Ex-chanceler do Canadá condena “russofobia” e apoia “neutralidade"

O líder do Partido Popular do Canadá e ex-diplomata Maxime Bernier defendeu diálogo com a Rússia

O ex-ministro das Relações Exteriores e líder do Partido Popular do Canadá (PPC), Maxime Bernier, propôs que o primeiro-ministro Justin Trudeau pressione os aliados de Ottawa na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) a apoiarem uma posição de “neutralidade ucraniana”.

Bernier defendeu a necessidade de chegar a um “compromisso” com Moscou. A manifestação dele ocorre logoa após a Rússia ter respondido à crescente russsofobia – com epicentro em Washington – e enxurrada de sanções contra Moscou com embargos contra o dirigente canadense e o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden,

Em relação ao conflito em andamento na Ucrânia, o Kremlin advoga que o país seja “desnazificado e desmilitarizado” e comunica que encerraria suas operações assim que o governo Zelenski consagrar o status neutro para o país na Constituição e também reconhecer a condição das repúblicas do Donbass de entidades políticas autônomas.

“Devemos parar de escalar e, em vez disso, pressionar nossos parceiros da Otan e a Ucrânia para encontrar um compromisso com a Rússia com base na neutralidade ucraniana, como deveria ter sido feito em primeiro lugar para evitar esta guerra”, declarou Bernier na terça-feira.

O líder oposicionista canadense calculou que as sanções econômicas impostas pelo governo Trudeau contra a Rússia só levariam ao agravamento do conflito, que ele disse que poderia resultar em “mais mortes e destruição” todos os dias.

O Canadá, em sintonia com seus aliados da Otan, sancionou cerca de 500 indivíduos russos, bielorrussos e até opositores ucranianos desde o mês passado.

Durante uma recente viagem a vários países europeus, Trudeau também anunciou a renovação da ‘Operação Reassurance’, uma missão da Otan com o destacamento militar internacional de Ottawa, envolvendo cerca de 500 soldados canadenses.

Bernier, no entanto, alertou para a escalada do conflito por meio de sanções retaliatórias, uma vez que fornecer armas, em vez de buscar um compromisso com a paz, também poderia levar a “escassez global de alimentos”. Tanto a Rússia quanto a Ucrânia estão entre as principais exportações de trigo do mundo.

Enquanto Bernier afirmou que as operações militares russas na Ucrânia foram um desenvolvimento “infeliz”, apontou que as preocupações de Moscou com a “expansão” da Otan são justificadas.

“Nós, o Ocidente, encorajamos e fizemos uma enorme expansão da Otan através de novos membros vindos da Europa Oriental… E agora a Otan está às portas da Rússia. Nós pressionamos a Ucrânia a perguntar se poderia fazer parte da Otan”, observou Bernier. “Você teria defendido o direito de Cuba de hospedar mísseis soviéticos em 1962? Quantos milhões de mortes você está disposto a aceitar para defender o direito da Ucrânia à livre associação?” questionou, referindo-se ao episódio da época da Guerra Fria que quase levou Washington e Moscou a um confronto nuclear. “Nossas políticas devem se basear na dura realidade, não no pensamento idealista e desejoso”.

Bernier também protestou contra o fato de que as forças canadenses teriam se envolvido no treinamento de “neonazistas” na Ucrânia nos últimos seis anos. “Há muitos conflitos ao redor do mundo, mas não fazemos parte disso… É popular ser pró-Ucrânia”, assinalou.

Bernier também pediu ao principal partido da oposição federal canadense, o Partido Conservador do Canadá (PCC), que pare de exigir um aumento nos suprimentos de defesa contra a Ucrânia, bem como sanções mais duras contra entidades russas.

As observações de Bernier sobre a crise de segurança ucraniana ocorreram no mesmo dia em que o presidente ucraniano, Vladimir Zelensky, se dirigiu ao parlamento canadense por videoconferência.

Bilhões de dólares em remessas de defesa foram enviados como “ajuda” à Ucrânia pelos EUA, UE e outros aliados da OTAN até agora. A Rússia alertou que quaisquer suprimentos de armas para a Ucrânia seriam tratados como “alvos legítimos”.