Após escândalo das contas na Suíça, Juan Carlos I deixa a Espanha

Logo após a amante Corina confirmar a juiz suiço seu presente de 65 milhões de euros, ex-rei achou que estava na hora de mudar para Portugal

(Jaime Reina/ AFP)

O rei emérito de Espanha, Juan Carlos I, deixou na segunda-feira o país, após o escândalo das contas dele na Suíça e dos milionários presentes a duas amantes já ameaçar o futuro da monarquia – que se tornara, após a morte do ditador Franco, a saída para uma transição democrática, via Pacto de Moncloa. A fuga foi comunicada ao atual rei, seu filho, Fernando VI, e ele já se encontra em Portugal, no palácio que possui em Cascais.

“Agora, guiado pela certeza de prestar o melhor serviço aos espanhóis, às suas instituições e a ti como o rei, comunico minha decisão de me mudar, neste momento, para fora da Espanha”, escreveu Juan Carlos em carta divulgada pela Casa Real, instituição responsável pela coroa espanhola.

Em um comunicado, a coroa espanhola afirmou que a decisão foi aceita pelo rei Felipe VI, que agradeceu e respeitou o pedido do pai. Segundo a Casa Real, o rei reconhece o legado de Juan Carlos I e reafirma os princípios e valores democráticos.

Quase como álibi, fonte da monarquia espanhola asseverou que o movimento mostrava “a transparência que sempre tem guiado o Rei Felipe desde que se tornou chefe de Estado”.

Entre outras, pesam contra o ex-rei de 82 anos acusações de fraude fiscal, lavagem de dinheiro e tráfico de influência. Juan Carlos I já havia abdicado em favor do filho, Felipe VI, mas sua corrupção e estrepolias continuam respingando na decrépita monarquia.

Em julho tornou-se público que Corinna Larsen, amante de Juan Carlos I, recebeu quase 65 milhões de euros do rei emérito, segundo depoimento que prestou às autoridades judiciais da Suíça. Valor que seria uma deferência da casa real saudita no âmbito de um contrato de 6,7 bilhões de euros obtido por um consórcio espanhol para a construção de uma linha de trens de alta velocidade entre Meca e Medina.

Em função do escândalo, em março Felipe retirou de Juan Carlos seu estipêndio anual de 200 mil euros e renunciou à herança do pai, para não ficar exposto pela existência de milhões de euros depositados em um paraíso fiscal cujo beneficiário era seu pai.

Três meses depois, a Suprema Corte espanhola abriu uma investigação sobre o papel do antigo rei no referido acordo.

Mesmo com a fuga, Juan Carlos I não vai perder o título honorífico decretado em 2014, de ‘rei emérito’. Seu advogado, Javier Sánchez-Junco, afirmou que o seu cliente “permanece a disposição do Ministério Fiscal para qualquer processo ou atuação que se considere oportuno”. Até o momento, as autoridades suíça não estão investigando Juan Carlos I, mas não descartam a hipótese.

“Por gratidão e amor”

Conforme a amante, Corina Larsen, foi por “gratidão e amor” que o rei emérito lhe ofertou 64,8 milhões de euros em 2012 e “não para se desfazer do dinheiro”. Essa foi a singela explicação que deu à justiça suíça sobre o proveitoso relacionamento. Ainda segundo madame Larsen o ex-rei “estava consciente de que eu tinha feito muito por ele”. Ela disse acreditar também que Juan Carlos se sentia culpado pelo que lhe acontecera em Mônaco em 2012, quando fora sequestrada pelos serviços secretos espanhóis.

Tidos como laranjas do ‘rei emérito’, também estão sob investigação Arturo Fassana e Dante Canónica. Este, o responsável pela Fundação Lucum, cujo beneficiário era Juan Carlos I.

Para o juiz suíço Bertrand Bertossa, os 65 milhões transferidos de uma conta da Fundação Lucum para uma de Corinna Larsen procedem dos 100 milhões que Juan Carlos I recebeu como comissão devido à sua intervenção para a concessão a empresas espanholas de uma das fases da construção de uma linha ferroviária de alta velocidade na Arábia Saudita em 2008, de acordo com o jornal suíço Tribuna de Genebra.

A Tribuna de Genebra afirma que o rei emérito esteve, durante alguns anos, fazendo retiradas da conta suíça até 2012, ano em que a Suíça aprovou leis contra a lavagem de dinheiro. Depois, supostamente repartiu o dinheiro entre duas mulheres com quem teve relacionamentos extraconjugais, Corinna Larsen e Marta Gayá. Para os tribunais suíços, isso foi uma manobra para ocultar este dinheiro.

À Procuradoria suíça, Corinna Larsen asseverou que lhe foi “explicado” que a bufunfa “vinha de uma doação do rei Abdalah ao Juan Carlos I”. Candidamente disse não saber “o motivo dessa doação”, mas asseverou tratar-se de “uma prática normal entre reis, nomeadamente no Médio Oriente”.

Está sob investigação ainda a compra de uma casa e dois apartamentos em Villars-sur-Ollo, na Suíça, feitas igualmente por Corinna Larsen, tal como transferências realizadas por Juan Carlos I para ela. De acordo com Larsen, foram “empréstimos”.

Famiglia real

A família real tem estado envolvida em uma série de escândalos que agora atormentam o Rei Felipe VI. Em meio à crise espanhola que resultou na ingerência e arrocho da Troika no país, virou notícia a presença do então Rei Juan Carlos I em uma caçada na Botsuana ao lado da amante. Em abril de 2012, na tentativa de controle de dano à imagem, o rei chegou a pedir desculpas publicamente: “sinto muito; me equivoquei e não voltará a acontecer”.

Antes, o genro de Juan Carlos I, o ex-medalhista olímpico (bronze) de handebol em Sydney, Iñaki Urdangarin, passou a traficar influência até a coisa explodir. Em 2008, a família real ainda fez a tentativa de abafar tudo, enviando o ex-jogador, o agora duque, e a infanta Cristina para Washington, onde ele assumiu a presidência da Telefônica nos EUA.

Mas já haviam vazado as provas da corrupção cometida através de uma fachada denominada de Nóos, cujos sócios eram Urdangarin e a filha do rei. A dupla possuía ainda outra fachada, a Aizoon, com um quadro fictício de funcionários, usada para desviar despesas pessoais para não pagar impostos. Em 8 de fevereiro de 2014, em uma cena histórica, a infanta Cristina em pessoa respondeu no tribunal “não sei” ou “não me lembro” 550 vezes.

Quatro meses depois, o rei Juan Carlos abdicou. Desde então, no palácio real não há desinfetante que disfarce o fedor de matéria em decomposição.