O fiasco do governo Biden no Afeganistão ocorre em paralelo a outro, ao qual a mídia empresarial tem dado pouco espaço.

Por José Reinaldo Carvalho*

O novo fracasso foi a produção de um relatório sobre o rastreamento da origem da Covid-19, que resulta em mais um passo atrás da superpotência norte-americana no exercício de sua hegemonia no mundo. Não tardarão a aparecer os efeitos na forma de maior isolamento internacional dos EUA.

Em finais de maio, o chefe da Casa Branca ordenou que seus serviços de “inteligência” realizassem uma investigação e produzissem em 90 dias um relatório provando que a China é culpada pelo aparecimento e disseminação do novo coronavírus.

O relatório foi concluído e divulgado nos últimos dias. Biden recebeu um documento que se confessa “inconclusivo” sobre a origem do coronavírus. A rigor, os serviços de espionagem do governo estadunidense não conseguiram provar em seu relatório de investigação de rastreamento da origem do novo coronavírus que o país socialista asiático é o responsável pela pandemia que já matou cerca de 4,5 milhões de pessoas no mundo.

Contudo, mantendo a linha que deu origem à investigação, provocadora e com o afã de acusar a China, os órgãos de inteligência dos EUA relataram que há duas possibilidades da origem do novo coronavírus e nenhuma pode ser descartada: o novo coronavírus teria surgido na natureza ou por meio de vazamento laboratorial. Insinua que a China é culpada e ainda acusa o governo socialista de ter obstruído as investigações e se recusado a compartilhar informações. As acusações, infundadas, têm um evidente caráter difamatório e se somam ao arsenal de mentiras que os Estados Unidos difundem contra a China, desde o período em que o país foi governado pelo ex-presidente Donald Trump.

Desavergonhadamente, o governo Biden repete nesse aspecto a cantilena do seu antecessor, de que o novo coronavírus é um “vírus chinês”.

As calúnias e difamações da Casa Branca constituem mais uma reiteração do método escolhido pelos Estados Unidos para encarar a pandemia, a politização, o que por sua vez guarda coerência com a atual estratégia da politica externa estadunidense de combater a China.

Os EUA temem que o desenvolvimento nacional e a inserção internacional da China como país que propõe e pratica o compartilhamento do progresso econômico e social são uma ameaça aos seus interesses fundamentais. Por isso se lançam a empreitadas antichinesas, mesmo que isso signifique se opor aos interesses de toda a humanidade. É o caso do comportamento do governo Biden ao politizar o enfrentamento à Covid-19.

A posição estadunidense expressa no relatório sobre o rastreamento da origem da Covid-19 é condenável sob todos os aspectos. Primeiramente porque, em se tratando de assunto que afeta a saúde, requer um enfrentamento científico. Não é matéria própria de órgãos de inteligência, mas de instituições científicas e de saúde pública.

Em segundo lugar, sendo a pandemia um fenômeno global que afeta todos os países, o rastreamento das origens do vírus, para ser eficaz, tem de ser feito multilateralmente, por meio da cooperação internacional, com os esforços coordenados dos governos e o papel destacado da Organização Mundial de Saúde, a agência das Nações Unidas credenciada para realizar o enfrentamento das questões sanitárias globais. Nunca, jamais, segundo o método unilateral, intervencionista, que não respeita o direito internacional e os princípios fundamentais do resguardo da autodeterminação nacional.

Em terceiro lugar, o governo dos Estados Unidos mente quando acusa a China de não compartilhar informações. Ao contrário, no início deste ano, uma equipe de estudo conjunta OMS-China, formada por cientistas chineses e internacionais, conduziu uma pesquisa de 28 dias na China e divulgou um relatório contendo conclusões confiáveis, baseadas na ciência. Os especialistas da OMS consideraram extremamente improvável a teoria de vazamento em laboratório, opinaram que a origem do novo coronavírus foi o contágio direto de animal para humano e admitiram como muito provável que tenha havido um animal intermediário entre um animal infectado e uma pessoa. Também é fortemente considerada a hipótese de que o vírus tenha atingido os humanos por meio de produtos alimentícios. A hipótese de um acidente no laboratório de Wuhan é rejeitada pela maioria dos especialistas, e só voltou ao debate devido a uma posição política e nada científica dos EUA.

Era óbvio que a China reagiria à altura. O vice-ministro das Relações Exteriores da China, Ma Zhaoxu, divulgou no último sábado (28) um comunicado criticando severamente o relatório da inteligência dos EUA sobre as origens da Covid-19. “A comunidade de inteligência dos Estados Unidos compilou recentemente um suposto relatório sobre as origens da Covid-19. É um relatório mentiroso feito para fins políticos. Não há base científica ou credibilidade nisso. Os EUA também divulgaram um comunicado caluniando e atacando a China. O lado chinês expressa a sua firme objeção”, disse.

A posição da China tem o respaldo de organizações políticas e sociais do mundo. “Mais de 300 partidos políticos, organizações sociais e grupos de reflexão em mais de 100 países e regiões se opuseram à politização do rastreamento da origem do vírus em uma declaração conjunta enviada ao Secretariado da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2 de agosto”, assinala a publicação mensal “China Insight”, do Departamento Internacional do Comitê Central do Partido Comunista da China.

