Biden volta a insultar Putin no afã de escapar da queda nas pesquisas

Biden volta a insultar Putin no afã de escapar da queda nas pesquisas

(Scott Olson/AFP)

Diante da inflação recorde de quatro décadas, de 8,5% em março, e alertas sobre ‘estagflação’ – carestia mais recessão -, o presidente Joe Biden, cujo tsunami de sanções contra a Rússia serviu para agudizar uma tendência que já estava em curso desde o ano passado, achou por bem culpar “o genocida Putin” por tudo, em discurso na terça-feira (12) no qual não conseguiu esconder seu mal estar diante das eleições de novembro.

“O orçamento de sua família, sua capacidade para encher a dispensa, nada disso deveria depender de um ditador que declara guerra e comete genocídio do outro lado do mundo”, disparou o presidente.

Para o chefe de Estado de um país fundado na limpeza étnica (“índio bom é índio morto”) e que desde o final da II Guerra Mundial matou muitos milhões de civis em várias guerras de agressão – Coreia, Vietnã, Panamá, Iugoslávia, Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, só para ficar nas mais notórias -, é muita desfaçatez abrir a boca para falar sobre o assunto.

Ainda mais em se tratando de Biden, cujo vídeo, quando era senador, se gabando de que foi “dele a ideia de bombardear as pontes de Belgrado”, recentemente voltou à voga, e cujo envolvimento na tragédia na Ucrânia é tal que nomeou o filho Hunter para uma sinecura em empresa privada de gás ucraniana logo após o golpe de 2014.

Aliás, o insulto é uma reincidência, já que no seu primeiro ano de mandato, com um “mmm” Biden aquiescera à provocação de um repórter sobre se ele achava que Putin era “um assassino”.

Na época, Putin prontamente retribuiu: “quando avaliamos outras pessoas, outros Estados, outros povos, estamos sempre nos olhando no espelho. Sempre nos vemos lá”.

E foi direto ao ponto: a classe governante americana foi formada na época da conquista do continente pelos europeus, “o que estava ligado à eliminação da população local”, ao “genocídio direto das tribos indígenas”.

Sem “escalada verbal”, pede Macron

Advertindo que a escalada verbal não ajuda a acabar com a guerra na Ucrânia, o presidente francês Emmanuel Macron, anunciou que não irá usar tal palavra contra Putin.

Tal calúnia – “genocídio” – foi chave para isolar a Iugoslávia, na situação em que a União Soviética tinha sido extinta e a Rússia ainda não tinha se reerguido, e para impor o esquartejamento do país e criar “Kosovo” a partir de um enclave.

Não vai funcionar contra a Rússia agora, superpotência nuclear, sexta maior economia do planeta por paridade de poder de compra, com uma indústria cujas raízes estão no período soviético, maior exportador mundial de gás e segundo maior de petróleo, fornecedor imprescindível desde titânio até fertilizantes e grãos, amizade estratégica com a China e laços profundos com outros povos, e com um líder da estatura de Putin.

Como diz a conhecida fábula sobre a assembleia de ratazanas, quem é que vai botar a sineta no gato russo?

Aos olhos de Biden, o compromisso da Rússia de “desnazificar” a Ucrânia – isto é, apoiar os ucranianos que querem ver extirpados os nazistas ali no poder sob o guarda-chuva da CIA e derrogada a ideologia tóxica do Estado ‘racialmente puro ucraniano’ e de limpeza étnica -, talvez seja isso o ‘genocídio’ de que o senil fala.

Afinal, são nazistas, mas são: “our nazis”.

Se não se mostra à vontade para embarcar no expresso de Biden e seu “império das mentiras” – é como Putin designa os EUA e sua mídia -, o presidente francês optou por não queimar as pontes com os caluniadores.

“Eu diria que a Rússia desencadeou unilateralmente uma guerra brutal, que está estabelecido que o Exército russo cometeu crimes de guerra e que agora é necessário encontrar os responsáveis e que respondam ante a Justiça”, declarou Macron à TV pública France 2.

Como é público e notório, não “se estabeleceu” que o exército russo “cometeu crimes de guerra”, já que não houve qualquer investigação forense, uma autópsia que seja, ou o devido processo.

Num mundo em que todos têm um celular, onde estão as imagens, captadas na hora em Bucha, mostrando os corpos ou até mesmo os responsáveis?

