João Amazonas, Lula e Renato Rabelo selam aliança para a Frente Brasil Popular, em 1989. Foto: arquivo/PCdoB

Renato Rabelo é daquelas lideranças políticas cujo tamanho e importância atravessam gerações e se expandem por todo território nacional e para além dele, mesmo após sua partida. Herdeiro direto de João Amazonas, soube beber do legado do grande líder e atualizá-lo conforme as necessidades de seu tempo tempo, conduzindo o partido de maneira sábia e altiva. 

De temperamento tranquilo e voz serena, indicava caminhos e construía consensos com a inteligência dos que sabem falar mas, sobretudo, ouvir. Com um espírito talhado pela luta e também pelo estudo, unia experiência e perspicácia para indicar saídas em momentos de dificuldade. 

Num estado como o Rio Grande do Sul — cuja história foi marcada por guerras e revoluções e gerou grandes nomes da política nacional, com Getúlio Vargas, Leonel Brizola e João Goulart —, o comunista baiano também deixou fortes marcas. 

Imprescindível

Nascida no mesmo ano de Rabelo, 1942, Jussara Cony se emociona ao falar do companheiro de lutas. Ex-vereadora e ex-deputada estadual pelo PCdoB, Jussara o classifica como “um dos imprescindíveis” do partido. 

Em meados dos anos 1970 — quando a ditadura perseguia duramente seus oponentes, o partido ainda atuava na clandestinidade e a Guerrilha do Araguaia já havia sido dizimada pelos ditadores —, Jussara era estudante de Farmácia e funcionária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo, se dividia entre os cuidados com os filhos pequenos e a militância em bairros como Farrapos e Pathernon. 

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Foi num desses anos que, tomando os cuidados necessários à época, conseguiu se encontrar com Rabelo na capital gaúcha. “Tenho especialmente duas memoráveis e revolucionarias lembranças de Renato, que guardo com significado histórico em minha vida. A primeira, aqui em Porto Alegre, quando por ele fui recrutada, na clandestinidade, para ser membro do Comitê Central de nosso partido, um momento inesquecível!”, conta. 

Com a doçura e o amor que normalmente transpiram de sua voz quando o assunto é a militância comunista, Jussara conta o segundo momento, décadas mais tarde, já no início dos anos 2000. 

Jussara Cony. Foto: reprodução/redes sociais Bruna Rodrigues

“Lembro-me de outro momento marcante que foi a reunião do Comitê Central quando o nosso amado João Amazonas indicou Renato Rabelo à presidência do partido, para dar continuidade revolucionária à caminhada histórica do PCdoB e da luta popular na construção do socialismo no Brasil. Assim como agora, em sua partida, também seguimos honrando o cotidiano revolucionar do partido”. 

Outro contemporâneo fundamental para a luta democrática e comunista no Rio Grande do Sul é o também ex-vereador e ex-deputado estadual Raul Carrion, 80 anos, preso e torturado pela ditadura no início dos anos 1970. 

“Essa foi a imagem que me marcou desde o primeiro momento em que conheci Renato Rabelo, em Porto Alegre, no início dos anos 1980 do século passado: um dirigente de têmpera revolucionária, firme ideologicamente, estudioso tanto do marxismo quanto da realidade concreta, intransigente em relação aos princípios, mas de grande flexibilidade no enfrentamento às questões táticas”, relata Carrion. 

Raul Carrion. Foto: reprodução/redes sociais

Ele acrescenta que as contribuições teóricas de Rabelo em relação ao Programa Socialista para o Brasil e ao Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento “são inestimáveis”. 

Para Carrion, “Renato foi um dirigente partidário capaz de compreender as inevitáveis contradições que surgem em um partido em que militam homens e mulheres de fortes convicções, que não temem expor as suas opiniões e as suas eventuais divergências. Com firmeza e habilidade, Renato soube superar essas contradições, em vários momentos, garantindo a unidade partidária e preservando os quadros”. 

Por tudo isso, conclui, “Renato não só deixa saudades e reconhecimento, mas ensinamentos imprescindíveis para que o nosso partido e a sua militância prossigam na senda revolucionária”. 

Construtor de caminhos

Adalberto Frasson. Foto: reprodução/redes sociais

De uma geração posterior à de Jussara e Raul, Adalberto Frasson, 66, é outro comunista que atuou com Renato Rabelo. Ele esteve à frente do partido no RS em boa parte do período em que Rabelo era presidente nacional. 

“Renato foi daqueles homens imprescindíveis. Minha trajetória de dirigente do PCdoB foi construída ao seu lado. Ele soube primeiramente ser um amigo, amável, alegre e atencioso. Compartilhou comigo os momentos difíceis, as vitórias e as alegrias. Como dirigente, sempre usou da sabedoria para ouvir e construir caminhos, mas valorizando, acima de tudo, a contribuição e a construção coletiva.

Frasson acrescenta que o PCdoB — no Brasil e no Rio Grande do Sul — “se tornou referência da luta em torno de um projeto transformador através de suas formulações teóricas e de sua liderança”. 

Ele conclui dizendo que “infelizmente, o tempo da existência física dele acabou. Mas sua obra, seu exemplo e sua luta seguirão presentes na continuidade da nossa luta para a conquista de um Brasil soberano e socialista”. 

Edison Puchalski. Foto: reprodução/redes sociais

Já Edison Puchalski compõe umas das novas gerações de dirigentes comunistas, advindo do movimento estudantil e da União da Juventude Socialista (UJS). O atual presidente do PCdoB-RS relata que “Renato Rabelo é uma das maiores lideranças da história do partido e da política nacional do seu tempo. Mais do que presidente do PCdoB, foi um intelectual orgânico, um estrategista comprometido com o projeto nacional de desenvolvimento e com o socialismo, um comunista forjado na luta e na resistência à ditadura”. 

Ao falar de Renato, lembra que o conheceu ainda na juventude e que o histórico dirigente “foi uma inspiração e uma referência, especialmente nos momentos mais difíceis. Tinha firmeza ideológica, mas também humanidade e espírito unitário. Sabia formular com profundidade e dialogar com simplicidade”. 

À frente da presidência nacional, diz Puchalski, “conduziu o partido em momentos decisivos da vida política brasileira, ampliando nossa inserção institucional sem jamais abrir mão dos princípios, da identidade comunista e do compromisso com o socialismo”. 

Por fim, destacou: “Seu legado seguirá vivo na nossa militância e na luta por um Brasil soberano, democrático e socialista. Honrar Renato é seguir firmes na luta”.