Afeganistão: Talibãs assumem controle de três capitais provinciais

Em meio ao avanço nas cidades, guerrilha toma veículos deixados por tropas dos EUA

(Jim Huylebroek/NYT)

A guerrilha do Talibã tomou três capitais provinciais afegãs em menos de três dias no fim de semana, enquanto a retirada das tropas invasoras norte-americanas se aproxima da conclusão, e apesar da volta de bombardeios com os B-52 em socorro do sitiado governo oficial afegão.

No domingo, a guerrilha anunciou a tomada de Kunduz, capital da província do mesmo nome, após ter controlado Sigarban, capital da província de Jawzjan, no sábado, no extremo norte do país, e Zaranj, capital da província de Nimroz, no extremo leste, na véspera. Também continua a pressão sobre a capital da província de Helmand, Lashkar Gah.

Uma autoridade de Nimroz, que pediu para permanecer anônima, relatou que “mesmo antes dos ataques do Talibã, muitos baixaram as armas, tiraram os uniformes, deixaram suas unidades e fugiram”.

O que ele atribuiu a que as forças de segurança afegãs “estão desmoralizadas pela propaganda incessante do Talibã”.

O que vem acontecendo um pouco por toda a parte. Postagens nas redes sociais mostraram – a AFP preferiu o termo ‘sugerem’ – “uma recepção calorosa da população civil de Zaranj”. Guerrilheiros agitando suas bandeiras em veículos militares foram aplaudidos por homens jovens e meninos.

A AFP considerou que é “difícil, porém, saber em que medida as imagens transmitem um apoio real aos rebeldes ou se os civis o fazem por desejo de sobrevivência”. Todos os prisioneiros de Zaranj foram libertados.

Outro vídeo postado no Twitter, “cuja autenticidade não pôde ser verificada”, mostra massas de pessoas saqueando escritórios do governo e carregando cadeiras, mesas e televisores.

Há uma semana, o presidente do regime de Cabul, Ashraf Ghani, dissera que seu governo traçara um plano para deter o Talibã, e previu que a situação no país estará “sob controle dentro de seis meses”. A retirada das tropas estrangeiras de combate deverá estar concluída até o dia 31 de agosto, e de todas as forças que se envolveram na ocupação, até 11 de Setembro.

Emblemático do que está em curso, os norte-americanos deixaram sua principal base no Afeganistão, Bagram, que ficou tristemente famosa pela tortura, na calada da noite, depois de cortar a luz, e só avisaram os afegãos quando já estavam no aeroporto. Quando duas ou três horas depois as forças governistas chegaram ao local, já estava sendo saqueado por dezenas de pessoas que carregavam tudo o que podiam.

Quando o acordo de retirada foi anunciado, ainda sob Trump, o general norte-americano da reserva, Don Bolduc, afirmou ao Yahoo News que os talibãs “são os vencedores” da guerra de 18 anos no Afeganistão. “Nós apenas ainda não descobrimos isso”, acrescentou.

O general disse que, caso os EUA tivessem aceitado a rendição do Talibã no final de 2001, “talvez fosse concluída nos nossos termos”. “Agora está sendo concluída nos temos do Talibã”.

Sobre o exército do regime de Cabul, montado para servir de puxadinho para as tropas de ocupação, o general afiançou que “não podem vencer sem nosso poder aéreo sobre seus ombros e os nossos homens ao lado deles, empurrando-os para a luta. Eles se borram sempre que combatem o Talibã”.

Entre os saldos de guerra que restam a Washington resolver, está o de aonde alocar 20 mil colaboracionistas da invasão, que costuma chamar de “tradutores” e cujo destino não será suave caso não fujam com seus amos.

A ofensiva relâmpago da guerrilha islâmica, que vem ocorrendo desde que o governo Biden confirmou em maio que iria acatar o acordo negociado no governo anterior, vem levando as forças talibãs a controlar grande parte das áreas rurais e a cercar as principais cidades. Também ocuparam as regiões nas fronteiras com o Irã, com o Tajiquistão (ex-república soviética aliada da Rússia) e com a China.

Na reunião do Conselho de Segurança da ONU, na sexta-feira, que discutiu o conflito no Afeganistão, a enviada especial da ONU ao país, Deborah Lyons, instou a “um cessar-fogo geral” e “retomada das negociações”. Ela advertiu que “atacar áreas urbanas sabidamente inflinge enorme dano e causa baixas civis em massa”, acrescentando que, porém, essa parecer a “decisão estratégica” do Talibã.

Na reunião, o embaixador permanente da Rússia, Vassily Nebenzia, advertiu que o país corre o risco de entrar em uma guerra civil prolongada em grande escala em meio à ausência de progresso nas negociações de paz (entre o governo instalado pela invasão e a guerrilha talibã).

“É claro que não há solução militar para a situação do Afeganistão, mas, na situação atual, dada a ausência de progresso na via das negociações, a perspectiva de o Afeganistão entrar em grande escala e prolongar a guerra civil, infelizmente, é um gritante realidade. Portanto, o objetivo mais importante hoje é lançar rapidamente negociações substantivas”, enfatizou Nebenzia.

Ele convocou mais esforços para deslanchar o processo de solução política no Afeganistão. “Estamos convencidos de que agora é mais importante do que nunca consolidar todos os esforços internacionais e regionais e todas as medidas devem ser tomadas para encontrar uma solução sensata que leve em conta os interesses de todas as minorias étnicas e religiosas”, disse ele.

Rússia e China têm procurado apoiar um processo de paz inclusivo no Afeganistão, com Moscou tendo sediado desde 2018 várias rodadas de negociações interafegãs (Cabul-Talibãs) e recebido delegações do Talibã para troca de pontos de vista.