O primeiro ministro canadense Justin Trudeau fez questão de bater continência para Biden, repetindo o insulto contra Putin e sem se vexar de que sua vice seja a neta de um conhecido nazista de origem ucraniana.

Quanto aos desígnios hoje de Biden estão registrados em um discurso que fez para a nata dos monopolistas ianques no dia 21 de março, em uma reunião do Business Roundtable, que reúne os 180 maiores bancos e grupos econômicos dos EUA. Ali ele fez aos 37 minutos uma declaração “em voz baixa”, em que, no comentário do portal Zero Hedge, “deixou escapar a verdadeira agenda”.

Biden: “Acho que isso nos apresenta algumas oportunidades significativas para fazer algumas mudanças reais. Você sabe, estamos em um ponto de inflexão, eu acredito, na economia mundial, não apenas a economia mundial, no mundo, ocorre a cada três ou quatro gerações”.

“Como um dos meus, como um dos principais militares me disse em uma reunião segura outro dia, 60 milhões de pessoas morreram entre 1900 e 1946 e desde então estabelecemos uma ordem mundial liberal e isso não acontecia há muito tempo. Muitas pessoas morreram, mas nem perto do caos”.

E, conclui Biden, “agora é a hora em que as coisas estão mudando. Vamos, haverá uma nova ordem mundial lá fora e temos que liderá-la e temos que unir o resto do mundo livre e fazê-lo.”

“60 milhões morreram … mas nem perto do caos”, e então estabelecemos “uma ordem mundial liberal”! E a seguir, chama os banqueiros e investidores a “liderar” a “nova ordem mundial lá fora” – o que, no caso de Washington, uma ‘liderança’ sempre obtida com a destruição dos esforços dos demais povos por independência -, como se isso não se desse em mundo dotado de milhares de armas nucleares.

Todos eles em Nuremberg

Sobre essa questão, o mais respeitado intelectual norte-americano, Noam Chomsky, afirmou que nenhum dos presidentes norte-americanos do pós-guerra escaparia de condenação no Tribunal de Nuremberg, que julgou os crimes de guerra nazistas.

Nenhum: Harry Truman tem as mãos sujas do sangue de milhões de coreanos, cuja terra foi invadida para impedir a reunificação do país e a realização de eleições e impor uma cabeça de ponte contra a China. Sob Eisenhower, golpes na Guatemala e no Irã, com seu séquito de vítimas civis, enquanto Washington era o epicentro do esforço para impedir que a descolonização se completasse. JFK foi assassinado em Dallas, mas deu a partida à matança em massa de civis vietnamitas, com o envio de tropas ao sul do Vietnã, o que foi multiplicado por Lyndon Johson. Foi no governo dele que o líder congolês Patrice Lumumba foi sequestrado e assassinado.

Richard Nixon fez os “bombardeios de cachorro doido” contra o Vietnã, Camboja e Laos, espalhando um rastro de sangue, bombas e napalm. Deu sinal verde para o sangrento golpe de Pinochet. Sob Jimmy Carter, teve início a operação CIA-mujahedins-narcotraficantes e seu rebento, a Al Qaeda, voltada a deter a revolução popular no Afeganistão.

Sob Ronald Reagan, a Guerra Fria quase se torna uma guerra quente e nuclear, ao mesmo tempo em que financiou e treinou todo tipo de carniceiro, a quem chamava de seus ‘combatentes da liberdade’. Deu sustentação ao regime de apartheid na África do Sul.

Bush Pai deu início ao martírio dos iraquianos com sua Guerra do Golfo e invadiu a Somália e o Panamá. Bill Clinton, com o bloqueio ao Iraque, matou 500 mil crianças iraquianas, como admitiu ao vivo na tevê sua secretária de Estado, Madeleine Albright: “valeu a pena”.

W. Bush invadiu o Iraque e o Afeganistão – o plano era invadir 7 países muçulmano e com petróleo -, causando 1 milhão de mortos e vários milhões de refugiados, e oficializou a tortura.

Barack Obama destruiu a Líbia e desencadeou a guerra ‘por procuração’, isto é, via mercenários, na Síria, além de ter bancado o golpe de 2014 na Ucrânia. Donald Trump continuou a ocupação de território sírio – “gosto de petróleo” – e arrasou Mosul e Raqqa, no efeito colateral da criação do Estado Islâmico. Agora é a hora e a vez de Joe Biden.

