Até Ucrânia desmente Washington: “não é iminente uma invasão russa”

Resnikov, ministro da Defesa da Ucrânia, afirma que “não há nada que indique” invasão por parte da Rússia

(G.Ru)

Após Washington anunciar a retirada de familiares de funcionários não essenciais de sua embaixada em Kiev, alegando ser “iminente” uma invasão russa da Ucrânia, medida, aliás, também tomada por Londres, o próprio presidente ucraniano, Vladimir Zelensky, veio a público dizer que “está tudo sob controle e não há razão para pânico”, enquanto o chefe de seu Conselho de Segurança Nacional e Defesa, Alexei Danilov, atestava que “não existem evidências de uma iminente invasão russa”.

Também o ministro da Defesa ucraniano, Alexey Reznikov, esclareceu na terça-feira (25) que não “há nada” que indique uma invasão russa de seu país em um futuro próximo já que “as forças armadas da Rússia não criaram grupos de ataque, que indicariam que estão prontos para lançar uma ofensiva amanhã”.

Ao canal de televisão ICTV da Ucrânia, Reznikov acrescentou que um cenário de um ataque russo em um futuro próximo “também é improvável”.

Uma situação interessante, já que nos últimos anos um dos passatempos prediletos do regime de Kiev era gritar “os russos vêm aí”.

Quando questionado sobre a probabilidade de a Rússia atacar a Ucrânia em 20 de fevereiro, último dia dos Jogos Olímpicos de Pequim, o ministro disse que a probabilidade era “baixa”.

Uma fonte próxima a Zelensky disse ao portal norte-americano BuzzFeed que é “extremamente decepcionante” a retirada de funcionários da embaixada norte-americana. Com ironia, a fonte acrescentou que a Ucrânia é mais segura para cidadãos norte-americanos do que cidades com alto nível de criminalidade, como Los Angeles.

O conselheiro chefe de Segurança Nacional ucraniano, Danilov, em uma entrevista à BBC, ao responder à pergunta “O que está acontecendo perto das fronteiras ucranianas? O número de tropas [russas] está aumentando, elas estão fazendo manobras?” acabou por fazer um desmentido cabal das alegações do Pentágono e que pululam na mídia imperial e suas redes sociais.

“O número de tropas russas não está aumentando na forma em que muitas pessoas pintam hoje. Eles têm manobras lá – sim, mas eles estavam neles o tempo todo. Este é o território deles, eles têm o direito de se mover para a esquerda e para a direita lá. É desagradável para nós? Sim, é desagradável, mas não é novidade para nós. Se isso é novidade para alguém no Ocidente, peço desculpas”, disse Danilov.

A primeira pergunta da BBC fora de que “a situação está se desenvolvendo de forma estranha, quando os países ocidentais e a mídia ocidental estão cheios de manchetes de que pode haver uma invasão da Ucrânia em breve, aqui em Kiev, todos são aconselhados a se acalmar e ‘não se apavorar’. Por que isso está acontecendo?”.

Escalada midiática

Danilov revelou que, “quando esse processo começou em 30 de outubro do ano passado com uma publicação no Washington Post, conversei com um jornalista desta publicação. Eles não levaram em conta o que eu disse a ele”.

“Por que elas [as publicações ocidentais] mudaram sua atitude em relação a essa situação? Por que essas declarações barulhentas começaram agora?”, a BBC questionou.

“É difícil para nós dizer. Cada país vive em seu próprio ambiente político. Cada país tem seus próprios processos, inclusive políticos”, retrucou Danilov. “Hoje existe uma situação de política pós-guerra, uma situação relacionada à China, Taiwan, muita coisa está acontecendo no mundo. Houve mudanças na Alemanha, eleições na França. Ou seja, eventos políticos domésticos que ocorrem em muitos países ao redor do mundo, eles são, em alguns casos, os dominantes de certos processos”.

Piromania

“Como o governo ucraniano avalia esses passos [retirada de funcionários de embaixadas], já que não são mais declarações, mas ações concretas que agravam ainda mais a situação?”, indagou a BBC.

Danilov respondeu contrapondo que “os representantes da UE fizeram declarações hoje que não veem razão para evacuar seus diplomatas. Ressalto mais uma vez: são muitos processos diferentes, cada país, acima de tudo, resolve seus próprios problemas”.

Ele também concordou implicitamente com a indagação da BBC se o governo ucraniano não temia que declarações sobre invasão iminente não viessem a derrubar a já muito precária economia ucraniana, que sob o atual regime se tornou o país mais pobre da Europa.

No mais, Danilov culpou Putin e a Rússia por todos os males, deu vazão ao anti-sovietismo e torceu pelo desmembramento da Federação Russa assim que o relógio biológico levar Putin.

A Rússia tem chamado de “histeria” – como fez o ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov – o incessante alarido sobre “os russos! Os russos!”, e já desmentiu que vá invadir a Ucrânia, mas que não admitirá qualquer tentativa de burlar os acordos de pacificação de Minsk, por via militar, que resultaria no sofrimento de milhões de russos cujas terras ancestrais são ucranianas.

Moscou advertiu seguidamente que a insistência de Washington em armar “cabeças quentes” em Kiev poderia levá-los a considerar isso como um sinal verde para a limpeza étnica no Donbass, o que não será permitido.

No mais, a Rússia quer que os EUA/Otan respondam às suas propostas pela restauração da “segurança coletiva e indivisível” na Europa, o que inclui o fim da expansão a leste da Otan e a separação de forças para as fronteiras de 1997, ano do acordo Rússia-Otan.