Colômbia: milícias cometem 45 assassinatos em duas semanas

Enterro de cinco menores mortos por milicianos em Llano Verde, na cidade de Cali | Foto: Juan Pablo Rueda - El Tiempo

O terrorismo instalado na Colômbia provocou nove massacres e soma 45 assassinatos em apenas duas semanas, denunciam organizações humanitárias que se mobilizam para barrar o banho de sangue e exigir do presidente Iván Duque o cumprimento dos Acordos de Paz.

Conforme Yesid Zapata, da Fundação Sumapaz pelos Direitos Humanos, “os lugares onde estão ocorrendo os massacres são, paradoxalmente, aqueles onde se registra maior presença de forças públicas”. E, não à toa, advertiu, tratam-se dos “pontos estratégicos do país”.

“Lamentavelmente, pensar diferente continua sendo um delito e isto evidencia que não avançamos neste ponto”, esclareceu Zapata, frisando que “nós, defensoras e defensores de direitos humanos que queremos elevar um grito e denunciar o que está sucedendo em nosso território, não estamos apenas sendo criminalizados, mas também ameaçados, agredidos e assassinados”.

A título de comparação, a Organização das Nações Unidas apontou que foram registradas 11 matanças em 2017; 29 em 2018 e 36 no ano passado. E somente nos oito primeiros meses de 2020 já somam 45.

“O avanço da expansão paramilitar reflete não apenas o fracasso dos processos de justiça e paz, mas a falta de vontade do atual governo por desmontar as estruturas milicianas, o que mostra a conivência de agentes do Estado em diferentes regiões do país”, condenou Camila Galindo, advogada assistente do Observatório de Direitos Humanos da Coordenação Colômbia-Europa-EUA. “O partido do governo e seu grupo político evidenciaram estar comprometidos com a reativação da guerra”, acrescentou.

Na prática, com o beneplácito – e muitas vezes com a colaboração e a participação ativa de tropas do Exército – milícias armadas passam a controlar o negócio do narcotráfico e outras atividades ilegais matando camponeses e indígenas para amedrontar a população e obrigar os moradores ao deslocamento forçado.

A mais recente onda de massacres veio somente uma semana após terem se completado mil dias da assinatura dos Acordos de Paz entre o governo e o partido Força Alternativa Revolucionária do Comum (FARC) – anteriormente Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. De novembro de 2016 para cá, perderam a vida mais de mil ex-combatentes das FARC, dirigentes populares e defensores dos direitos humanos.

Sistematizando dados do Censo Nacional Agrário, a Oxfam realizou o informe “Radiografia da Desigualdade” em que conclui que a Colômbia é o país da América Latina com maior concentração fundiária, onde 1% das maiores propriedades detêm 81% do total das terras. No outro lado da balança, um milhão de famílias camponesas colombianas têm menos terra que uma vaca dos grandes latifúndios.

Os movimentos sociais continuam cobrando a apuração e punição do assassinato do jornalista indígena Abelardo Liz, da emissora Nación Nasa Stereo. Abelardo, de 34 anos, cobria uma manifestação no dia 13 de agosto, em Cauca, quando ocorreu um enfrentamento dos manifestantes de comunidades indígenas com a “força pública”. O repórter recebeu três tiros disparados exatamente de onde se encontravam os oficiais do Exército, que continuam negando responsabilidade pelo crime.

*******