinho. Medinsky destacou que Kiev propõe uma alternativa de estado neutro, baseado no formato da Áustria ou da Suécia, que tem seu próprio exército e forças navais.

O representante russo sublinhou que as partes também abordam em cada sessão a questão das sanções, que já parecem ter se tornado “uma guerra econômica contra a Rússia, total, em grande escala e sem precedentes na história”.

Corredores humanitários

Até aqui, as negociações viabilizaram a criação de corredores humanitários seguros para saída de civis das cidades sob cerco das forças russas.

Por sua vez, o assessor-chefe do gabinete presidencial ucraniano e principal negociador, Mikhail Podoliak, disse em entrevista ao canal de TV Ucrânia 24 que “é claro que os países chegarão a algum tipo de tratado de paz”, como assinalou a agência de notícias russa RIA Novosti.

Podoliak também tem sublinhado que a Ucrânia país precisa de “garantias de segurança que tenham verificação legal”. Assim como tem feito o próprio Zelensky – inclusive por videoconferência ao Congresso dos EUA -, o principal negociador ucraniano pediu a imposição de uma zona de exclusão aérea na Ucrânia pela Otan. O que, qualquer pessoa de bom senso sabe, seria o início da Terceira Guerra Mundial, ao pôr em confronto aberto as duas maiores superpotências nucleares. A recém-concluída conferência de emergência da Otan decidiu manter a posição de ‘nenhuma tropa’ e ‘nenhuma zona de exclusão aérea’ da Otan na Ucrânia.