O Afeganistão tem o status de observador na Organização do Tratado de Xangai, que reúne China, Rússia, as repúblicas ex-soviéticas da Ásia Central, Índia e Paquistão, à qual proximamente deve se somar o Irã. Região estratégica tanto para o projeto russo de integração euroasiática quanto para a Nova Rota da Seta proposta por Pequim.

Na semana anterior, a China recepcionou uma delegação chefiada pelo vice-chefe do Talibã, mulá Abdul Ghani Baradar, em que Pequim declarou que a guerrilha teria “um papel importante no processo de reconciliação e reconstrução pacífica” do país e solicitou que o novo poder no Afeganistão não dê guarida aos separatistas violentos que ameaçam Xinjiang.

Outros governos da região, como o Paquistão e a Índia também têm buscado apoiar uma negociação inclusiva que pacifique o país.

Sem interferência

Por sua vez, o Talibã pediu que a China “não interfira” nas questões internas afegãs e apoie a reconstrução. O porta-voz Mohammad Naeem afirmou que o Talibã garantiu à China que “o território afegão não será usado contra a segurança de nenhum país”.

Principal promessa feita ao governo Trump para fechar o acordo de retirada que encerrará 20 anos de invasão e, aliás, a mesma que o Talibã fizera a Washington em 2001, e não foi ouvida.

A principal preocupação de Moscou quanto ao Afeganistão é que se impeça a consolidação do Estado Islâmico no país, já que nos meses recentes seus integrantes foram notoriamente transportados desde a Síria (das áreas sob ocupação norte-americana) para o teatro afegão.

O que evidencia o objetivo de criação de instabilidade nas ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central – portanto, na fronteira com a Rússia – e na região autônoma chinesa de Xinjiang, com importante população muçulmana, que faz fronteira com o Afeganistão. Forças russas estacionadas no Tajiquistão já se deslocaram para a região da fronteira com o Afeganistão, visando evitar qualquer provocação nesse sentido.

“O Talibã no Afeganistão é uma força militar e política fundamental no país e desempenhará um papel importante no processo de paz, reconciliação e reconstrução lá”, disse O chanceler chinês Wang Yi, em seu encontro com o mulá Baradar. Ele sublinhou que a retirada das tropas dos EUA e da Otan do Afeganistão representa um “fracasso das políticas dos EUA”. Pequim também se ofereceu para sediar as negociações interafegãs.

A invasão do Afeganistão, pouco depois da queda das Torres Gêmeas em Nova York, marca o início da cruzada norte-americana para ‘refazer’ o Oriente Médio – sete países eram o alvo, em cinco anos, como revelou um ex-comandante da Otan, general Wesley Clark – e assaltar o petróleo, exclusivamente negociado em dólares.

O que prosseguiu com a invasão do Iraque e, posteriormente, o martírio da Síria e da Líbia, em paralelo a ações de desestabilização do Irã, Líbano e Somália. Era o auge do delírio em Washington sobre a ordem mundial unilateral pós-Guerra Fria, com o planeta inteiro transformado em ‘espaço vital’ de Wall Street, Big Oil e Pentágono.

Trilhões de dólares torrados depois, e com um himalaia de civis mortos e mutilados no meio, mais o endosso oficial da tortura com Bagram, Abu Graib e Guantánamo, o ‘Ato Patriótico’ internamente, as ‘terças-feiras da morte’ com drones, o crash de 2008, a infraestrutura em ruínas, o país dividido pelo racismo e o recorde de mundial de mortos e infectados na pandemia, os EUA se deparam com a percepção, ainda que repetidamente negada, da decadência em que se enfiou.

No ano passado, até mesmo o Tribunal Penal Internacional se declarou apto a investigar os crimes de guerra – muitos – dos EUA no Afeganistão.

Economia do ópio

Sob a ocupação dos EUA, praticamente toda a economia do Afeganistão passou a girar em torno do plantio e colheita da papoula, e o país se tornou o mais produtor do mundo de ópio, matéria prima da heroína. O plantio de papoula chegara quase a ser zerado no último período do Talibã no poder, antes da invasão.

Ao se deparar com a ocupação, o Talibã teve de rever algumas das suas concepções e conseguiu se tornar a principal força de resistência ao invasor. Logo o Talibã, que chegara ao poder com a ajuda dos serviços secretos paquistaneses e norte-americanos, e cujo primeiro ato foi sequestrar o ex-presidente Mohammad Najibullah, que estava sob proteção da ONU, linchá-lo e assassiná-lo, para tentar apagar da história o regime de progresso que existiu no país por uma década, voltado para realizar a reforma agrária, alfabetizar a população majoritariamente analfabeta e estender a cidadania às mulheres e às minorias étnicas.

O Afeganistão nada teve a ver com a derrubada das Torres Gêmeas, obra, como se sabe, pelo menos na versão oficial, de sauditas e paquistaneses, embora houvessem laços com a Al Qaeda. Esta, aliás, cujo nome se refere à ‘base de dados’ usada para pagamento dos jihadistas, e que foi criada sob égide da CIA e da Arábia Saudita, para servir de carne de canhão contra o regime progressista afegão, e acabou saindo de controle anos depois.

Agora, isso é parte da história, e o Afeganistão precisa marchar para a reconciliação e a reconstrução, sem a ingerência dos mandantes de incontáveis massacres – até de garotos catando lenha, de casórios e funerais.

Como reiterou a enviada da ONU Lyons, hoje temos “uma oportunidade de demonstrar o compromisso do Conselho de Segurança da ONU e da comunidade regional e internacional que vocês representam, em evitar que o Afeganistão caia para uma situação de catástrofe, tão grave que teria pouca ou nenhuma comparação neste século”.