Aos 77 anos da libertação de Auschwitz, ONU alerta: luta continua

Multidoes de prisioneiros destinados à morte chegavam em trens superlotados

(Arquivo)

Em uma referência ao dia 27 de janeiro de 1945, quando, ao amanhecer, a 322ª Divisão de Rifles do Exército Vermelho avançou sobre os portões de Auschwitz-Birkenau para libertar os sobreviventes do maior campo de extermínio nazista, a data foi decretada pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o Dia Internacional de Lembrança das Vítimas do Holocausto.

No dia 27 de janeiro deste ano, a ONU, através do seu Conselho de Direitos Humanos, assim como do secretário-geral, Antonio Guterres, conclama à vigilância à educação, e à luta contra o “alarmante ressurgimento” de manifestações características da ideologia nazifascista.

“Lembramos a resolução 60/7, que urge todos os Estados Membros a educar as gerações futuras sobre o Holocausto e que reafirma que ele será para ‘sempre um alerta a todos os povos dos perigos do ódio, intolerância, racismo e preconceito’”, diz a declaração do Conselho de DH.

No genocídio planejado e perpetrado pelo governo nazista de Hitler, através dos campos de extermínio projetados para matar em escala jamais vista, pereceram 6 milhões de judeus, além de milhares de ciganos e opositores da besta assassina, particularmente comunistas e socialistas.

Assim foram encontrados pelos soldados soviéticos os sobreviventes de Auschwitz (Arquivo)

Os povos soviéticos, arcaram com a maior perda, em números absolutos, devido à invasão hitlerista, uma insanidade que incluía o incêndio a aldeias com seus habitantes no interior dos prédios em chamas. Na monstruosidade pereceram mais de 27 milhões de soviéticos. Coube a estes povos, através do Exercito Vermelho e após a vitória em Stalingrado, o papel central na libertação da humanidade da besta nazista.

Como disse o escritor norte-americano Ernest Hemingway: “Todo ser humano que ama a liberdade deve ao Exército Vermelho mais do que conseguirá pagar em uma vida”.

“Entramos ao amanhecer de 27 de janeiro. Vimos algumas pessoas de pé em roupas listradas. Eram pele e osso, somente esqueletos”, relatou o comandante daquela divisão, o oficial judeu, Anatoly Shapiro, então com 32 anos, que foi quem tomou a iniciativa de abrir os portões e adentrar o malfadado campo.

Este ano, coube ao muçulmano Ahmed Shaheed, membro do Conselho de Direitos Humanos da ONU, na qualidade de Comissário Especial para a Liberdade de Religião e de Credo, encabeçar o lançamento do documento da ONU, lançado neste dia 27, “expressando o renovando compromisso no combate ao antissemitismo, incluindo a luta contra a distorção dos fatos do Holocausto e de sua negação”.

“Os Estados devem assumir a ação resoluta contra o crescente antissemitismo” e garantir o combate aos negacionistas do genocídio em todos os níveis de suas sociedades e que seus membros sejam efetivamente educados sobre o morticínio e contra “todas as manifestações de antissemitismo”.

A declaração da ONU também alerta para “um persistente aumento da retórica antissemita, com incidentes em muitos países nos últimos anos e amplos informes da promoção de ultrajantes teorias conspirativas, como aquelas que atribuem a responsabilidade pela pandemia do Covid-19 a Judeus, como notado pelo Sr. Ahmed Shaheed, Comissário Especial para a Liberdade de Religião e Credo, em declarações de abril de 2020”.

Negacionismo

O documento destaca que a negação e as distorções em torno do genocídio perpetrado pelo nazismo, “inclui em alguns casos funcionários de governo”, como tem ocorrido com integrantes do governo Bolsonaro, a exemplo da grotesca imitação do secretário de Propaganda do governo de Hitler, Goebbels, por parte do então secretário de Cultura, Roberto Alvim, ou da repetição pelo então ministro do Exterior do governo federal, Ernesto Araújo, dos termos inscritos à entrada do campo de extermínio de Auschwitz: “O Trabalho liberta” (Arbeit Macht Frei).

No Relatório Sobre o Antissemitismo durante o governo Bolsonaro, de autoria de Jayme Brener, Jean Goldenbaum e Nathaniel Braia, sob os auspícios do Observatório Judaico dos Direitos Humanos no Brasil, lembramos que o mal negacionista foi expresso pelo próprio presidente Bolsonaro, que recebeu uma dura reprimenda do diretor do Museu Yad Vashem (instalado em Israel, em memória das vítimas judaicas do nazismo), ao afirmar, à saída do museu, que o morticínio “se pode perdoar, mas não esquecer”.

Destacando que a data deve servir para unir a todos contra o ressurgimento do nazismo e do fascismo, assim como contra todas as formas de racismo, lembra que além o morticínio nazi, este aconteceu em meio a “uma campanha antissemita única e brutal, patrocinada pelo Estado, de desumanização e perseguição” e que a negação destes fatos não pode permanecer sem contestação.

Para a ONU, torna-se urgente que “medidas que sejam adotadas de forma consistente e sistemática e que estas devem ser implementadas e legalmente assumidas, incluindo o uso de políticas regulamentadoras e termos de serviço” no mesmo sentido.

O documento da ONU conclama “todas as figuras públicas” a condenarem o negacionismo e “aos Estados a avançarem medidas urgentes tanto educacionais, de treinamento, assim como de esforços de conscientização contra os estereótipos preconceitos antissemita”.

Guterres e Bachelet

O secretário-geral da ONU também se pronunciou neste dia 27, para condenar o genocídio com “cerca de 6 milhões de judeus mortos, as vítimas dos povos roma e sinti – conhecidos por ciganos – e outras inúmeras vítimas de um horror sem precedentes de crueldade calculada” da máquina de guerra nazista, afirmando que o próprio nome da ONU remete à “aliança que lutava contra o regime nazista e seus aliados”.

O dirigente da ONU também lamentou o “reaparecimento alarmante” da xenofobia e do ódio e condenou o negacionismo, defendendo que as Nações Unidas têm o dever de se manter na linha de frente contra o antissemitismo, a intolerância religiosa e o racismo. “Nenhuma sociedade está imune à irracionalidade ou à intolerância”, afirmou.

A alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, relembrou que 77 anos após o Holocausto, o racismo e a xenofobia estão aumentando, com ataques contra judeus em várias regiões do mundo. A ex-presidente chilena pediu uma posição firme de todos contra o ódio e “apoio à verdade fundamental de que existe igualdade entre todos os seres humanos”.