EUA: papéis do Pentágono confirmam mortes de civis no Iraque e Síria

Fumaça após bombardeio dos EUA na cidade de Al-bab na Síria, no dia 2 de fevereiro de 2017.

(Khalil Ashawi/Reuters)

O massacre de milhares de civis pelos bombardeios dos EUA na Síria e Iraque no período 2014-2018 – a mais do que já se sabia -, revelado na semana passada pelo jornal The New York Times, levou o portal Fundação Cultura Estratégica a denunciar Washington como o “regime dos assassinatos em massa” com suas guerras ilegais, e a desancar a arrogância e cinismo com que faz sermões ao mundo inteiro sobre “direitos humanos”, “lei internacional” e “democracia”.

“Milhares de mortes de civis, incluindo crianças, estão documentadas”, como mostra em detalhes relatório sobre bombardeios cometidos pelos EUA entre o final de 2014 e o início de 2018.

Os “Arquivos das Baixas Civis” do Pentágono – 1300 relatórios de ataques aéreos, com 5.400 páginas – foram expostos pelo NYT, depois de cinco anos de disputa judicial para obter acesso. A denúncia inclui também depoimentos de sobreviventes obtidos pelo jornal em centenas de locais na Síria e no Iraque.

Nenhum desses registros mostra quaisquer conclusões de irregularidades nas ações dos militares dos EUA.

Observa o portal que, considerando que forças dos EUA ocuparam ou intervieram na Síria e no Iraque por mais de uma década, “pode-se presumir com segurança que a escala total dos assassinatos perpetrados é ordens de magnitude maior”.

O portal norte-americano Common Dreams lembrou que esses bombardeios – que mataram milhares de civis sírios e iraquianos como agora revelado – foram classificados pelo presidente Barack Obama de “a campanha aérea mais precisa da história”

O que vem se somar, como registra o portal Cultura Estratégica, ao 1 milhão de iraquianos mortos desde a invasão e destruição do país pelos EUA em 2003.

Hora, data, local e nomes

Não faltam detalhes. Os novos “Arquivos” do Pentágono registram horários e datas dos ataques, vilas, aldeias e cidades atingidas, e as famílias, mães, pais e filhos que são vítimas. Embora seja enorme a quantidade de dados, ainda são apenas “uma pequena fração de toda a extensão dos assassinatos em massa”.

“O que também é perturbadoramente claro é a lógica fria e bárbara dos chefes e figuras importantes do Pentágono nos governos Obama e Trump. O presidente em exercício Joe Biden foi vice-presidente na administração Obama (2008-2016)”.

As mortes de civis foram consideradas “danos colaterais” pelo Pentágono. “Famílias inteiras foram conscientemente obliteradas em um esforço vago e aleatório para matar suspeitos de terrorismo ou simplesmente para estender o poder imperial dos EUA”.

Impunidade

Há, ainda, a extensão a que o acobertamento dos crimes de guerra chegou. “Nenhum membro do exército americano ou da administração da Casa Branca jamais foi disciplinado – mesmo internamente – pela criminalidade galopante”.

A divulgação dos novos “Arquivos” do Pentágono coincide com escândalo provocado pela chacina de uma família de 10, incluindo crianças, em Cabul, no final de agosto, durante a retirada dos EUA do Afeganistão. Sem surpresa, “o Pentágono se investigou e concluiu que ninguém era o culpado pela carnificina dos drones”.

“Esse caso ganhou alguma publicidade porque as circunstâncias de um recuo histórico dos Estados Unidos estavam no noticiário”, destaca o portal. “Agora imagine como foi fácil para o Pentágono enterrar outros assassinatos em massa de civis que ocorreram em áreas remotas da Síria e do Iraque”.

Observa ainda o portal que os novos “Arquivos” do Pentágono são evidência substantiva para processar líderes e militares dos EUA por crimes de guerra – embora pareça ainda estar distante a ressurreição da jurisprudência de Nuremberg. De toda forma, são uma exposição devastadora “da falência moral que permeia Washington”.

Propaganda

O editorial também repudia a falta de vergonha na cara mostrada por Washington em sua recente ‘cúpula pela democracia’, e saraivada de acusações contra a China e a Rússia, países aos quais tenta impingir o rótulo de “autocráticos”.

Para o portal, a mídia imperial, em geral, com honrosas exceções, recebeu os novos arquivos sobre massacre de civis com um silêncio impressionante. “Isso ilustra como a mídia ocidental é, na verdade, um sistema de propaganda que não consegue computar ou comentar informações incompatíveis com sua cobertura diária”. Ou, dito de forma mais direta, “uma mídia de massa ao estilo Goebbels, que finge publicar notícias em vez de propaganda”.

Cárcere para os denunciantes

Como lembra Cultura Estratégica, os programas de assassinato em massa descobertos pelos “Arquivos das Baixas Civis reiteram as denúncias anteriores dos crimes de guerra norte-americanos feitas por Julian Assange e o Wikileaks.

“É uma abominação que Assange esteja sendo perseguido e aguardando extradição para os Estados Unidos, onde pode ser preso pelo resto de sua vida sob a acusação forjada de ‘pirataria e espionagem’”.

Por sua vez o Common Dreams chama a atenção para outro preso político, Daniel Hale, o principal denunciante dos crimes de guerra com drones na Síria e Iraque.

“Em 27 de julho de 2021, o denunciante Hale foi condenado a 45 meses de prisão federal por expor o verdadeiro número de civis do programa de drones dos EUA. ‘Estou aqui porque roubei algo que nunca foi meu para tirar – uma vida humana preciosa’, disse Hale ao ouvir sua sentença.

É como postou um pesquisador do Conselho Nacional Iraniano-Americano, Assal Rad: “Daniel Hale, Julian Assange, Chelsea Manning foram todos presos por tentarem revelar a mesma coisa. Sabemos que ataques aéreos dos EUA têm matado civis todo esse tempo, mas os crimes de guerra continuam porque prendemos os denunciantes em vez dos criminosos de guerra”.

E conclui o portal Cultura Estratégica: “É espantoso que o mundo esteja sendo levado ainda mais para tensões perigosas e possível confronto, por um regime [os EUA] cujo histórico é tão nefasto e hipócrita”.