“Meu primeiro projeto é o fortalecimento da democracia”, diz Olívia
Aos 14 anos, Olívia Santana começou a trabalhar como servente em uma escola particular de Salvador. Filha de uma empregada doméstica e de um marceneiro, chegou à Universidade Federal da Bahia para cursar Pedagogia e foi no movimento estudantil que começou a construir uma trajetória política que atravessa quase quatro décadas.
Hoje, deputada estadual em seu segundo mandato e primeira mulher negra eleita para a Assembleia Legislativa da Bahia, Olívia se prepara para um novo desafio: chegar à Câmara dos Deputados. A candidatura foi homologada pelo PCdoB para as eleições de 2026 e integra a aliança que apoia a reeleição do presidente Lula e do governador Jerônimo Rodrigues.
A disputa por uma vaga em Brasília também retoma um projeto que Olívia já havia colocado em campo. Em 2006, ela concorreu à Câmara pela primeira vez. Duas décadas depois, volta à disputa com uma trajetória institucional consolidada e uma votação que expressa esse crescimento: em 2022, foi reeleita deputada estadual com 92.559 votos.
Agora, a intenção é levar para o Congresso a experiência construída na educação, na cultura, na gestão pública, no Legislativo e na militância antirracista e feminista. Mas há uma questão que ocupa lugar especial na decisão: ampliar a presença de mulheres negras nos espaços de poder.
“Meu primeiro projeto é o projeto de fortalecimento da democracia, ajudar na bancada do presidente Lula, ampliar a presença das mulheres na Câmara Federal e fortalecer a voz das mulheres e das mulheres negras”, afirma Olívia, em entrevista ao site do PCdoB.

Para a deputada, a necessidade dessa representação ganha ainda mais força na Bahia, um estado de maioria negra que ainda não vê essa composição refletida em sua bancada federal. “É fundamental ampliar a presença de mulheres negras na bancada federal, coisa que infelizmente não temos hoje. Na história da Bahia, somente uma mulher negra se elegeu deputada federal. E a gente quer quebrar esse jejum”, afirma.
A candidatura, portanto, não se resume à mudança de uma Casa legislativa por outra. Olívia quer fazer da chegada a Brasília uma extensão de uma disputa que acompanha sua trajetória: ocupar espaços de poder para alterar quem participa das decisões e quais demandas conseguem chegar ao centro da política.
Experiência para ampliar a representação
Olívia chega à disputa federal depois de uma trajetória que combina atuação parlamentar e gestão pública. Foi vereadora de Salvador por dez anos e ocupou secretarias municipais e estaduais, entre elas Educação e Cultura, Políticas para as Mulheres e Trabalho, Emprego e Renda.
“Eu quero ocupar esse espaço defendendo projetos na área da educação, da cultura, da economia solidária. Nós temos uma trajetória, uma larga experiência que, com certeza, vai ter impacto no mandato de deputada federal que vamos conquistar com a força do povo e das mulheres.”
A experiência também moldou a forma como Olívia enxerga as políticas públicas. Para ela, os problemas vividos pela população não respeitam as divisões administrativas ou temáticas que muitas vezes organizam o Estado. Educação, cultura, esporte, trabalho e renda precisam dialogar quando se trata de ampliar oportunidades, sobretudo para quem vive nas periferias. É a partir desse olhar que a juventude aparece como uma das prioridades de sua candidatura.
Emprego e renda para a juventude negra
“Nosso principal desafio é a geração de emprego e renda para a juventude”, afirma Olívia. A deputada defende um projeto que combine formação e abertura de oportunidades. Para ela, enfrentar a falta de perspectivas econômicas também significa enfrentar um dos fatores que expõem essa população à violência.
“Nós precisamos ter projeto vigoroso de abertura de oportunidades de formação para nossa juventude, sobretudo para a juventude negra das periferias, e o nosso mandato terá compromisso primeiro com essa agenda da geração de emprego e renda”, pontua.
A proposta também se distancia de uma visão de segurança pública restrita à repressão. Se a juventude negra está entre as principais vítimas da violência, argumenta Olívia, políticas de trabalho, formação e desenvolvimento social precisam fazer parte da resposta.
É nesse ponto que ela introduz outro conceito central de sua atuação: a interseccionalidade.
Olhar para as desigualdades que se cruzam
Para Olívia, não basta formular uma política para a juventude, outra para as mulheres e outra para a população negra como se essas dimensões não se encontrassem na vida concreta. “Tem uma coisa chamada interseccionalidade. Esse é um conceito que não pode ser só uma teoria. Ele tem que ser posto em prática.” O objetivo é construir políticas capazes de considerar as diferentes dimensões da desigualdade simultaneamente. “Não é um projeto que pensa apenas uma dimensão da opressão. Serão projetos que estarão conectados com as múltiplas [dimensões] que nós temos na sociedade”, explica.
Nesse desenho, educação, cultura e esporte deixam de ser políticas isoladas e passam a compor uma estratégia de geração de oportunidades. O mesmo vale para as políticas destinadas às mulheres, que, na avaliação da deputada, precisam incorporar também a dimensão econômica e racial.
Autonomia também é enfrentar a violência
A defesa dos direitos das mulheres é uma das marcas da trajetória de Olívia, que também ocupou a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Bahia. Para ela, o combate à violência de gênero precisa combinar responsabilização dos agressores com políticas que ampliem a autonomia das mulheres. “Você não combate a violência contra mulheres só em relação à punição do agressor. Punir o agressor é fundamental, mas também é preciso garantir a autonomia, o fortalecimento da capacidade de independência que uma mulher pode ter e das vocações que muitas vezes não são apreciadas pelo sistema, pelo mercado de trabalho.”
A experiência acumulada na gestão ajuda a dar concretude a essa perspectiva. Em sua passagem pela área de políticas para as mulheres, Olívia esteve ligada à implementação da Ronda Maria da Penha na Bahia e a iniciativas voltadas à ampliação da presença das mulheres no espaço público.
Agora, a candidatura federal pretende ampliar essa agenda, articulando enfrentamento à violência, autonomia econômica e combate às desigualdades raciais e de gênero.
Uma disputa por representação
Ao colocar o fortalecimento da democracia no centro da candidatura, Olívia também define o lugar que pretende ocupar na disputa de 2026: o de uma representação de esquerda, comprometida com o projeto liderado por Lula e com a ampliação da presença de mulheres negras no Congresso.
Depois de quase quatro décadas de militância, ela aposta na experiência acumulada na educação, na gestão pública e no Legislativo para chegar à Câmara e defender uma agenda que passa por educação, cultura, trabalho, economia solidária e direitos das mulheres.
Mas há uma questão que atravessa todas essas frentes: quem tem voz quando as decisões são tomadas. Para Olívia, chegar a Brasília também significa ajudar a mudar essa composição.




