Foro de São Paulo: Um rio caudaloso com muitas nascentes

Marca do evento.

De 25 a 28 de julho acontecerá, em Caracas, capital da República Bolivariana da Venezuela, a 25ª Edição do Foro de São Paulo (FSP). Surgido há 29 anos, por iniciativa do Partido dos Trabalhadores (PT), o Fórum de São Paulo é, atualmente, a mais ampla e representativa articulação do campo progressista na América Latina e, talvez, no mundo.

Por Walter Sorrentino*

 Na edição de Havana, em 2018, compareceram 625 delegados representando 168 organizações da América, Europa, Ásia, África e a expectativa este ano é igualar estes números, mesmo em meio a cerrados ataques de todo o tipo (a Venezuela acaba de sofrer um outro grande e suspeito blecaute, às vésperas do Encontro).

Nascido nos anos de combate aos governos neoliberais na América Latina, o FSP forjou seu caráter no espírito do proclamado na cidade do México em 1991 que o caracterizava como um “encontro franco e aberto, democrático, plural e unitário, com a participação de um amplo leque de forças. Algumas têm identidades nacionalistas, democráticas e populares, enquanto várias outras levam estes conceitos para identidades socialistas diversas, estando todas comprometidas com as transformações estruturais requeridas para o cumprimento dos objetivos das grandes maiorias dos nossos povos pela justiça social, a democracia e a libertação nacional”.

Em correspondência a isso, o FSP não tem uma estrutura verticalizada de direção nem toma decisões com caráter vinculativo obrigatório para os seus membros. Todas as resoluções do FSP são pelo método do consenso, sendo a própria existência dos encontros anuais um valioso exercício de unidade na diversidade. Não é e nem será qualquer tipo de “centro de comando” que se sobreponha à luta dos partidos e forças que se batem em cada país, com autonomia.

É indubitável que, graças a esta riqueza de visões, o Foro de São Paulo se tornou um relevante espaço de debate e articulação que ajudou a inspirar e impulsionar a onda progressista de governos com forças que integram o FSP, que empolgou parte significativa do continente americano nos últimos 20 anos, desde a histórica vitória de Chávez na Venezuela.

Hoje, vive-se um interregno do ciclo político progressista alcançado em eleições, em meio a uma situação defensiva. O FSP se debruça sobre as causas do avanço da onda conservadora e a forma de melhor lhe dar combate. Sob os governos da direita avoluma-se o desemprego e trabalho precário, aumenta profundamente a desigualdade social, ataca-se conquistas históricas dos direitos do trabalho e da aposentadoria, o patrimônio nacional vai sendo vilipendiado, evidencia-se a falácia da agenda econômica neoliberal senil em retomar crescimento, emprego e renda , bem como avança a desindustrialização e a desnacionalização da indústria. As liberdades são cada vez mais restringidas e criminaliza-se a política em geral, as forças de esquerda em particular. Avança o obscurantismo cultural e a regressão civilizatória. São problemas comuns a várias de nossas nações latino-americanas.

Não há como conter a luta contra esse estado de coisas. Daí o papel do FSP. Ele reúne águas de muitas nascentes de nossos países, formam um grande rio caudaloso que vai abrir caminho sob diferentes formas e feitios e construir nova perspectiva para nossos povos pela autodeterminação, soberania nacional, liberdade, justiça social, direitos sociais, humanos e civis, progresso material e espiritual para as maiorias sociais. São valores fundantes da civilização que envolvem também a grandiosa luta pela Paz mundial.

O PCdoB participa do FSP desde a sua fundação e faz parte do seu Grupo de Trabalho. Estará mais uma vez presente em Caracas, expressão de seu compromisso com essas bandeiras, incluído em especial o fim do bloqueio criminoso a Cuba e da aplicação em novo patamar da Lei Helms-Burton dos EUA, em defesa da autodeterminação do povo venezuelano e contra a ameaça de intervenção de guerra de que é vítima seu povo.

Essa participação tem também, e sobretudo, o objetivo de fortalecer a resistência em nosso país, em função de um projeto nacional de desenvolvimento que representa o oposto do que está sendo implantado por um governo autoritário, antipovo e neocolonizador.

O presidente brasileiro declara que “Na próxima quinta, membros do Foro de São Paulo, criado por Fidel Castro, Lula, FARC, entre outros partidos de esquerda e facções criminosas com objetivo de dominar a América Latina, se reúnem em Caracas-Venezuela para discutir seu Projeto de Poder Totalitário” (Twitter do Presidente Jair Bolsonaro nesta segunda-feira, 22). Entretanto, o governo brasileiro se submete e bate continência à bandeira norte-americana, atua contra o multilateralismo nas relações internacionais e ameaça até envolver o Brasil, de tradicional diplomacia voltada à solução negociada de conflitos, sem intervir nos assuntos internos de outros países, em uma guerra de agressão à Venezuela e ao bloqueio a Cuba socialista, a reboque da estratégia norte-americana, o que representa profunda e criminosa insensatez aos interesses do Brasil e seu povo.

A extrema-direita neocolonial brasileira tem realmente com que se preocupar, pois enfrentará poderosa resistência. Não aceitaremos o Brasil e a América Latina reduzidos mais uma vez a quintal dos interesses políticos, militares e comerciais da potência hegemônica norte-americana, sob a Doutrina Monroe. Não aceitamos nada menos que um Brasil livre e soberano, a serviço do povo brasileiro.

* É vice-presidente nacional e secretário de Política e Relações Internacionais do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).