EUA: escassez de leite em pó não tem data para acabar, admite Biden

Prateleiras de leite em pó vazias nos supermercados dos EUA

(Kaylee Greenlee Beal/Reuters)

A escassez de leite em pó infantil nos Estados Unidos continua a se agravar à medida que as lojas em todo o país ficam sem estoque e as prateleiras permanecem vazias, enquanto as famílias buscam alternativas aos produtos comerciais para alimentar seus bebês e crianças pequenas. Na quarta-feira (1º/06), o presidente Joe Biden disse que levará “mais alguns meses” até que a situação volte à normalidade, após autoelogiar-se pelos “grandes avanços” em relação à crise.

A taxa média nacional de falta de estoque de leite em pó para bebês e para necessidades especiais passou de 70%. Segundo a Datasembly, uma empresa de análise de informações de produtos de varejo em tempo real, chega a mais de 80% na Califórnia, Missouri, Minnesota, Nevada, Montana, Louisiana, Arizona e Utah.

Crise à qual o governo Biden respondeu de forma cosmética, com a Operation Fly Formula [nos EUA o leite em pó infantil é conhecido como ‘fórmula’], em que aeronaves militares buscam comida para bebês no exterior.

Em torno desse reabastecimento aéreo – é ano de eleições intermediárias -, a Casa Branca montou um verdadeiro circo, desde um logotipo com uma mamadeira alada até à exibição de soldados uniformizados descarregando pallets com o leite em pó infantil.

O que foi chamado de “teatro político” pelo ex-comissário associado da FDA, o órgão federal de medicamentos e alimentos, Peter Pitts.

A situação se tornou crítica nos EUA desde fevereiro, quando a fábrica de leite em pó infantil da Abbott Labs em Sturgis, Michigan, foi fechada pela FDA na sequência da infecção de quatro bebês com a bactéria Cronobacter sakazakii, depois de terem consumido uma das fórmulas infantis produzidas pela Abbott. Dois deles acabaram por morrer, o que levou à retirada do leite em pó da empresa dos supermercados.

A falta do produto levou a uma corrida aos mercados e farmácias, gerando açambarcamento e tornando crônico o quadro de desabastecimento.

Outro agravante é a redução de aleitamento materno nos EUA, com as mães se vendo forçadas a deixar de amamentar antes do previsto, pela falta da licença maternidade remunerada no país.

Apenas um em cada quatro bebês é amamentado exclusivamente até aos seis meses e menos da metade até aos três meses, segundo os dados de 2020 do Centro de Controle e Prevenção de Doenças.

O mercado de nutrição pediátrica dos EUA é dominado em 90% por quatro fabricantes – Abbott, Mead Johnson Nutrition, Nestlé USA e Perrigo. A Abbott Labs fornece 40% do mercado com seus produtos Similac, Alimentum e EleCare, todos fabricados nas instalações de Sturgis, cuja reabertura foi marcada para o dia 4 de junho.

Tamanha monopolização – e conseqüentes riscos – levou esta semana, a Comissão Federal do Comércio (FTC, na sigla em inglês) a iniciar uma investigação sobre os fabricantes de leite em pó infantil para descobrir se as fusões de empresas contribuíram para a escassez nacional.

Segundo a presidente do órgão, Lina Khan, será também investigada a possibilidade de manipulação de preços ou outra situação de discriminação econômica ilegal entre fabricantes e distribuidores, que possa ter limitado a disponibilidade de leite em pó para mercados, farmácias e outras lojas.

Bancos de leite humano têm registrado um aumento dramático de solicitações de instalações médicas com UTIs neonatais. Jennie Noren, diretora de operações de um banco de leite de South Salt Lake (Utah), disse que os pedidos hospitalares habituais “dobraram e quase triplicaram para alguns hospitais”.

Ela acrescentou que o banco leva cerca de 10 dias a partir do momento em que o leite é doado para processá-lo e entregá-lo aos hospitais. “Hospitais onde eles usavam uma fórmula especial, agora estão usando leite de doadora humana porque não têm acesso ao produto.”

Meios de comunicação dos EUA têm entrevistado mães desesperadas pela carência de alimentos infantis para crianças com necessidades especiais. Ao Tucson Sentinel, a moradora do Arizona Sandramaria Hicks relatou que precisa de um leite sem lactose, para seu filho de 10 meses, Wesley, que é alérgico. “Fomos a todos os lugares, mesmo a 50 milhas, e não conseguimos encontrar nada”. Cena que se repete no país inteiro.

Em solidariedade às mães e crianças que estão vivendo esse drama, os bancos de leite materno viram um aumento nas doações. O Mother’s Milk Bank of Montana, em Missoula, relata que experimentou um crescimento nos estoques e seus freezers agora estão cheios. Taylor Pfaff, diretor de operações, disse ao Missoulian: “Na verdade, estávamos sem leite durante a maior parte de janeiro e fevereiro. E então nós fizemos um grande pedido de ajuda. E tivemos muitos doadores. Então, temos muito mais doadores do que tivemos em anos, o que é ótimo”.

Na quarta, a Casa Branca anunciou a chegada iminente de leite infantil da Austrália – cerca de 172 toneladas, suficientes para fabricar cerca de 4,6 milhões de mamadeiras – e do Reino Unido – cerca de 136 toneladas, suficientes para 3,7 milhões de mamadeiras.