Com tantos civis mortos em invasões desencadeadas pelos EUA sem autorização do Conselho de Segurança da ONU, uma boa pergunta é por que o tribunal penal internacional que existe só manda prender africanos.

A outra é de por que genocidas ficam impunes enquanto os que denunciam as atrocidades – como Julian Assange (vídeo ‘Assassinato Colateral’ em Bagdá) – são espezinhados e perseguidos. Assange acaba de completar o terceiro ano na Guantánamo britânica, e a decisão final sobre sua extradição será nos próximos dias.

Escada

No mesmo dia em que Biden tirara do bolso do colete sua designação de “genocida” a Putin, em comentário que deveria ser sobre por que a inflação descambou nos EUA, um repórter bem adestrado lhe perguntou: “você acredita que Vladimir Putin comete um ‘genocídio’ na Ucrânia?”.

No teatro, isso é conhecido como “escada”, um figurante que prepara a atenção do público para o protagonista. “Para mim, parece genocídio”, declarou o modesto estripador de civis.

Como, no caso de Biden nunca se sabe com toda a certeza se o que ele disse foi por senilidade ou desfaçatez, porta-voz da Casa Branca se apressou a informar que haveria um “esclarecimento” sobre a questão.

Mais tarde, o próprio Biden repetiu a acusação de “genocídio”, com o acréscimo de que isso seria decidido por “advogados em nível internacional”.

Genocídio, ele acrescentou, é definido pelo direito internacional como “crime cometido com a intenção de destruir no todo, ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”.

Ou seja, sem sequer estar provado que ocorreram efetivamente crimes de guerra na operação militar especial de desnazificação e desmilitarização da Ucrânia, Biden faz uma hipérbole para dizer que há “genocídio” e culpar Putin.

Está em disputa se a verdade é, como alega o regime de Kiev, que os russos ‘cometeram massacres’ em Bucha, ou se é, como afirma a Rússia, uma encenação macabra e covarde, em que civis – mortos pelo Batalhão Azov e sua operação de limpeza de ‘colaboracionistas russos’ – foram exibidos como os mortos ‘de Putin’.

Está provado que os russos se retiraram quatro dias antes de os cadáveres aparecerem nas ruas e que personalidades do regime de Kiev se exibiram em Bucha, fazendo selfies, comemorando a retirada russa e sem quaisquer cadáveres para mostrar nos primeiros dias.

Raqqa vs Bucha

Em sua visita, com o presidente Alexander Lukashenko, ao cosmódromo de Vostochny, Putin disse que quando líderes ocidentais lhe falam sobre “Bucha”, ele lhes pergunta sobre “Raqqa”.

“’Você já esteve em Raqqa? Você já viu esta cidade síria arrasada do ar por aviões dos EUA? Realmente havia corpos que ficaram nas ruínas por meses, em decomposição. Ninguém se importou, ninguém sequer notou”, acrescentou Putin, falando sobre a hipocrisia em voga nos países imperiais e os duplos padrões.

“Não houve silêncio quando eles cometeram uma provocação na Síria, quando eles atribuíram o uso de armas químicas ao governo Assad. Então acabou sendo uma farsa, o mesmo tipo de farsa que [houve] em Bucha.”

Com a sorte da principal força militar ucraniana, devidamente cercada em um ‘caldeirão’ ao estilo de guerra russo, prestes a ser resolvida na mesa de negociações ou no campo de batalha, o que conduzirá à libertação do Donbass do jugo dos neonazis e de seus mestres marioneteiros, explica-se o frenesi de Biden em lançar sobre Putin o insulto de “genocida”.

O presidente bielorrusso Alexander Lukashenko disse em Vostochny ter entregado a Putin as provas de que a encenação em Bucha foi supervisionada pelos serviços secretos britânicos, pelas mesmas pessoas que, na Síria, montavam as provocações encenadas pelos ‘Capacetes Brancos’ contra o governo Assad.

Em tempo: ‘pato manco’ não é xingamento. É a forma irônica com que comentaristas políticos nos EUA se referem costumeiramente a presidentes, sejam democratas ou republicanos, cujo partido perde as eleições de meio de mandato, e ficam sem conseguir aprovar o que quer que seja no Congresso. É o que as pesquisas andam antevendo para novembro.