EUA tentam abafar o massacre que cometeu na Síria com 80 mortos

Civis sírios em fuga de bombardeio norte-americano

(Giuseppe Cacace/AFP)

Um brutal massacre de 80 civis que incluiu mulheres e crianças sírias com bombas de 225 kg e de quase 1 tonelada, perto da cidade de Baghuz, despejadas por um avião F-15E, vem sendo encoberto pelos Estados Unidos há quase três anos, segundo o jornal New York Times, em reportagem de sábado que está causando comoção e chama a atenção para a ocupação ilegal de território sírio por tropas norte-americanas ainda em curso, com roubo de petróleo e trigo.

“Os EUA matam civis desenfreadamente, encobrem isso e depois contam a outros países como a ‘democracia’ funciona. Enfurecedor”, afirmou Medea Benjamin, co-fundadora da entidade anti-guerra CodePink.

O crime de guerra ocorreu no dia 19 de março de 2019 e vinha sendo varrido, cuidadosamente, no Pentágono e em outras instâncias, para debaixo do tapete, enquanto Washington dá preleções ao mundo inteiro sobre “valores” e “direitos humanos”.

Pela jurisprudência de Nuremberg, que deu fim à impunidade dos nazistas, trata-se de um crime de guerra inquestionável, onde não há como esconder os vergonhosos esforços de ocultamento.

Um drone de alta resolução que operava na área registrou tudo em tempo real, o que pôde ser visto no comando norte-americano no Qatar.

Esse detalhe, do presenciamento à distância, inclusive lembra outro crime de guerra, aquele que Julian Assange e Chelsea Manning escancaram ao mundo, o “assassinato colateral” de civis em Bagdá em 2007 por um helicóptero Apache monitorado pelo comando.

“Esse relatório sobre o encobrimento deve fazer seu sangue ferver”, conclamou a indignada Medea, talvez hoje a mais conhecida pacifista norte-americana.

Eram os dias finais do que havia sido o califado de Raqqa – cidade quase totalmente destruída por bombardeio norte-americano -, e as mulheres e crianças estavam amontoadas numa margem de rio, quando o F15E chegou, lançou sua carga, matando civis, fez meia volta e despejou uma bomba maior, trucidando os que por ventura escaparam quase por milagre.

Ao invés de uma investigação sobre a chacina, foi organizada uma enorme operação abafa. Imagens de satélite de quatro dias depois mostram a área já sob controle das tropas da coalizão, segundo o NYT, parecendo ter sofrido uma operação de demolição.

O jornal cita um ex-soldado das forças especiais, David Eubank, que chegou uma semana após o ataque: “O lugar foi pulverizado por ataques aéreos … Havia muita terra recém revirada e o fedor de corpos por baixo, muitos corpos.”

Na base do Qatar, um dos analistas que monitorava o drone lembra de um bate-papo na hora, em que alguém constata que acabamos de abater “50 mulheres e crianças”. O total seria, depois revisado para ‘70’ e em recente comunicação com o jornal novaiorquino o Pentágono admitiu 80 mortos civis.

Os jornalistas Dave Philipps e Eric Schmitt, que passaram meses investigando a chacina, tiveram acesso a documentos confidenciais e entrevistas. Na avaliação deles, o Pentágono fez movimentos para esconder o ataque catastrófico.

“O número de mortos foi minimizado. Os relatórios foram atrasados, higienizados e classificados. As forças da coalizão lideradas pelos Estados Unidos destruíram o local da explosão. E os principais líderes não foram notificados.”

Isso, apesar de um oficial ter advertido sobre o possível crime de guerra, que exigia uma investigação.

Demitido

Gene Tate, um ex-oficial da Marinha dos EUA que trabalhou no inquérito do inspetor-geral do Pentágono sobre o ataque, disse ao NYT foi forçado a deixar seu cargo, por insistir na apuração. O crime, cometido sob o governo Trump, continuou sob encobrimento já sob Biden.

“A liderança parecia tão determinada em enterrar isso. Ninguém queria ter nada a ver com isso”, disse Tate. “Faz você perder a fé no sistema quando as pessoas estão tentando fazer o que é certo, mas ninguém em posição de liderança quer ouvir.”

Na recente admissão do Pentágono sobre o episódio, o comando norte-americano reconhece que 80 pessoas foram mortas, mas insiste na mentira de que os ataques aéreos eram “justificados”. Segundo o Pentágono, as bombas “mataram 16 combatentes e quatro civis”.

Quanto às outras 60 pessoas mortas, o comunicado afirma “não estar claro” se são civis, em parte porque “mulheres e crianças no Estado Islâmico às vezes pegam em armas”. Quanto a isso, conforme apuraram os jornalistas do NYT, após o bombardeio observadores civis “encontraram pilhas de mulheres e crianças mortas”.

O Times admite: “Os drones da coalizão vasculharam o acampamento 24 horas por dia durante semanas e sabiam quase cada centímetro, disseram os oficiais, incluindo os movimentos diários de grupos de mulheres e crianças que se reuniam para comer, orar e dormir perto de um rio íngreme”.

O honrado tenente-coronel Korsak

Foi um advogado militar, o tenente-coronel Dean Korsak, que ordenou aos operadores de drones e tripulações de caças que guardassem as imagens da atrocidade para investigações. Ele então “relatou o ataque à sua cadeia de comando, dizendo que era uma possível violação da lei de conflito armado – um crime de guerra – e os regulamentos exigiam uma investigação independente e completa”, relata o Times.

Como resposta, ele foi informado de que provavelmente teria seu relatório ignorado já que só são feitas investigações sobre vítimas civis “apenas se houver potencial para alta atenção da mídia, preocupação com o clamor da comunidade/governo local, preocupação que imagens sensíveis possam vazar”.

Foi Korsak que acionou Tate. Uma equipe do escritório de Tate chegou a decidir que as alegações de crimes de guerra eram “extremamente confiáveis”.

As tentativas de acionar o comitê do Senado de Serviços Armados foi igualmente recebida com um muro de indiferença. “Estou me colocando em grande risco de retaliação militar por enviar isto”, escreveu Korsak em um e-mail para o comitê. O comitê do Senado não respondeu a Korsak ou Tate. O gabinete do senador Jack Reed, o presidente democrata do comitê, recusou-se a discutir a atrocidade de Baghuz com o Times.

Deixem a Síria viver

A repercussão sobre o crime de guerra na Síria continua se ampliando. “Isso é nada menos que uma conspiração criminosa”, disse Daniel Mahanty, do Center for Civilians in Conflict. “Eles destruíram o local do ataque e manipularam as evidências. Quem vai para a cadeia por isso?”

Para Trita Parsi, vice-presidente executiva do Quincy Institute for Responsible Statecraft, os Estados Unidos “precisam deixar a Síria o mais rápido possível”. “Nossa presença militar lá nos deixa MENOS seguros!”, acrescentou.

A imediata retirada das tropas norte-americanas ilegalmente na Síria também foi pedida pelo CodePink: “Não se engane. Haverá mais dessas atrocidades e mais acobertamentos sujos se ficarmos. Não podemos permitir isso.”