Estudo de Universidade de NY descarta eficácia da cloroquina

Realizado pela equipe da Universidade de Albany, estudo envolveu 1.438 pacientes internados em 25 hospitais de Nova Iorque - foto Portal Panorama

A taxa de mortalidade entre os pacientes tratados com hidroxicloroquina foi semelhante à observada nos que não tomaram o medicamento, assim como à das pessoas que receberam hidroxicloroquina combinada com o antibiótico azitromicina, diz estudo da Universidade de Albany, Nova Iorque

São as constatações liberadas a partir do denominado “estudo de observação da associação do tratamento com hidroxicloroquina e azitromicina em mortalidade hospitalar em pacientes com Covid-19 no Estado Nova Iorque”, que foi encabeçado pelo Dr. Eli Rosenberg e publicado na revista científica JAMA (iniciais Journal of the American Medical Association) no dia 11 de maio.

O trabalho buscava responder à seguinte questão: “Entre os pacientes com Covid-19, há alguma associação entre o uso da hidroxicloquina com ou sem azitromicina e a mortalidade em hospitais?”

O estudo realizado pela equipe da Universidade de Albany, que envolveu 1.438 pacientes selecionados a partir de um levantamento inicial de 2.362 internados em 25 hospitais, um total de 88,2% de todos os pacientes hospitalizados na região no período, concluiu que em nenhum dos casos houve mudanças “estatisticamente significantes” o que quer dizer que “entre pacientes hospitalizados com Covid-19, o tratamento com hidroxicloquina, azitromicina ou ambos não se associou a mortalidade hospitalar significativamente mais baixa”.

Acrescenta que “tem havido considerações acerca da importância da hidroxicloroquina com ou sem azitromicina como possível terapia em pacientes Covid-19. No entanto há dados limitados sobre a eficácia” dos medicamentos e, além disso, a cloroquina “está associada a eventos adversos”.

O estudo partiu de uma amostra aleatória de pacientes com o vírus, conforme confirmado em exames laboratoriais em pacientes admitidos entre os dias 15 e 28 de março em 25 hospitais novaiorquinos. Os dados terminaram de ser sistematizados em 24 de abril.

“Foram coligidos resultados de mortalidade, assim como os casos de parada cardíaca e anormalidades encontradas através de cardiogramas, incluindo arritmias”, obtendo uma média do dobro de ocorrências entre os que tomaram a hidroxicloroquina em relação aos que não o fizeram. Também menciona “casos de diarreia e hipoglicemia”, entre os pacientes que foram tratados com a hidroxicloroquina.

A equipe destacou a importância do trabalho ter sido realizado em Nova Iorque devido ao fato de que neste Estado o número de casos e mortestem sido o maior em todo o país.

A equipe esclarece que o interesse pelo estudo foi despertado a partir de conclusões positivas obtidas na França, mas ressalta que as conclusões ali obtidas (que partiram de observações em 30 e depois 80 pacientes) “o foram após curto acompanhamento e amostra muito pequena”, entre outras limitações. (Além da malária, a cloroquina é usada no tratamento de artrite reumatoide e lúpus. O medicamento ganhou projeção mundial como possível solução para o coronavírus após a publicação de um trabalho produzido na França, em meados de março, realizado pelo infectologista Didier Raoult, da Universidade de Medicina de Marselha).

A equipe de Albany também ressalta que o período de observação agora utilizado foi de duas semanas “para garantir um acompanhamento em tempo suficiente”, além de trabalhar “com um número suficiente de pacientes” e ainda verificar resultados “em amostras em dimensões relativamente balanceadas”.

O documento divulgado destaca que “foram utilizados, para este estudo, 12 enfermeiras e 6 epidemiologistas, sob supervisão médica” e que os dados foram coligidos em formulários padronizados e em forma digital para se chegar aos elementos acerca de 1.438 pacientes divididos em 4 grupos de acordo com as medicações ministradas durante a hospitalização: 1 – hidroxicloroquina e azitromicina; 2 – somente hidroxicloroquina; 3 – somente azitromicina e 4 – nenhuma das duas drogas.

“A ausência de benefícios observados associados ao uso de hidroxicloroquina, em termos de mortalidade hospitalar, é consistente com dados recentemente divulgados em outros estudos”, diz o trabalho em suas conclusões.

Com base nestes resultados, o reitor da Escola Pública de Saúde na Universidade de Albany, Dr. David Holtgrave, afirma que “as implicações que se movem com rapidez a partir da pandemia do Covid-19 tornam necessário que examinemos tratamentos potenciais para a doença da forma mais rápida, mas da maneira mais cuidadosa possível. Este estudo observacional nos dá uma visão inicial importante acerca de questões chave relacionadas à prescrição de roteiros medicinais com uso de hidroxicloroquina, azitromicina e cloroquina. Infelizmente, não observamos benefícios da droga (hidroxicloroquina com ou sem azitromicina) neste grupo de pacientes hospitalizados seriamente doentes”.

Outra pesquisa sobre o tratamento com hidroxicloroquina, cujo resultado foi publicado na semana passada na revista britânica “The New England Journal of Medicine”, já havia apresentado conclusão semelhante. Da mesma forma, estudo, feito no Presbyterian Hospital, em Nova York e revisado por outros cientistas, não encontrou evidências de que a droga tenha reduzido o risco de entubação ou de morte pela Covid-19.

No estudo do Presbyterian Hospital foram acompanhados 1.376 pacientes que, com e sem o tratamento com a droga, apresentaram o mesmo risco de uma piora do quadro, necessidade de entubação e de morte, de acordo com os pesquisadores.

Apesar destas recentes conclusões de equipes estudiosas, acompanhando em torno de 2.800 pacientes no total, Bolsonaro, voltou a insistir, no dia 13, sobre o uso da medicação: “Não é minha opinião porque não sou médico, mas muitos médicos do Brasil e de outros países entendem que a cloroquina pode e deve ser usada desde o início mesmo sabendo que não há uma comprovação científica de sua eficácia”. Disse isso e depois do Brasil evoluir para o epicentro mundial, em termos de taxa de contágio, voltou a insistir na falácia da “quarentena vertical”, segundo a qual as pessoas mais novas devem ir para a rua trabalhar enquanto que os mais velhos ou doentes ficam em casa. Ou seja, esperando que aqueles que saíram tragam o vírus portas adentro.