Uma emocionante cerimônia no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, nesta quarta-feira (19), marcou o velório do líder operário e comunista Vital Nolasco. O caixão foi coberto por uma bandeira do PCdoB e uma camisa do Corinthians. Sob aplausos, o corpo de Vital deixou o local por volta das 14h30 e foi levado ao Crematório Valle dos Reis, em Taboão da Serra (SP), onde foi cremado.

No velório, a família agradeceu ao apoio dos “amigos e camaradas” nos últimos dias. Vital ficou internado por duas semanas no Hospital Samaritano, onde diagnosticou uma fibrose pulmonar crônica e chegou a ser intubado. A morte foi confirmada nas primeiras horas desta quarta.

O vice-presidente nacional do PCdoB, Walter Sorrentino, falou em nome dos comunistas na cerimônia. Segurando nas mãos a biografia Vital Nolasco – Vale a Pena Lutar (2016), Walter – que conhecia Vital desde 1982 – elogiou a “destacada militância” do operário metalúrgico que se transformou num grande quadro sindical e político.

Vital foi dirigente não apenas do Partido Comunista – mas também de entidades como o Sindicato dos Metalúrgicos de BH/Contagem e do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. “Ele tinha empenho e entusiasmo nas lutas operárias, na atuação sindical, ajudando a criar e a fortalecer sindicatos. Tinha a mesma força no parlamento, quando pôs o mandato de vereador a serviço dos trabalhadores, usando, desde sempre, o PCdoB como instrumento de luta”, disse Walter. “Havia em Vital lealdade e compromisso com o crescimento partidário. Com generosidade, ele sempre acolheu a militância.”

A viúva, Maria Ester Nolasco, também militante do PCdoB, ressaltou que, para Vital, o Partido representava uma “causa maior”. Ele integrou as fileiras comunistas por 50 anos, depois de ingressar na vida pública por meio da JOC (Juventude Operária Católica). “O Vital tinha uma crença inabalável na possibilidade de o Partido mudar a vida dos trabalhadores”, afirmou Ester.

Na opinião dela, os dois mandatos como vereador (1989-1996) possibilitaram a Vital “propor projetos e aprovar leis para garantir melhores condições de vida à população”. Foi de sua autoria, por exemplo, a lei que instituiu “passe livre” no transporte público para trabalhadores desempregados. Ester ainda destacou “o marido e pai dedicado que, mesmo com atuação política intensa, jamais deixou de lado o cuidado com a família”.

Daniel Nolasco, filho de Vital, afirmou ter ficado sensibilizado com as incontáveis manifestações de solidariedade que recebeu em meio à doença e morte do dirigente comunista. Partiu de Daniel, horas, antes, o comunicado da morte do pai: “Agradecemos a toda militância do PCdoB, que sempre demonstrou muito carinho e afeto a ele. Agradecemos ainda ao próprio partido, que era um dos maiores amores de sua vida”.

Já Patrícia Nolasco, filha primogênita de Vital, recitou, em homenagem ao pai, o poema Se Tenho que Partir, da poeta paulista Maria José Ávila, a Zezé. Os versos, segundo Patrícia, lembram a forma como Vital encarava os fatos e procurava injetar otimismo no dia a dia.

Confira, abaixo, a íntegra do poema:

 

Se tenho que partir
(Maria José Ávila)

 Se tenho que partir, que seja
enquanto minha alma
responde à beleza,
desperta da letargia,
e, em ânsias de viver,
mergulha direto na magia.

Que eu parta, então,
quando a visão da rosa
é êxtase,
perfume e cor,
repouso da mente,
fonte de calor.

Pois que eu vá
enquanto sofro ainda
com a dor dos que sofrem
e rio com o riso das crianças,
o prazer das mães
na atualização de esperanças.

Se tenho mesmo que ir,
que seja agora
quando a árvore me fala
de sombra e amizade,
das cores do outono,
de paz e felicidade.

Se tenho que dormir,
que durma deslumbrada
com o nascer e o pôr-do-sol,
derramando no mar
um esplendor de prata e ouro
vai e vem das ondas a brilhar.

Possa eu repousar
sob um manto de estrelas e luar,
ouvindo a voz do vento,
os murmúrios da floresta,
a melodia dos riachos e cascatas,
mergulhada em plena festa.

Que durma feliz
– ambos realizados –
nos braços do meu amor,
nos laços do seu carinho
que se revela suave,
macio como arminho.

Se tenho que partir,
seja, então, de regresso
à casa de meu Pai,
deixando o sonho pela realidade,
uma realidade de sonho,
o mundo perfeito da verdade.