"Há razões para acreditar que [esse diálogo] atenderá aos interesses dos dois países", afirmou Serguei Lavrov, chanceler russo. (Foto: AP)

Diante da incursão turca no noroeste da Síria entrando pelo quarto dia, na região até aqui sob controle de milícias curdas aliciadas por Washington, a Rússia reiterou seu empenho em dar início “a um diálogo entre a Turquia e a Síria”, como apontou o chanceler russo Sergei Lavrov, que acrescentou que Moscou busca ainda promover contato entre “Damasco e os curdos que renunciem ao extremismo”.

Ainda segundo Lavrov, “há razões para acreditar que [esse diálogo] atenderá aos interesses de ambos os países”.

Até aqui, apesar de Ancara ser integrante do Processo de Astana, e garantidora dos acordos tri-partite Rússia, Irã e Turquia para solução da crise na Síria, não existe um diálogo direto com Damasco.

“A necessidade de resolver todos os problemas dessa parte da Síria por meio do diálogo entre o governo central de Damasco e representantes das comunidades curdas que tradicionalmente moram nesses territórios” também foi sublinhada por Lavrov.

“Queremos que essa situação se acalme o mais rápido possível, antes de tudo com base no princípio do respeito à soberania e à integridade territorial da Síria”, enfatizou.

A Síria imediatamente rechaçou o ataque, considerando-o “uma agressão e flagrante violação das normas internacionais e da Carta das Nações Unidas”, que exigem respeito “pela soberania da Síria e sua unidade territorial”.

A Turquia iniciou sua ofensiva após o presidente Donald Trump retirar 50 ou 100 soldados norte-americanos da área – “sinal verde” para o ataque? -, depois remendado com a ameaça de “destruir a economia turca” se ultrapassados certos limites no entender da “enorme e inigualável sabedoria” do inquilino da Casa Branca.

O comando turco afirma que já capturou uma dezena de aldeias e abateu cerca de 300 milicianos curdos; há vítimas civis. Mais de 100 mil pessoas já fugiram da área em direção a leste, para Hasaka. A cidade de Tal Abyn está deserta e o único hospital público fechou, conforme os Médicos Sem Fronteira.

Jornalistas da CNN relataram cenas caóticas, “com estradas apinhadas de famílias em fuga, motocicletas empilhadas com cinco a seis pessoas, colchões amarrados a carros. Pode-se ver fumaça subindo de pelo menos uma área”.

O chefe do Pentágono, Mark Esper, telefonou para o ministro da Defesa turco, exigindo uma “desescalada” antes que a situação se torne “irreparável” e ameaçou Ancara com “sérias consequências”.

“SOLUÇÃO POLÍTICA”

Em telefonema entre o presidente turco Recep Tayyip Erdogan e o presidente Vladimir Putin, o líder russo “pediu aos parceiros turcos que ponderem cuidadosamente a situação para não prejudicar os esforços gerais para solução da crise síria”, segundo o Kremlin.

“Ambos os lados observaram a importância de garantir a unidade e a integridade territorial da Síria e o respeito à sua soberania”, acrescentou o comunicado.

O Irã enfatizou “a necessidade de interromper imediatamente os ataques e de retirada das tropas turcas da Síria”, advertindo para “a gravidade da situação humanitária e os perigos constantes aos civis nas zonas de conflito”.

O presidente iraniano Hassan Rouhani instou “a Turquia amigável e fraterna e seu governo a exercer mais cuidado e contenção sobre esse assunto e a reconsiderar a abordagem que foi escolhida”. Após reconhecer as preocupações “legítimas” de Ancara, ele assinalou que apenas “a presença das forças armadas sírias” e a retirada das forças americanas da região poderiam resolver tais preocupações.

Reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, convocada por iniciativa de países europeus, não tirou nenhuma resolução, após, por motivos diferentes, Rússia e EUA terem vetado a condenação explícita à Turquia.