Diante da grave ameaça que a Covid-19 representa para a vida, segurança e saúde de toda a humanidade, a declaração enfatizou que a sociedade internacional precisa fortalecer a cooperação antiepidêmica, apelando à OMS para realizar pesquisas globais de rastreamento de origem de vírus de forma objetiva e justa, e se posicionar resolutamente contra a politização da questão do rastreamento da origem do vírus, indica a publicação.

“Nós, como humanos, vivemos em uma comunidade na qual crescemos e caímos juntos com um futuro compartilhado. Em face de grandes crises, nenhum país pode permanecer isolado e intacto. Os vírus não conhecem fronteiras ou raças. A única maneira de derrotá-los é a comunidade internacional trabalhar em conjunto ”, disse o comunicado.

“O rastreamento da origem (do coronavírus) é uma questão científica séria que deve ser estudada por cientistas e especialistas médicos em todo o mundo por meio da cooperação antes que qualquer conclusão científica seja tirada com base em fatos e evidências”, enfatizou o artigo.

O documento exorta o Secretariado da Organização Mundial da Saúde a “agir na resolução pertinente adotada pela Assembleia Mundial da Saúde para fazer avançar o estudo de rastreamento da origem global em cooperação com todos os Estados-Membros, dando plena consideração às novas evidências científicas emergentes e seguindo fielmente as recomendações do Relatório da Missão Conjunta OMS-China sobre Doença do Coronavírus 2019. ”

“Entendemos que os partidos políticos e as organizações de todos os países devem assumir sua responsabilidade de intensificar a cooperação, trabalhar arduamente para facilitar a cooperação global antiepidêmica, a coordenação de políticas e ações complementares, de modo a injetar uma força motriz inesgotável para a luta global contra a Covid-19 e a construção de uma comunidade global de saúde para todos”, sublinhou a declaração.

A posição estadunidense sobre a política e as práticas chinesas de enfrentamento à Covid-19 não agridem apenas a China, mas resulta em ser também uma afronta aos interesses gerais da comunidade internacional, que a China tem ajudado de diferentes maneiras. O governo chinês está comprometido com o fornecimento de 2 bilhões de doses da vacina contra a Covid-19 ao mundo ao longo deste ano e oferecerá 100 milhões de dólares à Covax. O compromisso foi assumido pelo próprio presidente Xi Jinping em 5 de agosto em uma mensagem enviada à primeira reunião do fórum internacional sobre a cooperação da vacina contra a Covid-19, informa “China Insight”.

Os 100 milhões de dólares destinados à Covax irão principalmente para a distribuição de vacinas para países em desenvolvimento, disse o presidente Xi, acrescentando que a China fará o possível para ajudar os países em desenvolvimento a lidar com a pandemia de Covid -19.

As medidas propostas pelo presidente chinês estão em linha com pronunciamentos que fez anteriormente, defendendo que a “luta contra a Covid-19 é uma guerra total que exige uma resposta sistêmica para coordenar as intervenções farmacológicas e não farmacológicas, equilibrar os protocolos Covid-19 de rotina direcionados e as medidas de emergência e garantir o controle da epidemia e o desenvolvimento socioeconômico”, como afirmou na Cúpula Global de Saúde, por videoconferência, em 21 de maio de 2021.

Na mesma ocasião, o líder chinês disse que é “importante que defendamos o espírito de ampla consulta, contribuição conjunta e benefícios compartilhados, atendamos plenamente às opiniões dos países em desenvolvimento e reflitamos melhor suas preocupações legítimas”.

Desde que a pandemia se tornou uma dura realidade para os povos, os Estados Unidos buscam fora de suas fronteiras os pretextos para encobrir seu próprio fracasso no combate à Covid-19 em seu território, onde a pandemia assume todas as características de crise humanitária. Desde o governo Trump, a Casa Branca busca responsabilizar a China, contra a qual o antigo secretário de Estado, Mike Pompeo, propunha uma espécie de multa.

Donald Trump e seu secretário de Estado, que viam a China e o Partido Comunista da China como uma ameaça à “democracia” e aos interesses nacionais dos Estados Unidos, já foram parar no lixo da história. A China segue adiante, mostrou como se combate a pandemia dentro das próprias fronteiras e dá sua contribuição ao mundo com políticas de cooperação global. Joe Biden está perdendo uma oportunidade de se demarcar de seu antecessor em uma questão que afeta os interesses de toda a humanidade e que só terá solução adequada se os países se apegarem à ciência e praticarem a verdadeira cooperação global.

Relatórios caluniosos como o que foi produzido pelos órgãos de inteligência sob as ordens de Biden não vão deter a onda de mortes no país norte-americano. Nem servirão de auxílio a uma humanidade cada vez mais carente de políticas eficazes de cooperação.

Mais vale para os países em desenvolvimento apertar a mão amiga que oferece desenvolvimento compartilhado.

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*Jornalista, editor do Resistência, membro do Comitê Central e da Comissão Política Nacional do PCdoB e secretário-geral do Cebrapaz.

 

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