Itália volta a negar entrada a barco com imigrantes exauridos

Os migrantes foram salvos na sexta-feira de um grande bote a cerca de 55km da costa da Líbia

Outra embarcação de resgate humanitário desobedeceu a proibição do ministro do Interior italiano Matteo Salvini e atracou no sábado (7) com 41 imigrantes a bordo no porto de Lampedusa, como fizera dias antes o Sea-Watch da capitã Carola Rackete.

“Os náufragos e a tripulação estão exaustos, as 41 pessoas salvas precisam ser tratadas e curadas, estamos vivendo uma situação surrealista”, denunciou a organização humanitária italiana Mediterranea, cujo veleiro Alex, com capacidade para acomodar 18 pessoas, precisou salvar das águas do Mediterrâneo o triplo disso. O governo italiano segue impedindo o desembarque dos refugiados e da tripulação.

A Mediterranea classsificou de “crueldade inútil” o prolongamento da espera e exigiu que os náufragos e a tripulação possam desembarcar “imediatamente”.

Para se protegerem do sol, os refugiados apenas contavam com mantas térmicas, e além da superlotação havia o problema da falta de banheiros. Salvini tentou empurrar para Malta o barco de resgate mas, diante da distância de 90 milhas, considerável para um veleiro pequeno e amontoado de gente, ajuizadamente o capitão se recusou à pressão.

Apesar de ter sua xenofobia contra os imigrantes do Sea-Watch repelida por uma juíza que ordenou a libertação da capitã Carola, Salvini insiste na intransigência que colhe votos de desavisados nas eleições. “Não autorizo nenhum desembarque”, reiterou.

A ordem judicial que libertou a capitã Carola e que determina que “o dever de alívio não termina em um mero embarque a bordo dos náufragos, mas em sua condução a um porto seguro”, representa um golpe profundo na política xenófoba em vigor e um alento para os barcos de resgate, que estavam virtualmente impedidos de prestar socorro há semanas.

Um terceiro navio, em uma semana, à espera de um porto seguro ao largo da costa de Lampedusa, o Alan Kurdi, da entidade humanitária alemã Sea-Eye, com 65 náufragos a bordo, decidiu, diante da intransigência de Salvini, mudar o curso para Malta.

“Não podemos esperar até que o estado de emergência prevaleça”, disse a organização no Twitter . “Agora é preciso provar se os governos europeus estão de acordo com a atitude da Itália. As vidas humanas não são uma moeda de barganha”, advertiu.

Os migrantes foram salvos na sexta-feira de um grande bote a cerca de 55km da costa da Líbia, país em que esta semana um campo de concentração para refugiados foi bombardeado, com dezenas de mortes.

As autoridades líbias não responderam à comunicação por mais de três horas, disse a ONG. Mais de 70 cidades na Alemanha teriam se disposto a acolher os refugiados, afirmou a Sea-Eye.

Até mesmo o ministro do Interior alemão, Horst Seehofer, considerado um falcão nas questões de imigração, dirigiu carta a Salvini pedindo-lhe para “reconsiderar” a política de fechamento dos portos. Respondida por Salvini com uma recusa e a recomendação a Seehofer de que vá cuidar dos seus próprios negócios.

A norma emitida por Salvini inclui multas de até 50.000 euros para quem violar a proibição de resgatar imigrantes, que chega ao cúmulo de acusar de ‘cumplicidade no tráfico de pessoas’. Diante da capacidade das organizações humanitárias de levantarem, junto da população, o valor das multas, Salvini agora quer alterar sua própria lei para que o montante atinja um milhão de euros.