Debate da volta às aulas deve girar em torno de garantias de segurança

Em live realizada na quarta-feira (17) pela Frente dos Sindicatos em Defesa da Vida e da Educação, o epidemiologista e pesquisador sobre a Covid-19, Pedro Hallal, defendeu a volta das atividades escolares e explicou que não há sentido em defender o retorno apenas quando todos estiverem vacinados.

O especialista, que é ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e coordenou o principal estudo epidemiológico sobre o coronavírus realizado no Brasil em 2020, considerou que há extremos neste debate. “A primeira questão é a seguinte: Eu acho que existem dois extremos nessa conversa. Eles não são igualmente errados, eu acho que os dois estão errados, mas um é muito mais errado que o outro”, apontou Hallal.

“O primeiro extremo são pessoas que eu diria negacionistas, a maioria delas, que acham que escola nunca deveria ter fechado, dizem que ‘foi um erro fechar escola’, que ‘isso não ajudou em nada’, que ‘não diminuiu a circulação do vírus’, o que é uma bobagem completa, totalmente demonstrado na literatura cientifica. Em outras epidemias é duvidoso, têm casos que foi importante fechar escola, têm outros que não. No caso do coronavírus, fechar as escolas foi correto”, prosseguiu o epidemiologista.

“No outro extremo da história tem o pessoal dizendo assim: ‘Só pode voltar às aulas quando toda a comunidade escolar estiver vacinada’. Por que este grupo está errado também? Primeiro, porque não tem nenhuma vacina aprovada para criança. Então assim, nós estamos falando em voltar com toda comunidade vacinada, mas essa comunidade inclui crianças, então estamos falando em voltar quando? Daqui um ano, daqui um ano e meio”.

Hallal considerou necessário uma ponderação para definir a melhor escolha. “Enquanto epidemiologistas temos que fazer a conta difícil que é: Qual é o prejuízo da criança estar fora da escola e qual o risco para ela, e para todo sistema, dela ir para a aula? Está errado dizer que só devem voltar às aulas quando todos estiverem vacinados. Partimos daí para começar a ver a questão”.

“No ano passado, eu fui questionado várias vezes sobre o tema da volta às aulas. Qual era a minha posição, que eu externei diversas vezes? A volta às aulas deve acontecer quando a epidemia no local – e aqui no Brasil, dá para dizer no estado -, tem que estar numa curva decrescente, é preciso evidências de que está caindo”, disse o epidemiologista.

Para Hallal, não há nenhum protocolo 100% seguro, mas ficar sem aula também é risco, principalmente para as crianças em situação de vulnerabilidade. “É preciso, também, um protocolo que dê segurança para a comunidade. Não é um protocolo que reduza a zero o risco, porque não tem como, mas é um protocolo que sabe lidar com o que pode acontecer. Por exemplo: Uma criança está com sintomas, o que é que eu vou fazer? Eu cancelo as aulas daquela turma por 15 dias? O que eu faço com professores? Porque os professores daquela turma, muitas vezes também dão aulas para outras turmas. Então, como eu penso essa engrenagem toda?”.

“O como voltar, hoje, é mais importante do que se tem que voltar ou não”, salientou o especialista.

PREJUÍZO

“Agora, se você me perguntar assim: Dá pra pensar em dois anos, as crianças ficarem somente em aula remota? Não. O prejuízo é muito maior que o benefício. Então, a gente tem que voltar ás aulas, em 2021, presencial. Agora, o momento exato que isso vai acontecer, vai depender das condições”, explicou Hallal.

O epidemiologista fez uma analogia da situação com uma criança aprendendo a andar de bicicleta. “Eu tenho feito uma afirmação e agora é bom falar isso, pois meu filho de 11 anos está aqui do meu lado, esse movimento de voltar às aulas vai ter um pouco da sensação de tirar a rodinha da bicicleta. Nós temos que aceitar isso. Tirar a rodinha da bicicleta é difícil para uma criança. Para nós, a gente fala que é fácil hoje, mas lá atrás não foi e voltar às aulas vai ser difícil para nós também”, salientou.

“A gente tem que tirar a rodinha, mas quando a gente tira a rodinha? A criança cai depois que tira a rodinha? Às vezes cai. Mas a gente não tira a rodinha quando a criança cai toda hora, uma vez atrás da outra”, pontuou.

Para Hallal, isso quer dizer que “terão alguns infectados decorrentes da volta às aulas”. “Mas por que o epidemiologista diz que está perto da hora de ter que voltar? Porque quando o risco de contaminação está quase igual com a escola fechada ou com a escola aberta, aí não faz sentido a escola estar fechada, pelos inúmeros outros benefícios”, ressaltou.

“Então, por exemplo, uma situação concreta que eu vivo aqui: a criança não está indo na escola por causa do risco, mas tem outro da família dela que vai, aí volta para casa na mesma casa que ela. Então, não faz muito sentido”, explicou.

“A questão é pensar nos protocolos. A questão se deve ou não voltar, ela já está superada. É momento da gente pensar o retorno que não é daqui a seis meses, é para daqui dias, semanas. Agora, infelizmente, os protocolos que têm sido elaborados são muito ruins, ainda. Então, teve todo esse tempo para elaborar protocolos e infelizmente não se elaborou bons protocolos na maioria dos casos”, frisou o epidemiologista.

Em seguida, Hallal falou sobre os protocolos a serem adotados para garantir um retorno às aulas seguro. “A garantia, nas escolas, dos protocolos de proteção individual (máscara para todos, quantidade adequada de pias para manutenção da higiene das mãos, disponibilização de álcool gel e formas efetivas para evitar a aglomeração); orientações precisas para o manejo dos casos de contaminação pela Covid-19 (como fazer o isolamento, testagem dos alunos da turma e dos professores que tiveram contato); máximo possível de pessoas vacinas e a inclusão das trabalhadoras e trabalhadores nos grupos prioritários”.

Ele destacou que, diante da inércia do governo federal, é preciso pressionar os gestores estaduais e municipais, para que construam protocolos melhores e mais participativos. Ele citou o exemplo do setor do comércio, serviços e indústrias, que tiveram participação na elaboração dos seus protocolos e afirmou que isso não está acontecendo na educação. “Deixar que os protocolos sejam construídos somente pelos gestores será pior, os sindicatos precisam participar”.