Nas eleições de Israel, remover Netanyahu do governo é a aposta

Por Moara Crivelente*, no I21

Quando a quase totalidade dos votos estava apurada, na quarta (18), evidenciava-se a possibilidade de Netanyahu, do partido de direita Likud (“União”), ser finalmente forçado a deixar o governo, após 10 anos consecutivos no cargo. O empurrão foi o empate técnico com Benny Gantz, do dito centrista e nacionalista Kahol Lavan (“Azul e Branco”, referência à bandeira israelense) e os resultados finais devem ser apresentados pelo Comitê Central Eleitoral em 25 de setembro, quando o presidente de Israel Reuven Rivlin deve se reunir com cada líder partidário para ouvir recomendações. Ainda assim, após a divulgação dos primeiros resultados na terça-feira, Netanyahu foi citado pelo Haaretz prometendo que formaria “um governo sionista forte” para refletir a posição nacional, novamente adotando o tom ameaçador contra “um perigoso governo antissionista”.

A terceira força resultante foi a Lista Conjunta, recém-recomposta, mas formada em 2015 por partidos que buscavam alternativa à prolongada liderança de Netanyahu. A Lista reúne siglas de maioria árabe-palestina – Balad, Ta’al, a Lista Árabe Unida e a Hadash, Frente Democrática pela Paz e Igualdade, de que é membro fundador o Partido Comunista de Israel (PCI) — e conquistou então 13 assentos no Knesset, o Parlamento, mas se desagregou temporariamente. Nestas eleições, segundo apuração no portal israelense Ynet News, a Lista conquistou 15 assentos. Outras estimativas computam 13 assentos, mas mesmo assim a coligação conforma a terceira maior força no Knesset, após uma forte campanha pela participação da população árabe e pelo apoio de judeus igualmente contrários à incitação e ao racismo.

Ayman Odeh em entrevista coletiva

A página do PCI cita o líder da Lista Conjunta Ayman Odeh declarando que a situação “não é de todos os judeus contra todos os árabes, nem todos os árabes contra todos os judeus”, mas que é necessária unidade entre as comunidades. “Os judeus israelenses devem apoiar a Lista Conjunta por causa dos nossos interesses e valores partilhados, como a paz, a igualdade e a justiça social”, disse Odeh, na campanha. Mais de 100 acadêmicos israelenses assinaram um apelo publicado pelo Haaretz instando o público judeu israelenese a votar na Lista Conjunta, conta o PCI. A coligação deve decidir que medidas tomar nos próximos dias, mas comemora o que se anuncia como o possível “fim da era Netanyahu”.

Entre as maiores conquistas celebradas está o aumento da participação da população árabe-palestina nas eleições. Resultados – com 91% de apuração – na tarde de quarta, citados pelo Haaretz, indicavam que cerca de 60% dos eleitores nas comunidades árabes participaram, em comparação com os 50% da votação de abril deste ano – o que então representava uma queda significativa em comparação com os mais de 60% das eleições de 2015. Em abril os partidos de Netanyahu e Gantz ficaram empatados com 35 assentos – com ascensão expressiva do segundo — mas nenhum conseguiu formar uma maioria para governar; daí as novas eleições. O Parlamento tem 120 assentos e é preciso conquistar 61 para se alcançar a maioria que permite a formação do governo por um partido ou coalizão.

A Lista Conjunta estava então desintegrada – Hadash e Ta’al formaram uma coligação e Balad e Lista Árabe Unida, outra. Já nestas eleições de setembro, agradecendo aos seus eleitores, Odeh, citado pelo Haaretz, disse que com o apelo reforçado por participação, “o público árabe respondeu, saiu e depositou um grande voto de confiança na Lista Conjunta, e acredito que conseguiremos 13 assentos e mandaremos aquele incitador do Netanyahu para casa”. Com o que conquistou, a Lista pode até mesmo exercer um papel no xadrez da formação do novo governo, possivelmente na liderança da oposição — conjectura do diário Times of Israel nesta quinta (19), citando uma entrevista do líder da coligação, em que Odeh diz considerar recomendar ao presidente Reuven Rivlin dar a chance a Gantz de formar um governo, com base nas demandas da Lista —inclusive a retomada das negociações com os palestinos.

As discussões e coberturas eleitorais esparramam hipóteses de participação da Lista Conjunta na solução buscada por Benny Gantz para a formação do seu governo, ou de uma eventual aliança Gantz-Netanyahu demandada por um racista Avigdor Lieberman, líder do partido de direita Yisrael Beiteinu (“Israel é Nosso Lar”) que alcançou nove assentos, para compor o governo, segundo o Ynet News e o Times of Israell.

O parlamentar Ahmad Tibi, que também lidera a Lista Conjunta, foi citado pelo Haaretz dizendo que a coalizão nunca pretendeu fazer parte do governo de Gantz e seu partido. “Apresentamos demandas claras da Lista Conjunta e do público árabe por envolvimento político com o propósito de barrar Benjamin Netanyahu. Segundo os resultados das pesquisas de opinião, a manchete é ‘A era Netanyahu acabou’, e isso já é uma grande conquista para todos, judeus e árabes unidos, [derrotando] alguém que rejeitou a racionalidade e espalhou conflito e incitação.” Mas, continua Tibi, “tudo depende do Kahol Lavan”. Ou seja: se o partido de Gantz recorrer ao Likud, partido de Netanyahu, e a Lieberman, “então é evidente que esta é sua direção, a menos que queiram mudar suas relações com o público árabe correspondendo às nossas demandas, que já deixamos claras”.

