Luciana Santos: PCdoB, novo ciclo de lutas em defesa da democracia

Com o objetivo de debater o novo ciclo de lutas iniciado com a posse do governo direitista de Jair Bolsonaro, o Comitê Central do PCdoB iniciou na noite desta sexta-feira (15) uma reunião ampliada com a presença de dirigentes partidários de vários estados. Aberta pela presidenta nacional, Luciana Santos, a reunião continua neste sábado (16). No domingo (17), o partido realiza um Congresso Extraordinário, que concluirá o processo de incorporação do Partido Pátria Livre (PPL).

O trabalhos foram abertos com uma intervenção da presidenta nacional, Luciana Santos, que destacou, como objetivo central da reunião, o debate sobre o novo ciclo que se inicia com a posse do governo direitista de Jair Bolsonaro. “ Trata-se de um primeiro esforço coletivo de caracterizar o governo Bolsonaro, compreender suas principais tendências e a partir delas atualizarmos a nossa tática”, afirmou. Luciana registrou ainda o fato de que a reunião ocorre às vésperas do Congresso Extraordinário que culminará o processo de incorporação do PPL ao PCdoB. “Um marco na vida partidária”, definiu.

A dirigente nacional dos comunistas afirmou que o Brasil vive uma ameaça à sua existência como um Estado democrático, soberano e independente. Segundo ela, o país vive uma das mais graves crises econômicas e políticas de sua história recente. “As forças que ascenderam ao poder procuram estabelecer um amplo processo de reorganização do Estado brasileiro, que passa pela revisão dos marcos do Estado Democrático de Direito e sua dimensão garantista; pelo desmonte dos instrumentos econômicos de promoção do desenvolvimento, pela liquidação do patrimônio nacional e a eliminação dos direitos conquistados”. Para Luciana, “o objetivo das é instaurar um novo regime político, de feição autoritária, retrógado nos costumes, e ultraliberal, que procura realinhar o Brasil aos EUA com uma postura que se assemelha a vassalagem”.

Luciana Santos fez questão de registrar que “a ascensão ao poder de Bolsonaro não é um fato isolado, é a expressão brasileira desse fenômeno maior do crescimento de forças de ultradireita ao redor do mundo”. Segundo ela “trata-se de um fenômeno se desenvolve em um complexo e intricado quadro de transformações do cenário internacional, onde fatores como a crise do capitalismo e da globalização neoliberal; a tendência a multipolaridade e as disputas pela hegemonia; bem como as transformações no processo produtivo decorrentes das inovações com a chamada 4ª revolução tecnológica”. Neste cenário, amplia-se o fosso entre o capital e o trabalho, levando a a retirada de direitos e a desvalorização do trabalho, tendo como consequência o aumento desenfreado do desemprego. Para Luciana, “neste processo de cada vez maior contradição entre o neoliberalismo e a democracia, as elites dominantes se encontram divididas. De um lado, os que querem enfrentar a situação mantendo os fundamentos do liberalismo político, com alguma margem de liberdades democráticas. De outro, a opção por governos fortes, de extrema direita, que visão justamente pela força implementar uma agenda, cresce ao redor do mundo”.

A presidenta nacional do PCdoB destacou ainda o acirramento das disputas no cenário internacional. “No quadro que temos caraterizado de emergência de tendências a multipolaridade, existem dois grandes atores, de um lado os EUA, que representam o atual status quo, do outro lado a China socialista, que entre as potencias emergentes se destaca com força e vigor, demonstrando disposição de apresentar como uma alternativa a atual ordem a partir entre outras, da noção de desenvolvimento compartilhado”, afirmou. Luciana ressaltou que “a disputa entre EUA e China vai além da dimensão comercial, é uma disputa pelo controle da “ponta tecnológica”, sobretudo onde ela afeta de forma imediata o avanço militar, no campo da inteligência artificial, da computação quântica e da comunicação. É uma disputa que se desenvolve na esfera dos grandes acordos de investimento, na montagem de cadeias produtivas envolvendo empresas de alta tecnologia e de múltipla nacionalidade”. Diante desta disputa, Luciana destacou a opção do governo Bolsonaro de se aliar aos Estados Unidos e se distanciar da China, tornando-se uma peça chave “que se move não de acordo com seus interesses, mas sim seguindo o slogan ‘América em Primeiro’ de Donald Trump”.

Luciana Santos destacou também as disputas internas no governo Bolsonaro, que se dá entre quatro polos: os militares(farda) , a família (clã), o mercado e setores ligados aos poder judiciário (toga). Para ela a tensão maior se dá hoje entre os expoentes do Clã e os da Farda, entre a ala mais radicalizada e o setor que busca a moderação que o governo requer.

A dirigente do PCdoB informou que a reunião aprovará neste sábado uma atualização da formulação tática do partido para este novo momento. Segundo ela, o centro da nova tática é a união de amplas forças políticas, sociais, econômicas e culturais, do campo democrático, patriótico e popular, para se opor ao governo Bolsonaro, impor derrotas e reveses à sua agenda. “É no caminhar de uma ativa resistência nas ruas, no parlamento, na luta de ideias, que se reverterá as atuais adversidades, acumulando forças e descortinando perspectivas de vitórias vindouras”, afirmou.

Presidenta Luciana Santos ao falar na abertura da reunião nacional do PCdoB (Foto: Portal Vermelho)

Segundo Luciana, a nova tática “tem como foco emergencial a defesa da democracia em razão das ameaças explícitas à liberdade política e às liberdades básicas, ao Estado democrático de direito, por ação de um governo com ímpeto saliente de autoritarismo e tendência fascistizante”. Somada à defesa da democracia e outras questões, como a soberania nacional, a presidenta destaca que está a luta pela aposentadoria, contra a reforma da previdência proposta por Bolsonaro e seu ministro Paulo Guedes. “Apesar de todos os desencontros, das lutas e disputas entre os polos de poder, o governo estabeleceu sua agenda prioritária – a realização da reforma da previdência -, que na verdade é a instituição de um novo regime previdenciário, estruturado a partir da capitalização privada. Se trata de uma mudança de grandes proporções no sistema de seguridade social”, afirmou. Para ela, esta é a disputa prioritária no próximo período. “Se eles a colocaram como sua agenda estratégica, devemos nos focar nela, explorar as contradições existentes, manter as conquistas e impor derrotas ao governo”, enfatizou Luciana Santos.

Luciana Santos ressaltou que os comunistas estarão empenhados com muito vigor nas lutas em curso no país. “Somos feito de uma fibra que se rejuvenesce em momentos como este”, afirmou. Para ela, o momento é de valorizar a inteligência coletiva do partido e a ação nos diversos espaços de luta, nas ruas, nas redes sociais e no âmbito institucional.

Por fim, ela destacou a importância do Congresso Extraordinário que se realizará neste domingo e que culminará o processo de cerca de três meses de debate com o Partido Pátria Livre e que resultou no processo de incorporação de seus membros ao PCdoB. Para Luciana trata-se de um marco histórico e inicia um novo capítulo na história dos comunistas do Brasil. “A corrente revolucionara brasileira estará mais forte com este feito. A luta contra o governo Bolsonaro ganhará uma nova qualidade”, concluiu.