Lava Jato sai de cena com Moro em baixa e saldo de desemprego em massa

Embalada como a maior operação já feita contra a corrupção do Brasil, a força-tarefa da Lava Jato sai de cena esquecida e desmoralizada. Seu principal rosto, o ex-juiz Sergio Moro – que depois se tornaria ministro do governo Jair Bolsonaro –, perdeu boa parte do prestígio acumulado nos anos de glória da operação.

Uma evidência dessa reviravolta é a última pesquisa Ipsos sobre as eleições presidenciais de 2022. Conforme o levantamento, num eventual embate entre Moro e o ex-presidente Lula no segundo turno, o petista venceria hoje o ex-juiz por 57% a 20%. Além disso, 47% dos eleitores brasileiros declaram que não votariam em Moro “de jeito nenhum”.

A Lava Jato começou oficialmente em março de 2014, com foco em desvios de recursos da Petrobras entre 2004 a 2012 por pessoas ligadas a PT, PMDB (atual MDB) e PP. Políticos de outros partidos também foram investigados, e diversas ações resultaram em condenações judiciais. O eixo das denúncias era que as construtoras e outras empresas pagavam propina a operadores indicados pelos partidos.

Além de políticos, executivos de empresas investigadas foram presos temporariamente por determinação de Moro. O 1º grupo passou o Natal de 2014 e o Ano-Novo na cadeia. Sob pressão, fizeram acordos de delação premiada incriminando políticos. Houve críticas ao fato de haver investigações e julgamento no Paraná por fatos não ocorridos no Estado.

Em 2016, num de seus inúmeros abusos de poder, Moro determinou a condução coercitiva de Lula para prestar depoimento. Dois anos mais tarde, mesmo sem provas, o ex-presidente foi ser condenado por Moro e pelo TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) por corrupção e lavagem de dinheiro por meio de obras em um apartamento tríplex no Guarujá (SP).

No fim de 2018, Moro aceitou convite do presidente eleito, Jair Bolsonaro, para ser ministro da Justiça e abandonou a magistratura. Poucos meses depois, já à frente do ministério, o ex-juiz começou a ser desmascarado. O site The Intercept Brasil divulgou trocas de mensagens hackeadas entre Moro e procuradores da Lava Jato que comprovavam sua suspeição no caso. Sem isenção nenhuma, Moro direcionou investigações com a intenção de condenar Lula e outros políticos.

Em decorrência das revelações, Lula foi solto no fim de 2019 por decisão do STF (Supremo Tribunal Federal). Já em 2020, o próprio Moro deixou o cargo de ministro da Justiça por divergências com Bolsonaro sobre a nomeação do diretor e de outros cargos da PF.

Em 2021, o STF anulou as condenações de Lula nos processos julgados por Moro em Curitiba, já que esse foro não era o correto. Os casos foram mandados para a Justiça Federal em Brasília. Além disso, em 23 de junho, o Supremo considerou Moro parcial no caso do tríplex atribuído a Lula.

O ministro Gilmar Mendes estendeu a suspeição de Moro para outros dois processos em que Lula é réu: o do sítio de Atibaia e o da compra de um terreno para o Instituto Lula. Mas não foi só: ao dizer que Moro não poderia ter sido o juiz no caso de Lula, o STF colocou o último prego que faltava no caixão da Lava Jato.

Empregos perdidos

Em vez de mirar nos empresários envolvidos em corrupção, a Lava Jato atacou diretamente as construtoras, impôs restrições a empresas como a Petrobras e, assim, acentuou criminosamente a desindustrialização da economia brasileira. Um dos principais saldos da operação foi o desemprego em massa provocado por Moro e companhia.

Pesquisa do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) encomendada pela CUT (Central Única dos Trabalhadores) indicou que a Lava Jato fez o Brasil perder 4,4 milhões de empregos e cerca de R$ 172,2 bilhões em investimentos. O setor mais atingido foi o da construção civil, que perdeu 1,1 milhão de postos de trabalho.

Segundo o Dieese, a operação ainda teve impacto político e no desenvolvimento de setores econômicos estratégicos para o País. O valor que deixou de ser investido equivale a 40 vezes os R$ 4,3 bilhões que o Ministério Público Federal diz ter recuperado com a operação. Com isso, os cofres públicos deixaram de arrecadar R$ 47,4 bilhões em impostos, sendo R$ 20,3 bilhões em contribuições sobre a folha de salários.

Outro levantamento, feito pelo site Poder360, mostra que apenas oito empresas – as construtoras Odebrecht, OAS, UTC, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez, Carioca Engenharia e Camargo Corrêa, somadas à Petrobras, fecharam 206,6 mil vagas de emprego de 2013 a 2020. A estimativa se refere ao máximo de empregados que havia antes da operação nessas oito companhias e ao que as empresas têm agora.

A Odebrecht, por exemplo, cortou 94% do quadro de funcionários em seis anos (de 126 mil em 2013, antes da Lava Jato, para 7.548 em 2020). O grupo entrou em recuperação judicial e passar por uma reestruturação. No caso da Petrobras, desde o governo Michel Temer, já havia uma redução deliberada do número de trabalhadores. Esse desmonte da empresa, aliado aos impactos da Lava Jato, levou a um corte de 39,7% dos funcionários – de 86.108 em 2013 para 51.950 em 2020.

Com informações do Poder360 e da CartaCapital