A Rússia aceitaria uma condenação geral, que atingisse todas as tropas estrangeiras ilegalmente em solo sírio, o que incluiria, além dos turcos, os soldados norte-americanos e tropas especiais francesas e britânicas. Washington asseverou não ter dado ‘sinal verde’

“PRIMAVERA DA PAZ” DE ERDOGAN

Erdogan, que no ano passado fizera uma ofensiva em Afrin para evitar que a área curda, dividida então em três enclaves, fosse unificada, agora colocou como meta de sua “Operação Primavera da Paz”, o estabelecimento do que chama de “zona de segurança” de 100 quilômetros de extensão na fronteira e profundidade de 30 quilômetros, para afastar as milícias curdas e, segundo diz, para lá transferir um milhão de refugiados sírios.

Internamente, Erdogan vem reprimindo uma revolta curda por autonomia ou separação, e o governo turco teme que o armamento fornecido por Washington acabará vazando para os “terroristas do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK)”.

Segundo Ancara, a força que hegemoniza o chamado Conselho Democrático Sírio, e cumpre a função de botas de Washington no solo, as Unidades de Proteção do Povo (YPG), tem ligação com os separatistas.

“Os americanos precisam entender que os eventos que ocorreram no nordeste da Síria nos últimos anos com sua participação são uma violação direta da resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre o respeito à integridade e soberania territorial da Síria. Os americanos estabeleceram estruturas de quase-governo lá , mantendo-os funcionais e promovendo ativamente a questão curda, de maneira a causar discordância entre as tribos árabes que tradicionalmente povoam esses territórios “, afirmou Lavrov.

“É um jogo muito perigoso”, observou o principal diplomata russo, apontando ainda a “política inconsistente e contraditória” dos EUA.

“Apelamos a eles repetidamente para que ponham fim à ocupação ilegal de território na área de Al-Tanf, onde eles criaram uma base com o raio de 55 km – um enorme território que abriga algumas pessoas muito ruins, incluindo terroristas, extremistas, pessoas que aterrorizam refugiados e pessoas deslocadas no campo de Rukban”, continuou Lavrov.

“Os americanos quebraram repetidamente suas promessas, assim como quebraram a promessa de limitar e depois eliminar sua presença em Al-Tanf”, acrescentou, apontando que Trump afirmou muitas vezes que retiraria as tropas americanas da Síria e de outros Estados. Depois, suas diretrizes foram encerradas por aqueles encarregados de segui-las. Podemos estar testemunhando algo semelhante agora”, assinalou.

PANDEMÔNIO

O anúncio de Trump de que estava retirando soldados da fronteira da Síria com a Turquia, somou-se ao pandemônio que Washington já vive, com a celeuma sobre o impeachment. Parlamentares republicanos se rebelaram, e 30 deles, encabeçados pela filha de Dick Cheney, Liz, apresentaram projeto de lei contrário na Câmara, o que se repetiu no Senado, com Lindsey Graham. Entre os democratas, nem se fala, com praticamente todos os setores “condenando” a retirada.

Como nada em Washington atualmente escapa da mais notória encenação, Trump correu para tuitar nada menos que: “Os Estados Unidos gastaram OITO TRILHÕES DE DÓLARES lutando e policiando no Oriente Médio. Milhares de nossos grandes soldados morreram ou foram gravemente feridos. Milhões de pessoas morreram do outro lado. ENTRAR NO ORIENTE MÉDIO É A pior decisão já feita …na história de nosso país! Fomos à guerra sob uma premissa falsa e agora não comprovada, ARMAS DE DESTRUIÇÃO EM MASSA. ”

Em entrevista à agência russa TASS, Lavrov enfatizou o esforço de mediação de Moscou. “Ouvimos autoridades sírias e representantes de organizações curdas dizerem que estão interessados na Rússia, usando suas boas relações com todas as partes nesse processo para obter assistência no estabelecimento de um diálogo desse tipo” com Damasco.

Para o diplomata, as legítimas preocupações da Turquia sobre a situação ao longo da fronteira com a Síria poderiam ter sido resolvidas com base nos acordos existentes entre Damasco e Ancara, “o chamado acordo de Adana de 1998”.

