Câmara dos EUA afasta deputada ligada a teorias da conspiração

Marjorie Greene é deputada ligada aos extremistas do Qanon e jura que “Trump é agente divino” 

(Getty Images)

A Câmara dos deputados dos EUA aprovou na quinta-feira (4) a destituição da deputada republicana Marjorie Taylor Greene dos comitês de Educação e Orçamento, por 230 a 199, com 11 deputados republicanos votando a favor.

A votação foi encaminhada após recusa dos republicanos de que eles próprios tomassem a iniciativa e agissem de forma moralmente correta, com o líder da minoria, Kevin McCarthy defendendo a tese de que o partido deve ser uma “grande tenda” – isto é, com lugar garantido para supremacistas brancos, terraplanistas e outros tipos de degenerados – e alegando sequer saber “o que era QAnon”.

Na legislação passada, o próprio McCarthy afastara de um comitê da Câmara um deputado republicano que se excedera no racismo explícito.

O grupo extremista QAnon – cujos vínculos agora Greene nega – surgiu nos esgotos digitais asseverando existir uma conspiração de “satanistas pedófilos com os democratas e o Estado Profundo” para impor o “globalismo” e o “tráfico sexual de crianças”, e que no auge do delírio diz crer que o salvador do mundo será o bilionário de topete alaranjado: “acreditem no plano”.

Como registrou o articulista do Common Dreams, Juan Cole, até recentemente Greene classificou “os principais tiroteios em escolas como ataques com bandeira falsa encenados por defensores do controle de armas”.

Segundo Cole, “também acredita que Trump é um agente divino nomeado para acabar com uma rede de pedófilos do Partido Democrata que bebe sangue de crianças, e que um laser espacial financiado por judeus provocou incêndios florestais na Califórnia”.

Evitando brigar com Trump, os republicanos que aparentam ser gente mais normal se viraram como puderam para sustentar Greene, desde alegar que os piores comentários e insultos foram “anteriores à posse” até dizer que o veto a ela estabeleceria um “precedente perigoso” na Câmara.

Argumentação prontamente rebatida pela presidente da Câmara, Nancy Pelosi, que disse que “se algum de nossos membros ameaçasse a segurança de outros membros, seríamos os primeiros a retirá-los de um comitê”.

Horas antes da votação de quinta-feira (4), Greene fez um discurso no plenário da Câmara, onde alegou ter mais recentemente reconhecido as falsidades e perigos das narrativas do QAnon. Ela descreveu ter “tropeçado” com o QAnon no final de 2017 e postado sobre isso no Facebook por estar “chateada com as coisas e não confiar no governo”.

Greene ainda teve o desplante de dizer que o Congresso, enquanto tolerava “membros que toleravam motins [do Black Lives Matter] que feriram o povo americano, atacam policiais, queimam empresas e cidades”, queria “condená-la e crucificá-la em praça pública” por “palavras” que dissera e culpou também a mídia.

Tudo isso para fugir de falar do que realmente ela disse ou postou. Como o comentário no Facebook em janeiro de 2019 que dizia que “uma bala na cabeça seria o jeito mais rápido” para remover Pelosi.

Em setembro passado, Greene postou uma foto sua empunhando um rifle de assalto ao lado de imagens das deputadas democratas progressistas Alexandria Ocasio-Cortez, Ilhan Omar e Rashida Tlaib, com a legenda, por si só evidente, “o pior pesadelo do esquadrão” [que é como as três deputadas ficaram conhecidas].

No Senado, onde o trumpismo não está com tanta largueza quanto na Câmara, o senador republicano John Thune, o segundo nome do partido, alertou na quinta-feira (4) que o partido precisa “fugir dos membros que se metem em teorias da conspiração”. “Não acho que seja um curso de ação produtivo ou que leve a muita prosperidade política no futuro”, disse Thune.

O líder da minoria do Senado Mitch McConnell esta semana condenou a adoção de “mentiras malucas e teorias da conspiração” de Greene como um “câncer para o Partido Republicano”.

“Por que Kevin McCarthy continuaria a se associar e à Conferência Republicana com alguém que o líder Mitch McConnell caracterizou como um câncer?”, questionou o deputado Hakeem Jeffries, presidente do Caucus Democrata. “A última vez que verifiquei, os cânceres precisam ser eliminados e não podem formar metástases”.