Foto: Ricardo Stuckert

Um dos pontos de virada da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno é fazer críticas mais abertas e contundentes ao seu adversário, Flávio Bolsonaro (PL), mostrando como as posições defendidas pela extrema direita são altamente prejudiciais à população. Um dos motes escolhidos para isso é “se Flávio vencer, você perde”.

Um dos vídeos com a expressão mostra que o senador pretende cortar investimentos e recursos, o que, no final, significa retirar principalmente de quem mais precisa das políticas públicas.

Focado no público que não é eleitor de Lula nem de Flávio e que se absteve no domingo (4), a propaganda começa dizendo: “Esse vídeo é para você, que não faz o L, nem arminha, que está cansado da política ou nem foi votar no primeiro turno”.

“Se Flávio Bolsonaro vencer, você perde. Perde a Farmácia Popular, o especialista no SUS e o tratamento com a caneta emagrecedora. Você perde o aumento anual da aposentadoria e do salário mínimo. Você perde os dois dias de folga e perde a tranquilidade. Porque as bets vão voltar com tudo”, diz a voz que narra um dos vídeos.

A peça conclui dizendo: “Entendeu que não é sobre política, é sobre você. Pense nisso”.

Nesta semana, em mais de uma ocasião, o presidente Lula reforçou que “a hora que a gente perder uma eleição, eles conseguem destruir o que nós fizemos em uma semana e não haverá reação. Nós sabemos que eles vão destruir tudo o que nós fizemos”.

Dando a real

Os discursos de Lula e de sua campanha não são uma apelação para impressionar o eleitor. Trata-se de mostrar a gravidade e o risco real do que está em jogo.

O próprio Flávio Bolsonaro tem defendido um programa bastante semelhante ao que Javier Milei aplicou na Argentina, com sua infame “serra-elétrica”. Aqui, o senador tem falado em um “tesouraço”.

“Nossa bandeira é um grande tesouraço: um corte profundo e por todos os lados, que enxuga a máquina, coloca as contas em ordem e reduz os impostos que pesam sobre quem produz”, aponta em seu programa de governo.

Na prática, isso nada mais é do que um ajuste ortodoxo e ultraliberal das contas públicas, baseado em “cortes de despesas”, “redução da estrutura do Estado” e “diminuição de impostos” — todos eufemismos usados pelo establishment para medidas que retiram direitos e empobrecem o povo — além de privatizações e maior liberalidade para o setor privado.

Os tais “cortes de despesas” significam reduzir à míngua as verbas destinadas a políticas públicas — como as de saúde, educação, moradia, segurança pública, assistência social, infraestrutura e meio ambiente, entre outras — além das estruturas física e de pessoal necessárias para implementá-las.

Com isso, estão em risco diversos programas e ações cotidianas, criados e mantidos com sucesso, alguns há muitos anos, e que incidem positivamente na vida da população, mas também na economia.

Para citar alguns exemplos, correm perigo o Bolsa Família, o Farmácia Popular, o Aqui tem Especialistas, o Pé-de-Meia, o Gás do Povo, o Luz para Todos, o Minha Casa, Minha Vida, a proteção de biomas como a Amazônia, a redução de direitos dos trabalhadores e aposentados, como o fim da política de valorização do salário mínimo, entre outros.

Mais impostos?

Essa questão se coaduna com outra que tem sido falaciosamente explorada por Flávio Bolsonaro. O candidato tem tentado vender a ideia de que o governo Lula criou ou aumentou a carga tributária, prejudicando a população.

“O Lula criou sim impostos — mas para os mais ricos”, explica Juliane Furno, professora de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), em vídeo divulgado em suas redes.

“O total da carga tributária sobre o PIB — que é o que nos permite dizer se o Brasil está pagando mais ou menos impostos — continua exatamente igual, e há muito tempo: em torno de 32% do PIB”, explica. Ela acrescenta que tal percentual é relativamente pouco considerando o de países como França e Dinamarca.

Além disso, argumentou: “se alguns impostos foram criados e mesmo assim a carga tributária não aumentou, é lógico que é porque outros foram reduzidos. E aí está o que não te contam: o Lula criou sim impostos, mas impostos par atingir aqueles que não pagavam, os mais ricos, justamente para permitir que os mais pobres deixassem de pagar”.

A professora, então, explica quais tributos foram criados: “Impostos sobre fundos exclusivos de milionário; sobre dinheiro em offshore, em paraíso fiscal; taxação sobre casas de apostas; sobre lucros e dividendos para quem recebe acima de R$ 50 mil por mês (antes, só o Brasil e a Estônia isentavam lucros e dividendos) e taxação sobre a exportação de petróleo bruto para financiar a redução do preço da gasolina que a gente pagou mais barato na bomba. Também foram criados impostos sobre produtos considerados nocivos para a saúde e o meio ambiente. E com isso, os mais pobres pararam de pagar Imposto de Renda”.

Por fim, lembra que “Lula retomou impostos que Bolsonaro tinha retirado e que são muito importantes, como o ICMS dos estados — que financia saúde, educação e segurança — e o PIS/Cofins, que financiam a nossa Previdência e Seguridade Social”.