“Infelizmente, uma implementação eficiente desse acordo, que previa esforços conjuntos para impedir atos de terror na fronteira entre a Turquia e a Síria, foi complicada pela atividade dos americanos e da coalizão na margem oriental do rio Eufrates”, ressaltou Lavrov.

“Estamos há anos alertando sobre o perigo extremo do experimento que os americanos estavam realizando lá, tentando colocar as tribos curdas e árabes umas contra as outras de todas as maneiras possíveis”, acrescentou.

Assim que ficou patente que a ofensiva turca ia começar, as milícias curdas rogaram a Washington pela decretação de uma “zona de exclusão aérea”, em vão. Em seguida, se disseram “apunhaladas pelas costas”.

Como assinalou o jornal sírio Al Watan, “o que vocês vão fazer? Aferrar-se às botas dos invasores norte-americanos ou voltar à voz da razão e ao patriotismo do Estado central?”

Durante a maior parte da guerra que assolou a Síria, as milícias curdas evitaram entrar em choque com o exército sírio, mas mantêm sob seu controle em torno de 20 a 25% do território sírio, inclusive a região de produção de petróleo.

Como destacou Lavrov, “continuamos acreditando que esta é a única maneira de alcançar uma estabilização sustentável da situação. Ontem ouvimos declarações de oficiais de Damasco e representantes dos curdos de que estão prontos para esse diálogo”.

“Vamos tentar fazer o máximo possível para facilitar o início de negociações tão significativas”, destacou o principal diplomata da Rússia. Na segunda-feira, o comandante do SDF treinado e armado dos EUA, Mazlum Abdi, se declarou disposto a “uma parceria com o presidente sírio Bashar al Assad, com o objetivo de combater as forças turcas”.

Para a Rússia, a chave para a reconciliação da Síria é sua integridade territorial sob Damasco, acompanhada de um processo de solução constitucional, que ajudará a resolver pacificamente as diferenças, e da retirada das tropas estrangeiras que estão ilegalmente no país, sem ser a convite do governo legítimo.

O jornal britânico The Guardian, que não pode ser acusado de qualquer simpatia pela Rússia, admitiu que o presidente Putin pode estar perto de alcançar o verdadeiro “acordo do século” no Oriente Médio.

No dia 30 haverá em Genebra a primeira reunião do Comitê Constitucional, uma proposta da Rússia de janeiro de 2018, endossada pelos três de Astana, e agora assumida pela ONU. O objetivo é escrever uma nova constituição para a Síria e preparar eleições. O comitê é proposto por 150 membros, divididos igualmente entre o governo Assad, a oposição e a sociedade civil síria.

O comitê foi anunciado formalmente no dia 23 de setembro pelo enviado da ONU, Geir Pederson, que afirmou que é “o primeiro acordo político concreto” entre o governo e os grupos de oposição – o que implica “uma clara aceitação do outro como interlocutor”. Apesar de, individualmente, ter integrantes curdos, o Conselho Democrático Sírio, o guarda-chuva dos curdos pró-americanos, ficou de fora.

Em relação ao conflito com a Turquia, conforme o Guardian, a aposta é “reviver o acordo de Adana assinado pela Síria e Turquia em 1998”, uma ideia que Putin “pressiona há três anos”. “Em essência, reconhece que a Turquia tem preocupações legítimas com o PKK, mas a solução não é uma zona segura administrada pela Turquia na Síria, mas sim garantias de segurança do governo sírio para controlar o PKK. Da mesma forma, a maneira de lidar com os refugiados sírios dentro da Turquia não é movê-los à força para o nordeste da Síria, apenas para receber uma recepção hostil, mas acabar com a guerra civil”.

Na última reunião da CEI – que congrega países da ex-União Soviética – Putin também advertiu que o confronto entre forças turcas e milícias curdas põe em risco a segurança das prisões e campos de concentração da região em que estão confinados 12 mil militantes do Daesh capturados.

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