Ex-secretário da Hadash, antigo editor do jornal Al-Ittihad do PCIautor e atualmente colunista do Haaretz, Odeh Bisharat discutia em agosto a eventualidade de uma formação liderada por Gantz que acabaria dependendo de algum tipo de apoio das forças árabe-palestinas. Ele recordava como o Kahol Lavan “emergiu com declarações agressivas que não desapontariam nem os piores extremistas nas ruas judaicas”; entre outros exemplos, citou o parlamentar Yoaz Hendel, que “queria que os árabes reconhecessem Israel como estado judaico, o que é similar a demandar dos cidadãos judeus do Irã que reconheçam o Irã como estado islâmico.”

Em sua própria coluna, Ravit Hecht lembrava também que Hendel afirmara que seu partido “não negociaria com partidos árabes que essencialmente negam a existência de Israel como estado judaico.” Mesmo assim, Bisharat considerou que seria necessário “escolher o menor de dois males”, reconhecendo que “substituir um governo racista e todos os seus órgãos” não será mesmo qualquer “agradável passeio por uma calçada de Tel Aviv”.

Democracia x colonização

Eleições em Israel sempre reforçam o debate sobre a natureza do regime no próprio país e no país ocupado, a Palestina. Entre dois polos, o da defesa da abstenção absoluta dos eleitores e o fim da participação de árabes-palestinos no Parlamento de Israel — que é vista por alguns como legitimadora— e o da defesa da participação massiva para desmantelar este sistema e abrir caminho à construção, ainda que prolongada, de um regime democrático, secular, inclusivo e igualitário, muito ainda se discute sobre as possibilidades de democracia e paz na região e as forças políticas que podem levar a cabo essa construção.

Ninguém se esquece dos mais de cinco milhões de palestinos ainda sob o controle absoluto de um regime no qual não têm direito de votar nos territórios ocupados militarmente e colonizados – ainda que tenham seu próprio governo, a Autoridade Nacional Palestina criada pelos falidos Acordos de Oslo dos anos 1990 e limitadíssima pela ocupação; ou dos cerca de seis milhões obrigados a viver em campos de refugiados ou no exílio precisamente porque este regime, empenhado desde a raiz numa “guerra demográfica” por sobrevivência, não os permite voltar às suas terras e lares.

“Um voto para comprar tempo”, foi como a jornalista israelense Amira Hass leu a corrida eleitoral em sua coluna para o diário Haaretz na manhã de terça, quando se abriam as urnas. “Quaisquer que sejam os resultados das eleições de hoje, não deterão o projeto colonial israelense, que está se acelerando como um trem expresso, em plena luz do dia, não nas sombras, como aconteceu nos anos 1990, em meio a toda a lenga-lenga sobre a paz. Mesmo que Benny Gantz acabe no assento do condutor, a direção não vai mudar”, vaticina a correspondente, que viveu por muitos anos na Palestina ocupada.

Já são muitos os recordes colonialistas e segregadores avançados por Netanyahu em seus 10 anos consecutivos de governo, o que tem anuviado o horizonte daqueles que buscam saídas na atual conjuntura. Antes, mais ou menos o mesmo era feito com políticas e discursos mais polidos, mas o governo desta última década apostou tudo para levar a tomada da Palestina às últimas consequências.

Entre o avanço da construção do muro do apartheid que adentra a Cisjordânia; das colônias que configuram verdadeiras cidades e estradas exclusivas que retalham o território; da demolição e desapropriação de casas, estruturas e terras palestinas; das detenções arbitrárias de resistentes e civis indiscriminadamente, entre tantas outras atrocidades e medidas antidemocráticas como a aprovação da infame Lei do Estado-Nação em 2018, Netanyahu tem repetido promessas inflamadas de enterrar a possibilidade de um Estado da Palestina postergado por décadas após as promessas das potências que se dizem mediadoras — provavelmente porque natimorto— e de anexação de territórios palestinos ocupados — inclusive o Vale do Jordão, possibilidade aceita até pelo procurador-geral, segundo o Haaretz. Sua impunidade é garantida por seu maior patrocinador político e militar, os Estados Unidos, e pela cumplicidade das potências europeias.

Nestas, como em outras eleições, somados os desafios conjunturais num contexto de agressão diária aos palestinos, cidadãos de Israel sujeitos a uma segregação crescente e aos que resistem sob a ocupação militar do seu território, ou no exílio forçado, o resultado revolve inevitavelmente as consequências depositadas ao longo das décadas no fundo deste poço, que é a colonização da Palestina e o enraizamento de um regime de apartheid, exclusivista e fundamentalista em Israel, ambas realidades às quais as formas de resistência se debate a cada segundo — antes, durante e após as eleições.