“Conjuntura é desoladora para a indústria brasileira”, diz professor

A queda na produção industrial em outubro na comparação com setembro preocupa não apenas por ter sido a quinta consecutiva, mas também pela característica disseminada da retração nos últimos meses. A opinião é do pesquisador do Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia da Unicamp Marco Antonio Rocha, para o qual a queda do rendimento dos trabalhadores e a elevada taxa de desemprego dificultam uma retomada que já não é fácil diante dos novos desafios do cenário internacional.

“Temos demanda doméstica que está diminuindo e incertezas com a nova variante, além do estrangulamento no comércio internacional gerando escassez de matérias primas. É um cenário incerto. Não se vislumbra crescimento da economia nem para o ano que vem, os juros altos encarecem o custo de capital, a captação de crédito, e o principal é que o rendimento continua caindo, o que torna a conjuntura para a indústria um tanto desoladora”, analisa, em entrevista.

Não por acaso a indústria alimentícia esteve entre as que mais sofreram no mês de outubro. “No setor de alimentos, o beneficiado da alta dos preços é o produtor primário. Ela chega como pressão de custo para a indústria, que não tem capacidade de repassar a margem até porque há uma queda no rendimento médio e uma taxa alta de desemprego, que tornam menos atrativos o investimento e o aumento de produção”, diz Rocha. “Como o rendimento médio caiu, os setores que mais sofreram estão ligados a bens de consumo, sejam duráveis ou não duráveis”, acrescenta.

Em outubro, outro setor que caiu consideravelmente foi a indústria extrativa, movimento que o economista atribui à queda nos preços das commodities minerais, em meio a disputas de fornecimento para a indústria siderúrgica chinesa. Segundo ele, o único dado positivo no mês foi o crescimento na produção de bens de capital, que são as máquinas que as indústrias vendem para outras indústrias. “Mas o comportamento de bens de capital ao longo do ano variou muito, havendo resultados negativos sobre outros positivos, então um dado sozinho não diz muita coisa. A alta pode ser por reposição de maquinário, não se pode dizer que há ciclo positivo de produção de bens de capital”, pondera.

Apesar de, no acumulado do ano, a produção industrial acumular alta em relação a 2020, Rocha não considera o dado animador. “Mesmo no acumulado 12 meses tem-se que olhar com cuidado porque temos como referência os piores momentos da pandemia, a comparação é feita sobre uma base muito frágil. No mês a mês a retração da produção industrial está se tornando mais generalizada, atingindo mais setores. Ao longo desse ano, a indústria teve alguns meses positivos, como maio, o mais positivo, mas veio seguido de queda. Não parecer ser nada sustentável, porque no conjunto da indústria há um cenário de muita instabilidade relativa à produção”, afirma.

Para o economista, há fatores de longo prazo bem como conjunturais influenciado o desempenho negativo da indústria brasileira. “No curto prazo, passamos por desorganização das cadeias produtivas, escassez de insumo, inflação de custos e uma série de incertezas sobre o andamento da economia brasileira que afasta investimentos. Mas há razões estruturais, mais profundas; a economia já vinha passando por um processo de desindustrialização”, ressalta.

De acordo com Rocha, o governo deixou de preparar a indústria local para uma inserção na cadeia global: “O que a crise de 2008 nos ensinou é que, na retomada da produção, ocorre um processo bem drástico de acirramento da competição, exigindo um reposicionamento da indústria brasileira”. Contudo, no pós-pandemia, ele não aconteceu.

Por conta deste despreparo, segundo ele, a indústria brasileira vai sofrer em 2022, como sofreu em 2021. “Há uma série de fatores que criam um ambiente hostil para a economia brasileira. A nossa diplomacia comercial está completamente inoperante, o que se soma ao comportamento dos custos e escassez de matéria-prima. Falta o mínimo em termos de planejamento e fomento no momento de retomada. É esperado que a indústria brasileira reaja como está reagindo”, conclui.