Menos direitos, menos renda: Governo Bolsonaro acelera a precarização

A queda da taxa de desemprego no Brasil, além de lenta, esconde uma realidade sombria. Sob a gestão Jair Bolsonaro, os novos postos de trabalho são mais precários, impondo mais horas de serviço, menos renda e menos direitos para os trabalhadores. O governo tem estimulado esse fenômeno, fazendo jus a sua falsa dicotomia “ou menos direitos e mais empregos, ou menos empregos e mais direitos”.

No trimestre móvel encerrado em agosto, a taxa de desemprego caiu para 13,2%, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. Mas essa suposta recuperação do mercado de trabalho se baseia no aumento do número de trabalhadores informais e queda recorde da renda. Na opinião de economistas, as perspectivas no médio prazo são negativas, diante de um cenário de menor atividade econômica, já estimado pelo mercado.

Em agosto, a população ocupada chegou a 90,2 milhões de pessoas, 4% a mais em relação ao trimestre móvel anterior. Quase 70% desse aumento, no entanto, foi de vagas informais – sem carteira de trabalho assinada ou por conta própria. Este último grupo, inclusive, atingiu novo recorde, de 25,409 milhões.

“O movimento é puxado por empregos de baixa qualidade e muito em razão do retorno desses trabalhadores à força de trabalho”, afirma Tiago Barreira, economista da consultoria iDados. “Esse tipo de atividade urbana, de serviços e de baixa remuneração tende a crescer de maneira mais vigorosa em relação a outras atividades.”

Outro indicador de recuperação precária foi a queda do rendimento médio real dos trabalhadores (soma de todos os trabalhos), que foi de R$ 2.489 no trimestre móvel até agosto. O valor indica quedas recordes de 4,3% ante o trimestre móvel anterior (R$ 112 a menos) e de 10,2% (R$ 282 a menos) na comparação interanual. Contribuíram para isso o maior contingente de trabalhadores informais no mercado e a própria inflação.

“O rendimento caiu bastante. Ainda vamos ver um período de renda média bastante estagnada ou em queda”, diz Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). “Isso deve durar até voltarmos a uma normalidade econômica, à qual ainda não chegamos. Temos, antes, de absorver trabalhadores que ficaram fora do mercado na pandemia para, então, voltar ao período de normalidade. Isso vai levar no mínimo seis meses, se a economia tiver normalizada. Se o Produto Interno Bruto (PIB) cair no que vem, não há o que possa salvar a renda.”

Segundo Rodolfo Margato, economista da XP, “inflação persistentemente alta, ampla ociosidade no mercado de trabalho e mudanças na composição da população ocupada (com participação crescente das categorias de emprego informal que, em média, possuem rendimentos mais baixos) explicam a manutenção do rendimento médio da economia brasileira em níveis deprimidos”. Já Cosmo Donato, da LCA Consultores, compara: “É como se muitos informais estivessem voltando para o mercado de trabalho, mas precisando dividir o mesmo bolo de uma economia debilitada. Então, é uma deterioração grande do emprego que está voltando agora”.

Segundo o economista, não deve haver melhoras desse cenário no médio prazo dadas as perspectivas de atividade econômica mais fraca nos próximos meses. “A economia talvez não permita pessoas entrarem no mercado na velocidade que poderiam se o ritmo da economia estivesse melhor. A economia mais fraca começa a se configurar como um obstáculo”, afirma Donato.

Segundo ele, a expectativa anterior era que a população ocupada fosse retornar ao nível pré-pandemia no fim de 2021. “Mas isso talvez fique para o primeiro semestre de 2022”, diz. Ele prevê recuperação do mercado de trabalho até o fim deste ano, quando a queda da taxa de desemprego deve começar a desacelerar.

Em relatório enviado a clientes, Alberto Ramos, economista-chefe do banco Goldman Sachs para América Latina, afirmou que o mercado de trabalho deve permanecer fraco, dada a expectativa de baixo crescimento da economia. De acordo com Ramos, é provável que a taxa de desemprego permanecer na casa dos dois dígitos por um longo período de tempo.

Um número ainda considerável de pessoas fora da força de trabalho começa a procurar emprego e retorna à força de trabalho em um ritmo mais rápido do que o de criação de novas vagas. A XP projeta taxa de desemprego média de 13,7% para 2021 e de 12,4% para 2022. A estimativa da LCA é 12,8% para este ano.

Com informações do Valor Econômico