“Integração de AP ao PCdoB é grande contribuição de Duarte Pereira”
Data: 13/08/2021
O lançamento do livro Repensando o Marxismo, de Duarte Pacheco Pereira, provocou o raro reencontro de quatro amigos, que, há muito, não estavam juntos no mesmo lugar. Os militantes históricos de Ação Popular (AP), Aldo Arantes, Duarte Pereira, Haroldo Lima e Renato Rabelo, registraram esse momento raro, depois de tantos anos de luta contra a ditadura, prisões, torturas, exílios e clandestinidade.
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O presidente da Fundação Maurício Grabois e membro do Comitê Central do PCdoB, Renato Rabelo, expressou sua tristeza com a perda do jornalista Duarte Pacheco Pereira, nesta quinta-feira (12). Articulador da integração de Ação Popular ao PCdoB, em meio à ditadura militar, Duarte não consolidou sua filiação, embora tenha permanecido um amigo do Partido até o fim. Renato considera esse momento, em 1970, a maior contribuição de Duarte ao país, pela importância que aqueles militantes exerceram sobre o partido e sobre a resistência à ditadura.
Leia comunicado de Renato Rabelo, ex-presidente nacional do PCdoB, sobre a morte de Duarte Pacheco:
“Recebemos, nesta quinta-feira (12), a triste notícia do falecimento de nosso grande amigo DUARTE LAGO PACHECO PEREIRA.
Duarte foi importante dirigente da organização Ação Popular marxista-leninista, que, nos anos 70 do século passado, defendeu, fundamentou e abriu caminho para a integração da AP ao PCdoB, exatamente num período crítico do nosso país, em meio à ditadura militar terrorista que promoveu o golpe militar de 1964.
Naquela ocasião o Partido Comunista do Brasil havia decidido lutar no Araguaia diante da impossibilidade da luta nas cidades.
Duarte foi quem abriu caminho para a integração da AP ao PCdoB.
Apesar de não chegar a ser filiado ao Partido, intelectual de vasta cultura, contribuiu muito para a formação de inúmeros militantes e quadros devotados à causa revolucionária e socialista”.
Renato Rabelo ainda deu um depoimento ao sobre como a perda de Duarte Pereira afeta os amigos do PCdoB.
Segundo ele, Duarte foi dos maiores quadros da esquerda brasileira. “Tive a alegria e o prazer de participar com Duarte da executiva da Ação Popular”, relatou. Essa relação na AP durou anos, conforme lembra ele.
A Ação Popular era uma organização política clandestina, durante toda a ditadura. “Tínhamos um convívio muito próximo, devido às reuniões muito longas, com muito debate. No âmbito da nossa executiva, o Duarte era aquele que era muito respeitado por ser um homem com uma vasta cultura no terreno político, ideológico, filosófico, e, portanto, deu sempre uma grande contribuição a direção da Ação Popular”, contou Renato.
Na opinião de Renato, mesmo depois do regime militar, Duarte continuou dando contribuições importantes por meio de seus vários escritos e entrevistas. “Foi sempre um intelectual muito destacado, rigoroso e explícito em suas posições. Esta era uma característica muito forte do Duarte Pereira”, enfatizou.
“Para nós, do PCdoB, eu sempre ressalto muito isto, que ele deu uma contribuição política e ideológica. Foi ele que defendeu, fundamentou e abriu caminho para a integração da AP ao PCdoB, num momento muito difícil, uma situação de crescimento da fascistização do regime. quando o PCdoB abriu o caminho da resistência armada no Araguaia”, reafirmou.
Renato conta que Duarte foi o grande defensor da justificativa de que o partido comunista já existia, e que a militância de AP não precisava criar nenhum partido novo, mas fazer um esforço de buscar, através do diálogo mais profundo, a aproximação e integração com o PCdoB. “Ele jogou um grande papel nesse sentido, porque nós indicamos o Duarte para ser, num primeiro momento, a pessoa que mantinha um contato com um membro da direção nacional do PCdoB para esse diálogo inicial. Ele fez um grande trabalho nesse sentido”, revela.
Nesse contato clandestino entre AP e PCdoB, o Partido indicou o [Carlos] Danielli, que Renato descreve como uma pessoa de origem operária, mas muito completo, “um homem que chegou a ter uma grande capacidade literária, um autodidata”. Dessa forma, Duarte e Danielli foram os dois que construíram esse processo de integração.
“Levando em conta o resultado disso tudo, esta foi a grande contribuição politico-ideológica do Duarte”, completou.
Mas foi também o rigor com seus princípios que levou Duarte a não concluir sua integração pessoal ao PCdoB. Num momento de sanguinária perseguição política aos comunistas, ele defendia a realização de um Congresso com a militância da Ação Popular para definir a integração. “Era fazer um congresso para todo mundo ser preso. Ele não entendeu isso e acabou ficando pelo caminho”.
Com isso, quem hasteou a bandeira foram Renato, Aldo Arantes e Haroldo Lima, que conclamaram a Ação Popular por meio de um artigo histórico: Nos integremos ao PCdoB!
No documento, diziam porque de fazer a integração, nas condições que estavam propondo. Mas consideravam que aqueles que não concordassem com a integração teriam toda a liberdade para tomar essa posição. Renato diz com segurança que, mesmo não sendo possível fazer um controle preciso, o documento conseguiu agregar, “no mínimo”, 80% da Ação Popular em torno da ideia da integração ao PCdoB.
“Por isso, eu considero essa contribuição política do Duarte muito atual, de uma grande perspicácia e compreensão da realidade politica brasileira”, afirma. Dentro da ótica daqueles que se integraram ao Partido, Renato considera esta a maior contribuição dele.
Mesmo após este período turbulento, Renato é enfático em dizer que Duarte se aproximou em diversos momentos do PCdoB, tendo trabalhado junto, inclusive. Foi o caso das campanhas eleitorais de Lula, em que, ao fazer propostas ao programa de governo, o PCdoB sempre contou com a participação e contribuição de Duarte, desde a eleição de 1989. “Foi ele o relator da proposta de programa de governo que fizemos à campanha de Lula em 2002”, recordou.
Outros momentos lembrados dizem respeito à contribuição de Duarte aos mandatos de vereadores comunistas de São Paulo.
“Foi sempre uma pessoa muito amiga nossa com uma relação de alto nível”, declarou, revelando a solidariedade que os militantes do Partido tiveram com ele, nesse momento de luta contra o câncer.
Uma das últimas atividades do PCdoB com a presença de Duarte Pereira foi o lançamento de seu livro Repensando o Marxismo, pela editora Anita Garibaldi, uma coletânea de artigos selecionados por Haroldo Lima. O lançamento na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, foi a feliz e emocionada oportunidade de reencontro dos quatro fundadores de AP e da integração com o partido.
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