Indonésia critica EUA por envio de submarinos com mísseis ao Pacífico

Retno Marsudi, chanceler da Indonésia, condenou armamentismo instigado pelos EUA

(Jakarta Post)

A Indonésia reagiu na sexta-feira (17) ao anúncio da venda de submarinos com capacidade de usar mísseis nucleares à Austrália, feito por Washington e Londres, advertindo sobre a “contínua corrida armamentista e projeção de poder militar na região” e os riscos de proliferação nuclear trazidos por tal transação, comemorada via conferência virtual pelo presidente Joe Biden, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson e o primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, como parte de uma recém criada aliança bélica Austrália-Reino Unido-Estados Unidos (AUKUS).

A promoção da corrida armamentista no Pacífico e volta da mentalidade de guerra fria já fora condenada na véspera pela China, que denunciara que essa implantação de submarinos nucleares “mina seriamente a paz e a estabilidade regionais e compromete os esforços internacionais pela não-proliferação nuclear”.

O Ministério das Relações Exteriores indonésio exortou a Austrália a cumprir suas obrigações de “manter a paz, estabilidade e segurança” na região do Pacífico, de acordo com o Tratado de Amizade e Cooperação assinado por nações do Sudeste Asiático.

Nos termos do anúncio Washington-Londres-Canberra, os submarinos norte-americanos de propulsão nuclear cedidos à Austrália irão “patrulhar” a região dos Oceanos Índico e Pacífico. Embora asseverem que esses submarinos não terão armamento nuclear, sua implantação caso os EUA queiram não terá, do ponto de vista operacional, qualquer empecilho.

Outra reação de repúdio partiu da vizinha Nova Zelândia, cuja primeira-ministra, Jacinda Ardern, reiterou que vetará a entrada em suas águas territoriais de futuros submarinos nucleares australianos, como parte da política antinuclear adotada na década de 1980.

Analistas consideraram o recém-criado Pacto AUKUS como mais um lance da tentativa dos EUA de cerco à China, no esforço para inviabilizar o desenvolvimento da milenar nação asiática e deter o declínio norte-americano.

Observadores australianos consideraram uma estupidez amarrar o destino do país ao de Washington e, gratuitamente, romper com a China, principal parceiro comercial da Austrália e país que mais se desenvolve no mundo há décadas.

França

Mas talvez em nenhum lugar a repercussão tenha sido tão negativa quanto em Paris, que, nas palavras de do chanceler francês Jean-Yves Le Drian, foi “esfaqueada pelas costas”, com o rompimento australiano do acordo para fabricação de 12 submarinos diesel de tecnologia francesa, no valor de US$ 50 bilhões, em favorecimento dos estaleiros bélicos da América.

Paris acaba de chamar de volta “para consultas” seus embaixadores nos EUA e na Austrália. Classificando o cancelamento como um “comportamento inaceitável”, Le Drian disse em um comunicado na sexta-feira que a decisão de retirar os enviados, a pedido do presidente Emmanuel Macron, “é justificada pela seriedade excepcional dos anúncios” feitos pela Austrália e os Estados Unidos.

A data escolhida para o anúncio do AUKUS, 16 de setembro, é, como registrou no Twitter o embaixador da França nos Estados Unidos, Phillippe Etienne, curiosamente o dia em que “há 240 anos a Marinha francesa derrotou a Marinha britânica na Baía de Chesapeake, abrindo caminho para a vitória em Yorktown e a independência dos Estados Unidos”.